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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016


  • Luca Maribondo
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    Coluna


21/07/2011 23:16

Santa mediocidade

Luca Maribondo

Brasileiro tem uma especial vocação para alimentar os países do hemisfério norte. E está sempre macaqueando coisas daquilo a que se habituou a chamar de primeiro mundo, embora não saiba exatamente o que é esse tal de primeiro mundo. Muitos garantiam que o primeiro era o mundo civilizado, desenvolvido; o terceiro era o mundo asselvajado, pobre, indigente. E o segundo? Este ninguém nunca soube do que se tratava.

A expressão surgiu nos idos da Guerra Fria e é usada até hoje. Desde aquelas eras nada era mais colonizado do que apregoar que alguma moda, algum comportamento, algum produto coisa do primeiro mundo, como até hoje é in no publicites nosso de cada dia. Tudo que o que bom (e muita coisa que não é boa também) ganha o rótulo de “primeiro mundo”.

Pessoas de todas as atividades, ansiosas por impressionar desandam a utilizar no dia-a-dia estrangeirismos de forma errada e mandam frases do tipo: “isso é um plus a mais para a empresa”: plus já significa a mais! E o pior é muitas vezes tais pérolas viram vocabulário comum, encobrindo a pobreza e a falta de bom senso no uso da língua —pura mediocridade.

É o caso, por exemplo, da expressão busdoor, inventada por geniais publicitários. Derivada de outdoor, locução que significa “ao ar livre” em inglês —na comunicação, significa qualquer tipo de publicidade feita ao ar livre— busdoor teria de ser traduzida, literalmente, como “porta de ônibus” (bus, redução do latim omnibus mais door, porta em inglês). Mas a expressão, em publicitês, denomina, pasme leitor!, esses painéis publicitários que vão nas janelas traseiras dos coletivos.

Mais grave ainda é quando as expressões, em vez de comunicar, tornam-se ruído, impedindo que áreas como a comunicação e o marketing cumpram seus principais papéis: atingir o público. Sem discussões mais profundas sobre os quinhentos anos de "colonialismo" no Brasil, responsável em boa parte pelo encantamento da sociedade por tudo que vem de fora, principalmente dos Estados Unidos, o assunto merece reflexão, não só para evitar que profissionais e os cidadãos comuns vivam caindo no ridículo, mas especialmente por alguma interferência que possa vir a ter nos negócios.

Para o professor Pasquale Cipro Neto, especialista em língua portuguesa, é uma grossa bobagem pensar que uma língua pode se fechar para o mundo. “Mas também não dá para entrar no clima de ‘liberou geral’ e usar estrangeirismo por modismos ou só por usar”, argumenta ele, que alerta: “Pode ser um tiro no pé”. O próprio Cipro Neto lamenta por um dono de pizzaria que perdeu várias vendas devido um folheto mal explicado. Apesar do seu produto ser melhor do que a da concorrência, havia a palavra delivery estampada no cardápio, mas não deixava claro que eles entregavam em casa, o que fazia com que muitos clientes escolhessem outras pizzarias.

Erros como estes são mais comuns do que se imagina. Até porque muitas pessoas usam palavras estrangeiras sem conhecerem seus significados exatos. É o caso de delivery, por exemplo, que, entre outras coisas, significa dar à luz. Mozzarella, uma palavra italiana de uso corrente no Brasil, é sempre grafada como mussarela, o que é um erro grosseiro.

Para essa massa ignara que não costuma usar o cérebro pra pensar, é bom lembrar que, mesmo em tempos de globalização, comunicação planetária via Internet e a institucionalização do inglês como um “novo esperanto”, é bom saber que ainda há pessoas que falam português no Brasil. Quando se trata de comunicar é fundamental o emissor da mensagem saber reconhecer o perfil do receptor para, pelo menos, minimizar os ruídos. Em plena época de liquidação, quando o que o comerciante mais quer é queimar todo o estoque, por que então complicar com cartazes de desconto, como "50%off", quando no mais das vezes o consumidor mal entende o português?

