A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016


  • Luca Maribondo
  • Luca Maribondo

    Coluna


21/03/2011 08:57

Perspectiva dos anjos

Luca Maribondo

Desde que me entendo por gente, politicamente me coloquei na posição da esquerda, até porque minha índole é anarquista e a esquerda era o que mais se aproximava do anarquismo. Logo... A frase-lema de Pierre-Joseph Proudhon — “Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo” — sempre foi pra mim uma diretriz.

De modo geral, as pessoas classificam anarquistas como criminosos, Mas minha modesta concepção é simples: a diferença que existe um sociedade estatal e uma sociedade anárquica é a mesma que existe uma estrutura e um organismo; enquanto uma é construída artificialmente, o outro cresce de acordo com leis naturais. Simples assim.

Mas meu foco neste texto não é o anarquismo, mas as diferenças entre esquerda e direita no mundo moderno. Quase sempre dogmáticos, os historiadores, descrevem as grandes ideologias do século XIX —conservantismo, liberalismo e socialismo— com a ajuda de um modelo conceitual que situa esses movimentos num contínuo de direita para a esquerda (ou vice-versa), de acordo com sua preferência pelo status quo hierárquico (a direita) ou pela reforma liberalizante e igualitária (a sinistra). Ao final do século 20, com o eclipse tanto da esquerda histórica (socialismo) quanto da direita histórica (conservantismo), as posições de "esquerda" e "direita" não parecem mais definíveis com tanta limpidez como acontecia no início do século passado.

Também parece superada hoje a diferenciação esquerda-direita, por causa da nova proeminência das questões ambientais, superando em parte as questões da distribuição econômica, sobre as quais se baseava, em termos históricos. Há também questões éticas e filosóficas. Uma pressuposição fundamental do capitalismo industrial do século 19 e de seus críticos socialistas —a de que é possível ter uma contínua acumulação e expansão econômica— não prevalece mais. A distinção esquerda-direita, porém, conserva sua utilidade para a compreensão dos objetivos e valores fundamentais dos movimentos políticos no século 21.

Só pra recordar, a terminologia esquerda-direita surgiu na Convenção Nacional da Revolução Francesa (1789): as facções mais revolucionárias sentavam-se do lado esquerdo da mesa diretora, enquanto os parlamentares mais conservadores permaneciam à direita. Os deputados da esquerda eram favoráveis a reformas que levassem a mais liberdade e igualdade, enquanto os da direita preferiam os arranjos mais tradicionais e mudanças menos profundas.

Na extrema esquerda estavam os movimentos que favoreciam a igualdade econômica compulsória; na extrema direita estavam os monarquistas, que queriam restaurar os privilégios aristocráticos e o poder absoluto da monarquia e da aristocracia, além de fortalecer o poder econômico da burguesia e do patriciado.

A igualdade e os direitos das pessoas eram os valores fundamentais que determinavam a localização dos movimentos no espectro político. Quanto maior o compromisso de alcançar igualdade, mais pra esquerda o movimento se situava na percepção dos contemporâneos. A esquerda defendia a progressão para uma sociedade mais democrática; a direita propunha a manutenção ou restauração das hierarquias e relações sociais costumeiras. Nos extremos do espectro ficavam as facções que propunham a revolução, quer para alcançar a igualdade e acabar com a hierarquia, na esquerda, ou para restaurar a hierarquia e impedir a igualdade, na direita.

O que complica esse modelo conceitual, no entanto, é a contradição entre fins revolucionários e meios que surgiram na prática, depois da Revolução Comunista da Rússia em 1917. Para os bolcheviques, na extrema esquerda, o compromisso com a revolução social igualitária era tão grande que virtualmente qualquer meio —violência, demagogia, terrorismo, ditadura— parecia aceitável para a realização dos seus fïns.

Essa disposição para recorrer a métodos radicais leva ao paradoxo, observado com freqüência na história de que os métodos rigorosos de revolucionários da esquerda muitas vezes abalaram seus proclamados objetivos igualitários e democráticos. É por isso, que os esquerdistas mais radicais aceitam passivamente criminosos como Stalin, Mao Tze Tung, Muammar Ghadaffi, Fidel Castro e tantos outros, acusados de grandes chacinas de adversários. Até ditadores de fancaria do tipo Hugo Chávez são aceitos incondicionalmente.

A direita, por seu lado, se não chega a endeusar figuras como Adolf Hitler ou Benito Mussolini, aceita impassível meliantes do tipo Harry S. Truman, o da bomba atômica, George Bush, Idi Amin Dada, Papa Doc, Juan Perón e outros do mesmo calibre. Alguns chegam a ser homenageados com nome de rua —veja o caso do comissário Filinto Müller, o truculento chefe de polícia da ditadura Vargas (que me concedeu sua última entrevista, para o extinto Diário da Serra). Cada lado tem o criminoso que merece. Resumindo: pimenta no fiofó alheio é refresco.

Recentemente, o poeta e cronista Ferreira Goulart escreveu no jornal Folha de S. Paulo que "(...) entendo que a dificuldade de definir, hoje, esquerda e direita é consequência do avanço das ideias progressistas. Conhece alguém que se oponha à construção de uma sociedade justa? Eu não conheço. Difícil mesmo é chegar lá."

A idéia das velhas esquerdas dos anos 1950 a 80, de luta armada, totalmente fora da realidade, só serviu para estimular a reação antidemocrática. Não me entusiasma a sociedade de consumo desenfreado, nem penso que o mercado seja o árbitro de todos os valores. Esses têm de vir da cultura, da sociedade, das pessoas. Sem radicalismos de "direita" e "esquerda". "Todas as revoluções passam", dizia Kafka, "e só resta o lodo de uma nova burocracia"...

