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30/12/2014 06:23

"Balança, mas não cai": prédio construído por cego nordestino completa 50 anos

Paula Maciulevicius
Balança mas não cai, na antiga Y'Juca Pirama, completa 50 anos de história sem nunca ter caído. (Foto: Marcos Ermínio)"Balança mas não cai", na antiga Y'Juca Pirama, completa 50 anos de história sem nunca ter caído. (Foto: Marcos Ermínio)

Foram vários os legados deixados por seu Vergnaud Arnaldo de Alencar. A começar pelos apelidos: seu Alencar ou Ceguinho, os 10 filhos - um deles falecido -, mais de 50 imóveis construídos entre prédios, sobrados e casas populares, duas mulheres 'oficiais' e uma história de vida de quem enxergava sem precisar ver. O primeiro construtor cego de Campo Grande ergueu paredes e garantia a maestria do trabalho com as mãos. Usava o tato e o instinto de sobrevivência nordestino para dar vida a sua fixação por grandezas, de fazer casas e edifícios com andares. 

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Nascido em Exu, no Estado de Pernambuco, trouxe para as bandas de cá o sobrenome da família de Luís Gonzaga, o Rei do Baião. As circunstâncias da vida o levaram para vários lugares, até fincar o pé número 35, de vez, em Campo Grande, em 1945.  

Ficou famoso pelo prédio "Balança mas não cai", na antiga Y'Juca Pirama, atual Cândido Mariano, que completa 50 anos de construção hoje. Inaugurado no dia 30 de dezembro de 1964, data de aniversário do seu Alencar, o prédio, apesar de chamar "Dona Santa", ganhou tal apelido porque ninguém acreditava que ele não fosse ao chão. Precavido e conhecedor de causa, o Ceguinho fez a base para um prédio de seis andares, embora só tivesse conseguido subir dois.

Para todos os filhos, netos e bisnetos, o que ficou foi a união, de ladrilho por ladrilho. (Foto: Marcos Ermínio)Para todos os filhos, netos e bisnetos, o que ficou foi a união, de ladrilho por ladrilho. (Foto: Marcos Ermínio)

O Lado B que ama contar histórias reuniu a família Alencar na sala onde os últimos quatro filhos nasceram. Justamente no prédio aniversariante "Balança, mas não cai". Seu Antônio, o filho mais velho, é quem começa o relato. "Somos em 10 filhos, um deles é falecido, então somos nove. O mais velho nasceu em Pernambuco, dois em São Paulo e o restante todo em Campo Grande". 

Saído do Nordeste em 1937, Ceguinho voltou para casa em 39, se casou com uma prima e voltou para o Estado do então Mato Grosso em 1940. "Quando achou uma oportunidade de vir para Campo Grande, ele veio construir casas. Em 1947, perdeu a visão e ficou cego. Ele tinha um problema na retina, de deslocamento e ficou cego", conta seu Antônio.

O pai de seu Alencar até quis levá-lo de volta para Pernambuco. Ele que era o mestre de obras e quem ensinou a profissão ao filho. "Mas meu pai disse que não, que enquanto estivesse vivo, ia trabalhar aqui e foi lutando. Por três vezes meu pai perdeu tudo o que tinha em golpes, mas ele sabia ganhar dinheiro", descreve o filho. 

Ceguinho não enxergava, mas soube ver e traçar o futuro. Apesar de não ter estudado tinha em si o talento para ganhar dinheiro. "Ele sempre trabalhou por conta própria. Construiu vila de sobrados para alugar, vivia de aluguel. Teve fábrica de ladrilhos, loja de móveis", narra Antônio.

Ceguinho unia os ofícios. Segundo a família, foi o primeiro comerciante a implantar o sistema de crediário na loja de eletrodomésticos e móveis que tinha na Calógeras. Ele era o ponto de partida para quem queria construir uma vida aqui. Com o comércio próximo da estação, os imigrantes paravam na loja para adquirir o suficiente para sobreviver e já saíam de lá com uma casa alugada. 

"Às vezes, ele dava um mês de aluguel de graça, dava fogão e cama para as pessoas começarem a vida", recorda Antônio. A boa ação era mais voltada aos nordestinos, para ajudar quem veio da sua terra em busca de oportunidades.

O primeiro construtor cego de Campo Grande ergueu paredes e garantia a maestria do trabalho com as mãos. (Foto: Marcos Ermínio)O primeiro construtor cego de Campo Grande ergueu paredes e garantia a maestria do trabalho com as mãos. (Foto: Marcos Ermínio)
Filhos gêmeos, seu Alencar não queria pagar dois partos pelos dois. (Foto: Marcos Ermínio)Filhos gêmeos, seu Alencar não queria pagar dois partos pelos dois. (Foto: Marcos Ermínio)
Antônio é o filho mais velho que conta a trajetória do pai. (Foto: Marcos Ermínio)Antônio é o filho mais velho que conta a trajetória do pai. (Foto: Marcos Ermínio)

Com maestria ele ergueu edificações na região dos bairros Cabreúva e Amambaí. Tinha uma fixação pela grandeza das estruturas, tanto é que em seu histórico, a maioria são prédios e sobrados. "E tudo isso sem enxergar", sustenta o filho Humberto de Alencar, historiador, de 49 anos. Outra peculariedade de Ceguinho impressa em cada construção era o tamanho dos degraus. Onde tivesse escada, ele media a proporção de acordo com o próprio pé. O problema era o número, seu Alencar calçava 35. 

