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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016


  • Luca Maribondo
  • Luca Maribondo

    Coluna


15/06/2011 08:59

Mas é ético?

Luca Maribondo

Superfaturamento, desvio de verbas, troca de favores entre atores do poder público e da iniciativa privada, tráfico de influência como ramo de negócios são situações antigas não só no Brasil, mas em todo o mundo, em nações pobres e ricas. No passado, ao menos aqui no Brasil, eram tolerados, fazendo parte do jogo político —e ainda são: o caso Palocci é um exemplo eloquente.

Os casos de corrupção tinham um certo valor histriônico para os mexericos e as maledicências nos bastidores do poder. Não eram considerados assunto político. Afinal, apontavam-se claudicâncias individuais, e a conclusão se restringia regularmente a apelos morais. De maneira geral, tudo isso acabava sendo tomado como ranço de revanchismo e de uma visão conservadora da política.

Em aparente desprezo pela ética, no Brasil os políticos de todos os níveis e de todos os matizes ideológicos têm ignorado olimpicamente o assunto da corrupção e não apresentam propostas concretas para combatê-la —claro, né? Além de ser um problema moral (todo político —candidato ou no poder— se dirá contrário à corrupção: mas quem admitiria franca e abertamente ser a favor dela?), a corrupção acontece por causa de falhas nos mecanismos de controle do Estado. Até porque há uma grande confusão entre o que e mecanismo de controle e burocracia.

O Legislativo não fiscaliza direito o Executivo —apesar de contar com os Tribunais de Contas em todos os Estados e na União—, a Justiça tem tantas falhas que pouco funciona nesse tipo de caso —até porque há um enorme número de histórias de corrupção entre magistrados de todos os graus —, muitas vezes os procedimentos administrativos parecem propositalmente montados para criar dificuldades e, assim, propiciar a oportunidade de se venderem facilidades. Vejam-se as compras governamentais.

Político, seja ele candidato ou tenha um cargo público, aprecia falar de educação, emprego, segurança, economia, saúde, saneamento. Estes de fato são assuntos que preocupam os cidadãos. Acontece que corrupção também preocupa, e os candidatos não percebem isso —ou fingem que não percebem. Acresce que todo real subtraído dos cofres públicos por conta da corrupção se reflete em redução da capacidade de investimento do Estado —e no seu custeio— e conseqüente prejuízo de programas sociais e econômicos.

Além do mais, a percepção internacional de que a corrupção é alta —e é mesmo!— no Brasil tem efeitos diretos sobre os investidores. Alta corrupção significa maiores custos e uma alta imperícia no planejamento. Portanto uma menor propensão a investir. Numa época em que qualquer soluço na política provoca ataques especulativos e incertezas (reais ou fabricadas, não importa), o anúncio, por qualquer administrador público, de que efetuará um combate frontal à corrupção só poderá ter efeitos salutares. Contudo, não basta apenas dizer que a corrupção é um mal. Disso todos sabem. É preciso muito mais em termos de combate à corrupção.

É claro que alguma coisa mudou nessa avaliação, porque nos últimos vinte e cinco anos o tema da corrupção ganhou um espaço enorme no debate político. De patinho feio, sempre suspeito de esconder uma inveja sobre os bem-sucedidos, a acusação da corrupção passou a ter um enorme apelo midiático.

Hoje é sempre candidata a ocupar as manchetes de jornais. A corrupção se consolidou como tema digno do debate político e intelectual em muitos lugares mundo afora – inclusive por estas plagas. O que aconteceu nestas duas e meia últimas décadas para justificar essa reviravolta? A resposta imediata poderia ser que escândalos aumentam a venda de jornais, marcam pontos na disputa pela audiência na mídia eletrônica. Estaria explicada a atenção que a mídia dá para as denúncias de escândalos.