Por conta do comodismo e do colonialismo cultural, a coleção de bobagens vem aumentando rapidamente. Dia desses, numa fila de banco, ouvi duas pós-adolescentes conversando sobre os benefícios de seus telefones portáteis, mais conhecidos como celulares (a grande maioria dos usuários não sabe porque são telefones celulares!). A primeira cantou todas as vantagens do seu Tim. Ao que a outra retrucou: “Eu ainda prefiro o meu ‘Vaivo’, que faz tudo o que eu quero e ainda por cima é mais barato”. Não me agüentei e ri —e recebi um olhar de imensa reprovação da moçoila, que se referia à operadora de celulares Vivo.

Esse tipo de comportamento é tão bizarro quanto o de turistas que voltam de Nova York com frases do tipo “Adorei o edifício The Empire State Building”, como se building (edifício) fizesse parte do nome do prédio e, por conta disso necessitasse ser repetido. Casos ainda mais doidos viraram até piada: uma turista revelou a uma amiga, sem perceber a diferença do nome de rua com um semáforo: “Achei uma store ótima na esquina da Walk [ande] com a Don´t Walk [não ande]”.

Além de toda uma história de colonialismo cultural, o uso de estrangeirismo está ligado à origem norte-americana de atividades como marketing e publicidade e do forte impacto da cultura pop na comunicação. Alguns procuram se policiar para evitar o uso exagerado de outro idioma nas conversas e nos textos, mas muita gente não consegue.

Muitas vezes surgem situações constrangedoras, como a de um empresário campo-grandense que, há alguns anos, queria colocar a canção “Mother” (Mãe), de John Lennon, na trilha de um comercial para tv da sua loja para o Dia das Mães. A mãe do título da canção do ex-Beatle Lennon refere-se a uma mãe desnaturada: a própria genitora do compositor, que o abandonou na infância. Ele começa dizendo “Mother, you had me/But I never had you/I wanted you/But you didn't want me”; o que, em tradução livre, quer dizer: “Mãe, você me teve/Mas eu nunca tive você/Eu te queria/Mas você nunca me quis”.

Resumindo, entrega em domicílio virou delivery. Nas vitrines, a liquidação é anunciada como sale. Nem o popular campeonato de futebol resistiu, e foi invadido por expressões como play-off e soccer. Se no dia-a-dia o uso de palavras em inglês é um hábito comum, no ambiente corporativo os estrangeirismos já podem ser considerados uma verdadeira epidemia. Quem nunca ficou em dúvida ao ouvir termos como target, start up, follow up, heavy user, blitz, prospect, branding, entre tantos outros que povoam o cotidiano das empresas e organizações?

Não é o caso de ser nacionalistas ou xenófobos, rejeitando contribuições da língua inglesa ou outra, mas é aconselhável avaliar se o uso exagerado dos estrangeirismos não está comprometendo a eficiência da comunicação. Tudo isso ampliado pelo uso dos computadores, que introduziram uma enorme série de idiotices no idioma, tais como colocar o algarismo zero à esquerda de números simples, (01, 03, 09 etc. e tal), escrever os dias da semana e os nomes dos meses com a inicial maiúscula, (Sábado, Segunda-Feira, Fevereiro, Setembro etc.), manias generalizadas entre publicitários e redações de jornais e televisões.

O fato é que, em alguns casos, o uso indiscriminado de termos estrangeiros pode atrapalhar a eficiência e a competitividade de uma organização. Será que ao colocar uma placa, identificando-se como drugstore, a farmácia/drogaria está adotando uma estratégia de comunicação adequada à sua clientela? No mesmo caso encontram-se as lojas que substituem a entrega em domicílio pelo pedante e cabotino delivery. Nos dois exemplos, a adoção do estrangeirismo em nada contribui para tornar a comunicação mais eficiente.

