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  • Luca Maribondo
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    Coluna


15/03/2011 08:04

Como é mesmo?!

Luca Maribondo

Se há algo realmente incômodo na leitura de jornais, revistas e sites e na audiência de tvs e rádios é a prática de repórteres, redatores, apresentadores e locutores em geral de explicar o significado de algumas palavras, talvez porque as considerem “difíceis”, complexas, intricadas (intrincadas), obscuras ou sei lá o quê. O principal exemplo é doloso, a rainha das explicações. Não tem vez que alguém na mídia cite a palavra que não a traduza a nós ignorantes: “com a intenção de matar”.

Há algum tempo escrevi um comentário no qual citei uma nota sob o título “Família reconhece corpo de brasileira morta na Holanda”, de autoria da repórter Vanessa Assenoff, da Folha de S.Paulo, em que aparece a locução clave de fá, que nos é traduzida, entre parênteses, para um tom musical. Erro! A própria FSP, descubro no mecanismo de busca da gazeta, garante que “clave é um sinal que identifica as notas de uma partitura, fazendo corresponder uma determinada nota a uma determinada linha na pauta”.

Já o Dicionário Houaiss consigna a seguinte acepção para clave: “sinal colocado no início da pauta musical (pentagrama), repetido em tantas pautas quanto as tenha a peça musical, e que determina os nomes das notas, atribuindo o seu nome à nota que estiver na linha em que ela esteja inscrita (são três as claves: de sol, de fá e de dó, colocadas em diferentes alturas da pauta). Finalizando, o Dicionário Grove de Música significa que clave é o “signo colocado no início do pentagrama, pra fixar a altura de uma (e conseqüentemente das outras) de suas linhas ou espaços”.

Há muito tempo —há anos, calculo eu— tento descobrir quais são os critérios da mídia pra “traduzir” para nós, ignorantes leitores, ouvintes, telespectadores, o significado de algumas palavras. Certamente não é a dificuldade que temos em entendê-las. Sempre digo que não existem palavras "difíceis", mas palavras conhecidas e desconhecidas.

Na busca da FSP (é o jornal que leio com mais freqüência) procurei algumas, escolhidas aleatoriamente: terraplenagem (124 ocorrências nos últimos tempos) — entretanto, há ocorrências com a grafia incorreta de terraplanagem —; predecessor (179 ocorrências), convescote (84), lábaro (24), griffe (35) —pergunte a dez pessoas, onze não sabem o significado de griffe —; impeachment (912) — e encontrei a grafia errada impeachement quatro vezes; abdução (26), clivagem (66), exotérico (5) — na maioria das menções o redator está confundindo com esotérico, que é exatamente o contrário. Nenhuma delas tinha o significado entre parênteses, apesar de serem palavras de uso pouco comum.

Entretanto, palavras de uso mais corriqueiro ganharam tradução nos textos dos jornais e revistas. Sempre que se fala de política na Alemanha escreve-se e fala-se a palavra “chanceler” à exaustão. E entre os parênteses lá está a indefectível tradução: premiê ou primeiro ministro. Qualquer criança de primeiro grau sabe que, primeiro de tudo, chanceler é o chefe de governo ou primeiro-ministro em certos países, inclusive Alemanha, e, depois, ministro das relações exteriores ou dos negócios estrangeiros, em outros países, inclusive Brasil. Interessante notar que a mídia não traduz “Secretário de Estado” (EUA) para chanceler. Afinal, o cargo equivale a ministros das relações exteriores em outros países.

Em priscas eras, nos tempos da Guerra Fria, tinha “a” KGB, que a mídia nos informava ser a polícia secreta soviética. E aí cometia logo dois erros de uma só vez: primeiro, que não era simplesmente a polícia secreta coisíssima alguma, mas algo bem mais complexo, quase um Estado dentro do Estado; depois que KGB significava Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti (Комите́т Госуда́рственной Безопа́сности) — em português, Comitê de Segurança do Estado—, e, se era um comitê, KGB não deveria ser “a” KGB, mas “o” KGB, certo?