Irmãos gêmeos, Humberto e Alberto têm, no nascimento o reforço do quão bem humorado era o seu Alencar. "Ele queria pagar apenas um parto e dizia que a mulher era uma só. Falou para o médico: e se fosse uma leitoa, eu teria que pagar 12 partos?", reproduz Humberto e todos caem no riso.

"Ele passava a mão em toda construção para ver como estava o reboco e também fazia orçamento para quem quisesse começar a construir, tocava obras. Ele fazia a economia girar, quem alugava casa, trabalha também como servente. Ele não tinha estudo, era analfabeto, mas foi repentista, poeta", descreve Humberto. Também foi pelo seu Alencar que o Centro de Tradições Nordestinas, hoje desativado, deu o pontapé inicial. Foi ele quem criou para manter os costumes.

"Apesar da deficiência, ele vivia de bem com a vida. Era alegre", completa Alberto de Alencar, também com 49 anos.

Entre as suas edificações na cidade de Campo Grande, os filhos enumeram a Vila Moreninha, conjunto de casas na rua Apulcro Brasil esquina com General Câmara, na Vila Planalto; Vila Nordestina existiu onde hoje está funciona o Tribunal de Contas do Estado; Vila Paraíso, um conjunto de sobrados na avenida Noroeste com Gonçalves Lêdo, na Vila Independência; Sobradão, o ponto azul em frente à pedreira desativada, na rua Arlindo de Andrade com Gonçalves Lêdo, na Vila independência; Edifício Dona Santa, o "Balança mas não cai", no Amambaí e Vila Alencarina, que existiu entre a rua Brilhante e Marechal Floriano.

"A vila lá na Bandeirantes foi o primeiro conjunto de casas populares. Era a rua inteira de casinhas, que ele alugava para nordestinos, o pessoal que chegava", conta a filha Maria Mercedes, também historiadora, de 48 anos. 

O legado maior que deixou para os descendentes foi de continuar vivo através das suas construções. (Foto: Arquivo Pessoal)O legado maior que deixou para os descendentes foi de continuar vivo através das suas construções. (Foto: Arquivo Pessoal)

Seu Alencar morreu na década de 80, num acidente de carro. Se estivesse vivo, hoje faria 97 anos, estaria comemorando os 50 de "Balança mas não cai" entre os nove filhos, 23 netos, 19 bisnetos e dois tataranetos. Só de mulheres é que seria difícil precisar um número. O fato de não enxergar nunca lhe foi problema na hora de arrumar esposas e namoradas. Foram duas as "oficiais", com quem foi casado mesmo. Depois da prima de Pernambuco, se encantou pela paraguaia que foi inquilina no "Balança mas não cai", mas os filhos garantem que eram dezenas de "ex" no velório. 

"Era casamenteiro mesmo. Foram quatro dias de velório e só de ex-mulher eram 19", brincam os filhos. Ceguinho sempre disse que tinha sete vidas e coincidentemente morreu no sétimo acidente que sofreu. 

O legado maior que deixou para os descendentes foi de continuar vivo através das suas construções. O último bisneto que não chegou nem perto de o conhecer, está crescendo cercado do avô, das histórias do Ceguinho seu Alencar. O mosaico da cozinha do famoso prédio era a maneira que ele encontrava de reaproveitar os ladrilhos que ficavam das obras. Todas as crianças da família engatinharam ali. 

Agora é a vez de Ravi. "Esta não é uma simples foto do Ravi. Para mim é uma foto simbólica. Primeiro porque ele é meu caçula e segundo porque ele está, nada mais, do que engatinhando no chão de mosaico do Seo Alencar, meu avô materno, ou o famoso "Ceguinho". Poder tirar esta foto, do meu caçulinha neste chão tem todo um significado pra mim. Minha mãe engatinhou neste chão, meus tios, eu e meu irmão também e agora, meus filhos. O prédio do meu vô, que era cego e construiu o lendário "Balança mas não cai" tem uma história longa na vida de nós todos. Praticamente todos meus tios e primos passaram pelo prédio, ou morando, se hospedando ou assim, engatinhandoEm tempo de fim de ano, qualquer reflexão é válida", resume a neta de seu Alencar, Carol Alencar, de 28 anos.

Para todos os filhos, netos e bisnetos, o que ficou foi a união, de ladrilho por ladrilho. 




Fica na memória dos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo em vida como um grande predestinado, humanista e um grande acolhedor principalmente dos desafortunados da sorte e imigrantes que aqui chegavam vindos de trem de todas as partes do estado e de outros países. Seu Alencar, o “ceguinho” como passa a ser identificado por alguns, não levava em conta os procedimentos e tipo de vida e de trabalho de seus fregueses e inquilinos, alugando casas e apartamentos tipicamente populares a preços módicos e sem fiança, exigindo apenas o adiantamento dos aluguéis.
Quantos destes inquilinos puderam ter uma oportunidade de trabalhar junto aos seus empreendimentos. Não eram poucos, pois o grande acervo patrimonial construído durante os seus quarenta anos radicados em Campo Grande permitiu várias gerações de pessoas trabalharem e participar deste desenvolvimento, principalmente no Bairro Amambaí.
 
Humberto de Alencar em 30/12/2014 08:36:25
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