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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

02/11/2016 14:42

Futebol feminino avança aos poucos; em MS, seletiva é oportunidade e sonho

Amanda Bogo
Meninas participaram nesta quarta-feira de seletiva para compor o elenco do time do Comercial em 2017(Foto: Amanda Bogo)Meninas participaram nesta quarta-feira de seletiva para compor o elenco do time do Comercial em 2017(Foto: Amanda Bogo)

O gramado é verde, porém com algumas falhas em sua extensão. Nos cantos, gols com traves enferrujadas e sem redes. Dentro deste contexto, meninas com idade acima de treze anos vestem chuteiras, coletes e jogam por uma vaga na equipe feminina do Comercial para o ano de 2017. Mais do que isso, elas brigam pela realização de um sonho. 

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Este ano foi importante para avanços e conquistas do futebol feminino, mesmo que tenham sido dados pequenos passos e ainda há muito a ser feito. Primeiro, foi a seleção feminina que encantou a todos durante a Olimpíada no Rio de Janeiro. Mesmo sem medalha, elas conquistaram a admiração e o respeito de grande parte da população, além de colocarem o esporte em evidência, assim como os problemas que o cercam. 

Tempos depois, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), durante reformulação na Libertadores da América, passou a exigir que as equipes que disputam a taça tenham times femininos em atividade. 

Nesta semana, outros dois fatores foram importantes. Emily Lima foi nomeada para o comando da Seleção Feminina, e essa será a primeira vez que uma mulher desempenhará esse cargo, além da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ter criado a série B para o Campeonato Feminino Brasileiro, que será maior, com mais jogos e patrocínio da Confederação. 

Para quem sonha em viver do esporte, é uma esperança que se acende de que agora as coisas podem começar a melhorar. Para quem trabalha no meio, apesar da conquista, a batalha tem que continuar.

O sonho de Ziza é jogar profissionalmente e ajudar os pais financeiramente (Foto: Amanda Bogo)O sonho de Ziza é jogar profissionalmente e ajudar os pais financeiramente (Foto: Amanda Bogo)

"Homem não gosta que meninas joguem melhor que eles" - Nátali Gabrieli da Silva Nunes tem 17 anos e deu os primeiros chutes aos 7 anos. Desde então, viver como jogadora profissional é o sonho da menina. "É uma coisa inexplicável. Não tenho nada em mente além de jogar e ajudar meus pais. Dar orgulho a eles pelo futebol", conta Ziza, apelido da infância que, segundo ela, "é de futebol também. O técnico disse que é nome de jogadora". 

O interesse começou na rua, jogando bola com os primos." Jogava e gostava. Via eles e queria fazer melhor. Sempre achei legal", conta. Corinthiana e fã de Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi e Cristiane, diz não ter um time preferido para jogar. 

Essa é a primeira seletiva que Ziza participa. Quando tinha 14 anos, recebeu uma proposta para fazer um teste na Vila Belmiro, para jogar pelas Sereias da Vila. "Minha mãe estava grávida e não deixou eu ir. Achou estranho alguém aparecer querendo levar uma menina para jogar futebol".

Questionada sobre o preconceito em ser jogadora, ela disse que antes se incomodava, mas hoje não sente mais. "Antes sofria, me chamavam de Maria Machão e ficava mal. Hoje não ligo, porque sei que homem não gosta que meninas joguem melhor que eles". 

"Falta apoio para atingir o nível nacional" - Técnica da equipe feminina do Comercial, que disputou a Copa do Brasil neste ano, Romilda Campos, 47 anos, dedicou 10 anos de sua vida ao futebol. De jogadora a comandante, ela conhece bem as dificuldades que o futebol feminino enfrenta.

"Faltam pessoas que montem times sem esperar ganhar algo em troca. Por isso o futebol feminino não vai para frente. As empresas daqui também tem receio de investir na gente porque acham que vamos cometer os mesmos erros que as diretorias do masculino dos times de Campo Grande comenteram", afirmou sobre a falta de patrocínio.

Sobre o preconceito, a técnica comentou que "antes o preconceito era maior. Era terrível uma menina jogar futebol. Fico triste, pois ainda hoje tem meninas boas e os pais prendem por preconceito. Isso é triste. Os pais precisam entender que não tem nada de errado em jogar futebol. Prender é que vai fazer com que elas façam coisa errada".

Para Romilda, o futebol feminino em MS teria maior oportunidade se tivesse apoio financeiro (Foto: Amanda Bogo)Para Romilda, o futebol feminino em MS teria maior oportunidade se tivesse apoio financeiro (Foto: Amanda Bogo)

A respeito da participação do Comercial na Copa do Brasil, eliminado logo no início da competição, Romilda lamentou a falta de apoio. Para ela, caso as meninas tivessem ajuda financeira, poderiam se dedicar mais aos treinos e teriam avançado até etapas decisivas.

"É dificil porque trabalha bastante e chega lá... Só pecamos no detalhe do apoio. Os times eram iguais, a diferença das adversárias é que elas treinam todos os dias. Aqui treinamos no fim de semana ou duas vezes na semana, porque elas (jogadoras) trabalham. Com o apoio, elas poderiam se dedicar mais e estariam mais motivadas. Poderíamos ter avançado na Copa do Brasil, para o Campeonato Brasileiro e até na Libertadores".

A técnica comentou sobre a escolha de Emily Lima para o comando da seleção. "Tava na hora de uma mulher assumir, isso deveria ter sido feito antes, nos Estados Unidos já tem, porque aqui não teria? Também acho que precisa ser feita uma reformulação lá. Já deu o que tinha que dar, porque as meninas subiram no salto. Tem que se doer pela camisa".

Das vinte atletas que participaram da seletiva realizada na manhã desta quarta-feira (2), quatro ou cinco serão escolhidas para integrar o elenco do Comercial. "Quero meninas que tenham o sonho de jogar, o compromisso com o futebol e o estudo. São todas boas e gostaria de ter oportunidade de trabalhar com elas. É pouco tempo para observar e tirar tudo daqui".

Para todo o time em 2017, a expectativa é de conseguir apoio para dar auxílio as jogadoras. "Queremos oferecer uma estrutura melhor, poder dar uma ajuda para elas, mesmo não sendo um salário. Não é justo trabalhar e jogar. Falta apoio para atingir o nível nacional. O pouco que ajuda vem como motivação", finalizou.




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