Agora, com o desastre no Japão, os jornalistas deram de comparar a energia da mexida das placas tectônicas que provocaram o terromoto: o abalo, de 8,9 graus na escala Richter, a energia liberada pelo tremor seria o equivalente à explosão simultânea de mais de 15 mil bombas atômicas. Mas alguém aí sabe qual a energia de uma bomba nuclear pra fazer a comparação?

Fico extremamente incomodado com a colocação do significado de algumas (muitas, na minha opinião) palavras entre parênteses ou de explicações como a da bomba atômica, até porque os redatores também se mostram muitas vezes bem ignorantezinhos. Me considero vilipendiado, achincalhado com essa atitude dos redatores, editores, copidesques, escrevinhadores, ou seja lá o que for, do jornal. Penso que estão subestimando minha sapiência, minha conhecença e minha inteligência. É como se me dissessem: veja, seu idiota!, como você é mesmo um iletrado, estou te dizendo o significado dessas palavras.

Tenho certeza de que não sou o único leitor, ouvinte e telespectador

que se sente desta maneira. Essa é uma atitude muito arrogante do jornal, que poderia ser solucionada de outras maneiras. Por exemplo: os jornais e revistas poderiam criar dicionários nos mesmos moldes dos manuais de redação, que seriam distribuídos aos distintos leitores. Claro que os dicionários teriam que ser tratados com mais cuidado, para evitar os erros.

Os manuais de redação são um caso à parte. Mas não pense que não aprecio os manuais de redação. Eles são meus guia de texto favorito. Tenho-os (juntamente com outras obras assemelhadas) sempre ao meu lado para me auxiliar quando redijo. Os pequenos erros existentes neles são perfeitamente perdoáveis —quem não erra, né? De vez em quando eu até me apanho escrevendo asneiras ensandecidas.

Mas nem eu escapo desses cacoetes jornalísticos. Edito o conteúdo de um site ligado ao meio ambiente. Dia desses, um dos redatores enfiou lá “sinuoso (cheio de curvas)”; não teve argumento para demovê-lo de que aquela era uma atitude arrogante. O mesmo redator, porém, escrevinhou “relicto” em outro texto postado no site — fiz uma rápida pesquisa, e descobri que, de cada dez pessoas, onze não sabem o que significa relicto. Mas ele não colocou nenhuma explicação pro leitor — e nem o Aurélio sabe da existência do vocábulo. Pode procurar.

Mas voltemos ao alfarrábio: que tal chamá-lo de Dicionário dos Ignorantes ou Pai dos Burros? Mas se o dicionário ficar muito caro (e vai ficar!), os jornais e revistas poderiam criar glossários ao final de suas edições, contendo aquelas palavras que os escrevinhadores do jornal consideram “difíceis” para seus desletrados leitores. Tenho até uma sugestão de título pro glossário: Painel do Analfabeto. Ou Acertamos (em contraposição ao "Erramos" existente em alguns veículos).

Por mais que lucubre sobre o assunto, continuo não compreendendo o porquê das acepções entre os parenteses. Elas me servem pouco, até porque eu não confio nos significados dados pelos jornalistas; prefiro recorrer aos dicionários, o que faço sempre que sinto necessidade. Considero a atitude desses jornalistas o supra-sumo da arrogância e uma forma estúpida de ignorância. Tenho a frase a seguir entre minhas anotações, mas não sei quem é seu autor: “a ignorância não se dá apenas pelo analfabetismo. Mas, também pela falta de conhecimento em saber distingüir e dar valor às sapiências alheias.” Ela define exatamente o que penso sobre o assunto.