E na mesma linha pode-se explicar a atenção que os partidos políticos dão para o tema da corrupção. Denúncias de corrupção tornaram-se hoje elemento de grande importante da disputa política. Carimbar o adversário de corrupto pode prejudicar mais a sua imagem do que caracterizá-lo como conservador, ineficiente ou autoritário. A desonestidade não é mais uma característica negligenciável. Ela pode anular ou pelo menos comprometer seriamente uma carreira política promissora. Adicionalmente, quem está à frente das denúncias leva o prêmio da aprovação popular. Palocci é um exemplo: todo poderoso mas não conseguiu resistir às acusações —verdadeiras ou não, não importa.

Por que fatos que rendiam apenas anedotas em jantares, hoje provocam crises de governo e afetam bolsas de valores? Porque os cidadãos reagem de maneira tão indignada à falta de honestidade dos agentes do poder no trato da coisa pública? Um dos motivos pela nova sensibilidade em relação ao tema da corrupção está no seu apelo universal, atingindo os partidários das mais diversas idéias e correntes políticas —não importa a ideologia, todos são contra a corrupção, nem que seja da boca para fora.

Por mais divididos que os partidos políticos e a opinião pública estejam em relação a assuntos como política de segurança, projetos de educação, propostas para a saúde pública, em relação ao tema da corrupção parece haver consenso: ela é inadmissível para qualquer proposta política séria. O tema da correção e da honorabilidade é precondição para o debate e a prática políticos.

Porém, se todos são contra a corrupção, porque ela persiste, não importando a ideologia dos detentores do poder? A resposta pode ser porque nas terras tupiniquins a corrupção seja epidêmica e tolerada por muitos setores. A profusão de expressões linguísticas, entre nós, revela a extensão da doença. Elas vão do chulo ao sofisticado.

Aqui se fala abertamente em entregar o presentinho, dar bola, molhar a mão, dar o melzinho, fazer agrado, finalizar acerto, recolher taxa de emergência, providenciar gratificação, remunerar intermediação, arcar com os serviços de corretagem, contratar a advocacia administrativa e muitos outros. Estaria este país a merecer um dicionário brasileiro da corrupção? Claro que não!

Entretanto, a corrupção está aí, firme e forte. E começa nas eleições, quando o político é ainda candidato a alguma coisa, com as malfadadas compra de votos, com dinheiro ou mercadorias, principalmente alimentos, tijolos, cimento etc. A luta contra a corrupção somente faz sentido para aqueles que apostam na democracia como forma de resolver os conflitos sociais. Considerar o debate sobre leis e normas de convivência uma fachada é uma forma de esvaziar a discussão sobre a corrupção. Do outro lado, a troca de favores e o enriquecimento ilícito contribuem para minar a legitimidade da democracia.

A importância que a corrupção ganhou nos últimos anos na escala de valores da opinião pública indica que os cidadãos não aprovam nenhuma destas duas atitudes. Somente quem tem alguma expectativa que as regras sejam feitas para valer se indigna com aquele que quebra estas regras.

Talvez seja por este motivo que a indignação com os casos de corrupção seja uma postura cada vez mais presente nos Estados democráticos contemporâneos. Para vencer a corrupção existente, é preciso que os cidadãos jamais percam a capacidade de se indignar. A recente criação do Observatório Social de Campo Grande, com o firme apoio da OAB de Mato Grosso do Sul é uma forma institucionalizada de se indignar.

É preciso também vencer uma certa leniência com a corrupção que parece estar arraigada à cultura do brasileiro. Há ainda muita gente que parece invejar e até admirar a riqueza adquirida através da corrupção – seja no poder público seja na iniciativa privada. É preciso que todos se conscientizem que invejar os corruptos já é meio caminho andado para se tornar um corrupto também. É necessário reparar bem se os constantes ataques de alguns à corrupção não vêm sempre com uma pontinha de inveja.