Não estou certo de que a discussão política sobre o que distingue a direita da esquerda seja apenas uma questão política ou se é, antes, uma questão filosófica relevante. Aliás, é muito raro encontrar tais conceitos na literatura filosófica. Seja como for, há uma tendência muito frequente nas discussões sobre direita e esquerda que me parece filosoficamente estéril e que consiste em caracterizar ambos os lados de tal modo que se torna imediatamente óbvio a uma mente equilibrada que um deles está errado e o outro certo.

Se, na caracterização filosófica de uma disputa, se torna evidente, para um ser racional interessado na verdade, que num dos lados estão os bons (ou os que pensam bem) e no outro lado os maus (ou que pensam mal), então tal caracterização nada tem de filosófica. A distinção em causa não passaria, nesse caso, de uma diferenciação pseudo-filosófica. Mas é sempre bom ficar como o vesgo, olhando pra os dois lados: cuidado quando a esquerda e a direita estão de acordo!

Ou esquecer o horizontalismo da questão, verticalizando-a: os bons no alto, os maus embaixo. Mesmo porque hoje a diferença fundamental entre esquerda e direita é que a direita quer deixar a barraca firmemente armada e a esquerda quer chutar imediatamente chutar o pau da dita cuja barraca. Eu prefiro ficar por cima e olhar as coisas da perspectiva dos anjos.

Como herói
Cheguei em Campo Grande em 25 de setembro de 1972, vindo do interior de São Paulo —há exatos quarenta anos, portanto. Havia completado 25 anos três d...
Autismo politiqueiro
Autismo politiqueiroNesta época em que as eleições estão nas ruas e as campanhas eleitorais pegando fogo, mais quentes do que bolso de cabo eleitoral...
O refúgio dos patifes
Patriotismisthslastrefugeof a scoundrel (o patriotismo é o último refúgio de um patife). Pelo menos uma vez a cada quatro anos pensona frase célebre ...
Que tal chamar o ladrão?
Faz uns dias, emissora de TV local veiculou breve reportagem (na televisão, quando o assunto é sério é breve) sobre o roubo de energia elétrica. E co...



Resposta ao Sr. Antonio Carlos. Estude um pouco mais, meu caro.
 
Luca Maribondo em 03/04/2011 12:09:07
Como é bom ficar em cima do muro. Esquerda ou Direita eis a questão. Acontece que o contexto histórico vai se modificando nas relações das forças de trabalho, forças produtivas e o capital. O que é inaceitável é ser anarquista e não fazer nada para melhorar a sociedade em que está inserido, ao mesmo tempo em que não contribui para um processo democrático. Ou será que ao ser anarquista ninguém irá também mandar e gerenciar a sociedade. Exemplo que temos chama-se comunismo, ao desabar mostrou a sua ineficiencia. O socialismo tambem. Restou o capitalismo e suas convulsoes. Entao aos anarquistas de plantao seria melhor criar novas perspectivas no novo mundo. Do que querer mostrar que Esquerda e Direita caminham par e passo. E voces o que estao esperando para melhorar o mundo. Pelo visto so ficam se aproveitando daquilo que sao contrarios. Mude para nao ser moldado.
 
ANTONIO CARLOS em 02/04/2011 12:06:30
Os anjos sao democratas...infelizmente ainda tem muito esquerdista...com saudades da URSS...eu por ex...achava Prestes o maximo...ate a entender que o Stalinismo matou mais que o nazismo...e "O Cavaleiro da Esperanca" achava Stalin o "maximo"...dai veio a queda do muro de Berlin...e pronto a Grande potencia URSS, virou Russia e ninguem deu um tiro pra defender os proletarios de Marx e Engels...simplismente o "socialismo" nao funciona...e a CHINA do grande irmao...cada dia que passa ...abre mais e mais o sistema...pra "direita"...ou seja >>>esta se bandeando pro capitalismo democratico...hummmmmm.....os "camaradas" se foram...nao deu certo...nao funciona...se tive-se funcionado...estaria dando certo...e la na pobretona Albania...os camaradas do PC do B...ficariam arrepiados de saber que foi o unico ligar do mundo que recebeu de bracos abertos George W Bush...sim..ele mesmo o filho...cade os esquerdista???devem estar no Movimento Sem Terra ou em alguma faccao do PT.
 
Lucidio Estevao em 01/04/2011 12:59:05
Belo artigo do Luca Maribondo. Eu já havia me esquecido do termo Esquerda e Direita, e o que diferenciava um do outro. Atualmente estão muito semelhantes. E se nós diferenciássemos pelo bolso. Aquele que guarda o dinheiro no bolso esquerdo, e o que guarda no bolso direito. Será que não seria mais adequado e atual?
 
Paulinho Barbosa em 24/03/2011 11:47:31
Os anjos jamais vão se encarnar meu caro amigo. Quem o fez foi o próprio Deus uma vez por todas para o nosso bem. Quem não se "encarna" de fato na sua própria história procura sempre um vies histórico para justificar-se. Deus é que está sempre modelando o nosso barro. Para aqueles que permitem, é claro!
 
GILMAR SOUZA CRUZ em 21/03/2011 09:44:44
Hoje, nada mais anacrônico do que essa separação maniqueísta de esquerda e direita. Não da pra definir claramente o que é esquerda ou direita. Um exemplo disso foi a Ditadura Militar, o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil (1964 a 1985) e caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar. Era tidos como a extrema direita, mas tomaram atitudes tipicamente de esquerda, como a quase total estatização da economia.
 
Bianca Helena Mann em 21/03/2011 03:47:35
imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions