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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

10/12/2015 18:05

Casa no reboco é palácio de Maria, um presente dado por colegas de profissão

Paula Maciulevicius
Funcionários do Sintracom junto dos donos da casa, Silvio e Maria. (Foto: Gerson Walber)Funcionários do Sintracom junto dos donos da casa, Silvio e Maria. (Foto: Gerson Walber)

Aos olhos de qualquer um: casa simples, ainda com tijolos a mostra e rebocada só por dentro. Para quem se vê morando ali, um palácio. Recebi as boas vindas de dona Maria, uma senhora que divide a felicidade com a voz embargada de emoção. Considerada fundadora de uma travessinha no Tiradentes, que ela mesmo carpiu e transformou em rua, ela ganhou casa de alvenaria, a primeira aos 51 anos de idade, depois de duas décadas vivendo numa "reciclada".

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Dona Maria não diz papelão, não fala tábua e nem menospreza o que antes era teto. Do lado da casa dela, hoje de tijolo e cimento, ainda tem outros tantos "barraquinhos". "Essa aí é linda perto da que era a minha", compara apontando para o barraco ao lado.

Dona Maria é simples e de uma história linda, de gratidão. "Era tudo reciclável, aí quando tiraram os móveis, ela caiu e vieram aqui e fizeram esse palácio pra mim", conta Sebastiana Maria Ramires. A casa tem 27m², foi construída pelo Sintracom (Sindicato dos Trabalhadores em Construção) do Estado, depois que o marido dela se filiou. O casal completa 4 anos agora em dezembro, lá pelo dia 20, como contaram a eles.

Dona Maria exibe a cozinha, feliz e faceira. (Foto: Gerson Walber)Dona Maria exibe a cozinha, feliz e faceira. (Foto: Gerson Walber)

A casa tem cozinha, banheiro e quarto. A sala ainda está na varandinha que a dona sonha em ver fechada. Por dentro, é tudo reciclável. "Nunca comprei móvel nenhum. Eu que pego, arrumo, limpo e faço", diz. Criada na roça, morou a vida toda no que chama de mato, de sítio, até que os pais morreram. "Nunca tive boneca na vida, até hoje quando eu vejo uma, fico doida. Meu sonho era ter uma boneca".

Depois da morte dos pais, ela deixou a roça para a cidade. "Aí eu fiquei que nem bola, jogada de um lado para outro". Até que encontrou o lugarejo, uma região de comodatos comprada com o dinheiro que uma das poucas patroas que encontrou pela frente, juntou para ela. Sem estudo nenhum, dona Maria não lê, não escreve, não reconhece a diferença entre muito, pouco e nada de dinheiro e nem tampouco calcula o nível de maldade das pessoas.

"Fui muito passada para trás. Nunca recebi meus direitos pelo tempo de serviço trabalhado. Eu recebia e achava que aquele era o meu pagamento e não era. Às vezes eram só R$ 100". Nos bracinhos, as marcas da banha de porco que respingava nela quando foi cozinheira.

A área só tinha criação de galinhas e pés de bananeiras, até 20 anos atrás. "Limpei tudo, eu que carpi e fiz a casa da reciclagem", resume a própria história. Dona Maria criou um casal de filhos, hoje já casados e só depois que eles saíram de casa, é que ela descobriu que na falta de tudo, também se descobre o amor.

Casa vizinha era como a dela anteriormente, feia de papelão e tábuas de madeira. (Foto: Gerson Walber)Casa vizinha era como a dela anteriormente, feia de papelão e tábuas de madeira. (Foto: Gerson Walber)

O marido, Silvio, morava na casa da irmã, ali próximo do barraco dela. Eles se conheceram quando ele pediu água. O local, além de miserável pela falta de estrutura também era rodeado de gente querendo se aproveitar. Um balde de água, conforme eles contam, era vendido por R$ 50,00. Mas por anos, dona Maria conseguia de uma vizinha, dado mesmo. E foi essa que Silvio pediu e ela cedeu.