Concluindo no caso do ex-ministro Antonio Palocci, que foi demitido na há alguns dias: ele alega que fez tudo dentro da lei. E talvez tenha feito mesmo. Mas é bom atentar para o argumento de que nem toda lei é ética ou moral —há leis imorais, indignas, injustas, aéticas: o garrote vil, na Espanha, era lei. O nazismo, na Alemanha, era lei. A escravidão, no Brasil, era lei. Quer dizer, era legal, mas era ético?

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Concordo plenamente com vc Luca, além de sua seguidora,o Brasil está num descaramento grande, onde as pessoas perderam a vergonha e o descaramento diante de tantas roubalheiras. ,fazendo disso legal, pq eles criam as leis, leis essas, sem eticas e posso até dizer imoral.
 
rose mary helena garcia feitosa em 23/06/2011 08:35:00
Luca ja que o assunto e etica, valores, cidadania etc. etc. etc.... entao vejamos: quando inauguraram a CENTRAL DE ATENDIMENTO da prefeitura municipal nos usuarios dividiamos com os funcionarios todo o patio. Ai repartiram parte para os funcionarios e outra para os usuarios. Depois cortaram mais uma fatia dos usuarios e agora mudaram tudo diminuindo ainda mais o nosso estacionamento. Ao que tudo indica para o proximo ano um espaco moderno de uso nosso, se quizermos usar o mesmo vamos ter que procurar vagas pelas ruas no entorno da mesma. Mas tudo tranquilo as ruas por ali estao desertas...Que valores temos nos usuarios? ah sim temos que nos contentar com pagar, o resto que se dane. Acorda Nelsinho, as coisas estao acontecendo debaixo do seu travesseiro e pode lhe tirar o sono amanha.
 
DUILIO COSTERMANI em 20/06/2011 03:14:27
Grande Luca! Perfeito o seu raciocínio e o seu texto. Parabéns.
 
EDSON PAULUCCI em 19/06/2011 08:23:00
Há no Brasil o mito de que tudo que é legal é ético. O Sr. está certo, Luca Maribondo: nem sempre a ética acompanha a legalidade. Está na hora de desmitificar esse conceito.
 
Julia Hanna Saboia em 17/06/2011 10:11:44
Meu amigo, pensar que o legislativo vá resolver o problema da corrupção é o mesmo que colocar a raposa para cuidar das galinhas e esperar que não aconteça nada. Penso que esse é um mal que não tem cura. Vai haver bons políticos com certeza porém nunca serão eles que darão as cartas no final. Infelizmente!!
 
GILMAR SOUZA CRUZ em 17/06/2011 09:58:04
Acredito que, com as dificuldades financeiras que o mundo tem encontrado ultimamente, a corrupção se transformará em pandemia. No Brasil já o é desde nosso descobrimento. Mas acredito, ainda, que possamos, apostando na honestidade de cada pessoa, mudar esta perspectiva. Quero acreditar quem, no Brasil, a maioria é do bem.
 
Edson Junior em 15/06/2011 10:13:36
Parabens pela reportagem. A corrupção é nosso maior problema, e infelizmente quem coloca os corruptos no poder é o eleitor. O que revolta é isso, nós elegemos e os politicos(grande maioria) atuam contra quem os coloca no poder. Vejam os aumentos salariais que eles aprovam para si proprios, e depois vem com o discurso que não da para aumentar o salario do trabalhador em vista do défciti das contas públicas.

É hora da população começar a reagir contra essa bandalheira que se transformou a classe política.
 
ADELIBIO AZAMBUJA em 15/06/2011 09:39:34
Oba!Bem vindo a minha tela amigo Luca Maribondo. Abraços.
 
Teresa Moura em 15/06/2011 04:58:30
A corrupção é o grande mal do nosso país. Com diz o Boris: é uma vergonha. E com o PT a corrupção foi legalizado. Acho que nós estamos errados, certos estão eles.
 
paulo nunes lacerda em 15/06/2011 02:12:58
A lei do imposto de renda tambem é lei, mas é justa, etica, etc.?
 
agricio araujo em 15/06/2011 01:39:35
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