Por trás do uso excessivo de palavras em inglês esconde-se a falta de auto-estima dos brasileiros com a sua língua e sua cultura. O dono da loja acredita que o sale confere status e um ar mais sofisticado à sua liquidação. A língua, desta forma, é usada mais para passar uma imagem elitizada do que para comunicar. Os estrangeirismos, nesse caso, apontam para a discriminação social, agravando-a ainda mais. A maior parte das pessoas não compreende a mensagem e fica à margem do processo de comunicação.

O uso excessivo de palavras estrangeiras, principalmente inglesas, no Brasil demonstra cabalmente que nunca houve no comportamento social e cultural do brasileiro tanto desperdício de mediocridade. A mediocridade não é uma coisa nova —os antigos também conheciam a mediocridade. Mas só hoje se usa delivery para oferecer entrega em domicílio; 50% off, para anunciar desconto; bullying para falar de intimidação; sale para designar liquidação. Gente assim —que, infelizmente, está se tornando a esmagadora maioria— é tão medíocre que nem do dia dos seus próprios funerais vai conseguir ser o centro das atrações.

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dias atraz mandei um email...discordando da posicao do ilutre colunista/nao foi publicado/...que alias leio regularmente...porem nem sempre concordo com a posicao do mesmo diante de determinadas questoes..uma delas e esta...clamo pelo direito do portugues brasileiro....evoluir ...pois o que vale mesmo...e a lingua que as pessoas falam, leem e sobrutudo usam ...no seu cotidiano...sendo objetivo: ..nossa lingua esta certamente AVANCANDO...com expressoes em ingles e mesclando as duas linguas isto na minha opniao e EVOLUCAO..em tempo real...nao tem como voltar o tempo...mundo globalizado... se vc mora fora do pais nao e capaz de imaginar que o BRASIL e o pais da vez...deixamos de ser o pais do FUTURO...somo do presente...e deixamos de dormir em berco explendido...estamos nos impondo...a nivel global...mas tb estamos absorvendo uma linguagem do tamanho...da nossa economia...nao adianta parar o tempo...vamos sim e tirar proveito dessa situacao...e that's it...uai.
 
Lucidio Naveira em 27/07/2011 11:51:35
No Brasil não é de hoje que, não só a lingua mas varias outras coisas são "copiadas" do exterior, até algumas grandes empresas começaram copiando negócios de fora, deram certo, e hoje fazem o maior sucesso nacionalmente. Aí quando você vai ver tem uma empresa praticamente igual fora.
 
Rafael Vieira em 26/07/2011 10:54:20
Juro que vi dias atrás na periferia de Campo Grande, na fachada de uma loja: Hairdresser hall. Parei o carro na hora e dei marcha ré, só pra constatar que não havia errado: O antigo salão da dona Noêmia, ótima cabeleireira, das antigas, agora chama-se Noêmia 's Hairdresser Hall. Chique, não? Seu Francisco, falecido profissional do ramo fotográfico, deixou para os filhos os caminhos da profissão. Os meninos cresceram e resolveram dar uma sofisticada nos negócios, que agora é conhecido como Photographer Store, com direito a placa de alumínio, que é pra chamar ainda mais a atenção. O mesmo se deu com a Alfaiataria do seu Plínio, outro que partiu dessa pra melhor, mas os filhos invocaram de mudar o nome do negócio, que agora é Almeida 's Taylor, escrita errada por sinal, já que tailor de alfaiate, em inglês, se escreve com i e não y. Minha sogra é costureira, meu avô açougueiro. Duvido que não me mandem para o raio que parta se eu invocar de chamá-los de seamstress e butchery. Simplesmente ridículo isso tudo. Pra terminar, discordo do professor Pasquale e outros letrados que não se preocupam em defender o velho e bom português. Por mim, proibia tudo isso. Mas é proibido proibir. E já que citei Caetano Veloso, vamos lá: A lingua é minha pátria. E eu não tenho pátria, tenho mátria e quero frátria. É isso ai.