"Eu nem sabia que a gente pagava por água. Depois encanaram e veio, mas para mim água é de Deus, é uma coisa de graça", diz. 

Ela e o marido estão desempregados, mas dona Maria não se nega a fazer qualquer atividade. "Não peço nada para ninguém, mas não tenho vergonha de pedir emprego, faxina ou lavar calçada", fala. Meses atrás, o marido se filiou ao sindicato enquanto estava trabalhando como servente de obras. O Sintracom foi até o local e constatou a total falta de estrutura que eles moravam. A casa estava para cair.

Em 40 dias, foi erguida a casinha de material e entregue a chave há um mês. "Eu nunca tive chave de casa, nunca tive casa de material de construção", entrega Maria. A emoção dela contagia quem acompanha a trajetória. A casa foi construída por Manoel Pereira Martins, funcionário do sindicato, não tem recurso algum de político ou doação. É tudo fruto da verba da própria entidade, arrecadada junto aos trabalhadores da construção civil.

Em visita à casinha de papelão, o núcleo de assistência social concluiu que precisava fazer alguma coisa. Foram lá e fizeram. "A gente vivia numa situação dramática e eu não tenho condições financeiras de fazer uma casa melhor para a gente", se explica o servente Silvio Ferreira de Elkina, de 43 anos. Com um salário mínimo como pagamento mensal, com os descontos, sobravam ao casal pouco mais de R$ 600,00.

Armário também veio do descarte de outras pessoas, que dona restaurou. (Foto: Gerson Walber)Armário também veio do descarte de outras pessoas, que dona restaurou. (Foto: Gerson Walber)
Banheiro hoje tem descarga e chuveiro e é todo equipadinho. (Foto: Gerson Walber)Banheiro hoje tem descarga e chuveiro e é todo equipadinho. (Foto: Gerson Walber)
Armário reciclado da cozinha/sala. (Foto: Gerson Walber)Armário "reciclado" da cozinha/sala. (Foto: Gerson Walber)
Lavanderia fica na área externa da casa. (Foto: Gerson Walber)Lavanderia fica na área externa da casa. (Foto: Gerson Walber)

"Era para a gente comer, pagar a água e quando dá fazer shopping", descreve Silvio. O "shopping" do casal era o brechó do asilo São João Bosco, onde eles pagam R$ 2,00 por uma camiseta e R$ 10,00 por uma calça jeans.

A nossa conversa acontece em meio à uma breve chuvinha, que ainda assusta quem mora ali. "Na última que deu, ele me gritou para pegar os documentos e sair da casa. Mas sair para onde? Eu grudei na porta e disse para Deus que fosse feita a vontade dele", lembra Maria. 

Quando chovia, ela quase perdia toda a casa, além dos móveis se molharem, ficava o medo de que o material reciclável fosse ao chão. 

A cama do quarto é a primeira que dona Maria tem na vida. Mas ainda assim, ela não consegue se deitar. Por ter sido tirada do 'lixo', ela está quebrada e a senhorinha precisa dormir de atravessado. O marido? Dorme no chão.

"Mas é tudo limpinho, você viu? Eu cuido como se fosse um palácio, para mim é", diz a dona. A residência tem tudo na base do improviso, da criatividade e das mãos de Maria. Ao casal falta tudo, menos companheirismo. "A gente se abraça, pega na mão um do outro e fala que vamos juntos, que vai surgir, vai aparecer alguma coisa", resume ela. 

Sobre o tamanho das roupas e calçados, dona Maria diz que nos pés é 36, mas de manequim não sabe, porque nunca comprou nada. Só ganha. 

A casa foi a primeira construída pelo sindicato. A ideia era de erguer uma nos moldes dos programas populares, mas a verba diminuiu com as demissões que houveram no setor. Para dona Maria, a casa é emoção. 

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Casal nunca teve chave de casa e nem paredes de tijolo. (Foto: Gerson Walber)Casal nunca teve chave de casa e nem paredes de tijolo. (Foto: Gerson Walber)



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