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concordo com você, muitas coisas que sabemos o significado eles tendem a querer explicar, agora coisas que nem sabemos de sua existência eles não coloca entre tais parenteses.
Outra coisa que muito me deixa furioso com alguns jornais é a redundância de certos reporters, dias atras assistindo um jornal da globo ouço a seguinte frase da reporter "a diretora diz que a morte da criança foi uma fatalidade", ai me pergunto, que morte não é uma fatalidade? se acham a sabia inteligência da terra e cometem tantos erros!!!
 
jefferson alves em 21/03/2011 08:30:30
Parabéns, Sr. Luca Maribondo.
Finalmente alguém que me entende! Meu esposo e eu rimos assistindo ao mais famoso telejornal do MS. Ficamos mais impressionados com a "sabedoria" dos apresentadores e repórteres que com as próprias noticias. Eu que sou uma simples telespectadora, ouvinte das barbáries de todos os dias, fico imaginando como deve ser torturante para quem realmente entende e estuda nossa Língua Portuguesa ver tudo isso.
Acredito que as pessoas deveriam se preparar um pouco mais para estar diante das câmeras passando informação para a massa que os ouve diariamente. Isso sem mencionar os improvisos que vão ao ar, mais comuns que os próprios acertos. Dá a impressão que muitos, não todos obviamente, foram "pegos à laço" como dizemos por aqui.
Obrigada por compartilhar conosco da indignação de todo dia.
Diones Marta
 
Diones Marta em 16/03/2011 05:21:45
Discordo também de você Marimbondo, como o nosso colega Maximiliano disse, nem todos os brasileiros estão preucupados em ir atrás das palavras que desconhecem.
No seu Artigo a varias palavras ou significados que eu desconheço como ("a" KGB) e "Chanceler", não so eu como a torcida do Flamengo inteira.
Mais eu resalto que, as vezes os jornais em geral a midía, exageram na dose mesmo
 
Jose Luis em 16/03/2011 03:16:26
Sr. Luca

Sei que nada tem a ver com a mátéria da coluna, mas ao me deparar com o nome desta cidade (Maribondo - AL), fiquei curioso e lembrei-me logo deste tão respeitado colunista.

Como não sei se o sr conhece esta cidade, resolvi postar por aqui. Tem também um link na Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Maribondo

Saudações.
 
Paulo K. Nomura Jr. em 16/03/2011 03:07:34
Como diria meu bisavô........
Leia nas entrelinhas... mio piccolo!!!
 
Orlando Lero em 15/03/2011 11:14:54
Em trabalhos acadêmicos destaca-se o termo e coloca-se o significado no rodapé da página! Acho esta solução bastante plausível de ser adotada por qualquer meio de comunicação, tanto online quanto impresso. A adoção desta prática, com certeza contribuiria para aumentar o nível de conhecimento do nosso vernáculo pelos nossos conterrâneos!
 
Gerson Eli Santos em 15/03/2011 10:44:31
Prezado Marimbondo, Infelizmente sou obrigado a discordar de todo o seu trabalhoso texto, as pessoas não sabem o que quer dizer semáforo, quiçá, chanceler, os jornalistas estão corretos quando explicam infinitamente o significado de doloso e culposo, quando se trata de homicídio, a população brasileira é toda analfabeta, não só os que não sabem ler ou escrever, mas toda, inclusive os que tem diploma, nunca é demais explicar o que significa uma palavra que não é utilizada no dia a dia, a idéia de se colocar dicionário em jornal, revista e bilhete é pior ainda do que a critica às explicações dos reporteres ou jornalistas, o brasileiro não lê, ele prefere ler a noticia e não entender do que ficar indo atras de dicionario, quase todo mundo tem um dicionario em casa, errado, quase ninguem tem, se voce levantar todas as classes sociais serão poucos os casos da pessoa ter um dicionario em casa, seja ela rica ou pobre, antigamente tinham, hoje não, quem quer consultar dicionario entra na internet, quem não entra na internet não tem liga pra dicionario, a realidade é outra meu amigo ferroador, o ponto "g" da população brasileira é bem, mas beeeeeemmmm, mais em baixo. Um abço.
 
maximiliano nahas em 15/03/2011 08:41:34
É maravilhoso que todos não saibam de tudo....é por isso que existe as profissões, as especicalizações, etc. Não vou me preocupar com "doloso", culposo, pcmso, ppra...os profissionais estão aí para trabalharem e ganharem o seu pão...fala serio! é logico que os brasileiros podem melhorar um pouquinho e assim os jornalistas passem a não precisarem explicar taaaaaanto.
 
agricio araujo em 15/03/2011 03:20:39
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