 
ANDRÉ LUIZ ALVEZ em 26/07/2011 09:24:22
Parabens Luca, nós brasileiros temos que dar valor ao que é nosso, nós já ´poderiamos ter evoluido muito mais, tanto nossa linguagem quanto, tudo que de bom existe em nosso país, nós aqui não sofremos com ; terremotos, vulcões,guerras com países externos, então temos que agrsadecer a Deus por ter-mos nascidos e vier-mos em país igual o Brasi, o que precisamos é ser mais patriotas,pensar mais com a cabeça do que com os ouvidos.
 
porfirio vilela em 26/07/2011 08:31:08
De um país que não se exerce nem o direito e respeito as leis, falar e se espressar passou a ser secundário, algo que quando quiser e for conviniente, se faz. Ser malandro ou meramente personificar ídolos da tv americana no Brasil é a bola da vez e como a midia entra em nossas casas e por alí tem lugar cativo, já seria a hora de pessoas que detem o poder, dar uma faxina nesse principal meio que se tudo não for combatido a começar por lá, não vai haver nada que consiga educar o nosso povo se medidas não forem feitas. Se tudo que é americano é bom ou lindo ter ou dizer, entrou tudo pela tv, se dissipou pela tv.
 
Paulo de Melo Neto em 24/07/2011 03:41:47
Caro Luca, bela reflexão, a raiz do problema esta em nossos costumes, voce pode perceber que todas as expressões internacionais que o povo brasileiro utiliza são derivadas dos estados unidos, não da França, não da Italia e não da Inglaterra, todas são provenientes dos norte americanos, infelizmente o povo brasileiro, e boa parte do resto do mundo, morre pelos estados unidos, acham aquele país, no meu ver mediocre, o máximo, não sei se é possivel mudar isto, pois hoje, 100% dos filmes que todos assistem seja no cinema, na globo, no sbt ou em qualquer emissora de tv aberta ou não, são estados unidenses, e quando não estamos vendo estes filmes as emissoras de tv fazem questão de também rasgar a seda para este país e inserir estas palavras no cotidiano do brasileiro, empresarios que vão até a terra do tio Sam, voltam achando que sabem mais do que todos que nunca lá estiveram, é o mesmo caso do interiorano que vai a São Paulo fica tres dias e volta com sotaque de paulistano, eles simplesmente acham que os outros são melhores do que nós e que se eles se assemelharem mais aos ditos desenvolvidos, todos acharão que ele se desenvolveu também, é triste mas é a realidade o brasileiro ama os outros e acha que qualquer um que não seja brasileiro é melhor do que ele, nós temos é que nos valorizar mais, mas isso é o mesmo que decidirmos que não colocaremos mais politicos corruptos no poder, praticamente impossivel.
 
maximiliano nahas em 23/07/2011 09:57:30
Luca, a rapidez da evolução cibernética representa uma pequena revolução na grande revolução de costumes. Dentre os hábitos, perdemos o de ler e escrever. Aboliu-se o paladar. Já não se degusta as palavras.
 
Dirceu Martins de Oliveira em 22/07/2011 10:20:48
Como sempre ótimo Luca.... muitas vezes ao sair de casa me questiono se estou no Brasil e ainda, temos um costume (até pior que supervalorizar o norte-americanos) de NOS desvalorizar, nossa língua, nossa gente, nossos costumes.
Parabéns.
 
SANDROTRINDADEBENITES em 22/07/2011 03:50:36
Luca Maribondo, perdoe-me por ter errado seu nome. Concordo plenamente contigo, por isso aprofundei em meu francês e continuo estudando o meu português.
 
Neuci Augusta Fonseca em 22/07/2011 02:42:30
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