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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

03/08/2016 06:10

Com placas de rua na parede e muita peça em couro, casa parece parada no tempo

Naiane Mesquita
Pedro e Gilberto trabalhando no ateliê da Selaria Esperança (Foto: Fernando Antunes)Pedro e Gilberto trabalhando no ateliê da Selaria Esperança (Foto: Fernando Antunes)

As placas espalhadas pela casa dão a impressão de que aquele pedaço de chão não pertence a lugar nenhum do mundo, mas ao mesmo tempo a todos os lugares da cidade. Rua Marechal Rondon, México, Argentina e Paraguai foram todas recolhidas de um vizinho acumulador e agora integram a decoração do espaço. Para completar, bem em cima da porta de entrada está a mais especial, Rua Cascudo, que revela o endereço real da Selaria Esperança, Furna do Cascudo ou Selaria do Giba. Os nomes são igualmente muitos.

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Gilberto no ateliê com placas da cidade (Foto: Fernando Antunes)Gilberto no ateliê com placas da cidade (Foto: Fernando Antunes)

O dono do ateliê, o artesão Gilberto de Araújo, 59 anos, precisa ir até a porta da selaria para conferir quando toda essa história começou. Desenhada no chão, em cimento fresco está a data 5 de setembro de 2003. “Nisso já são 13 anos”, diz, saudoso.

Na época, Giba havia retornado de uma longa andança por fazendas do interior do Estado e principalmente do Pantanal. A volta a Capital foi para tratar de problemas de saúde e com o tempo acabou permanecendo aqui, aperfeiçoando o ofício que aprendeu no campo durante tantos anos.

“Eu trabalhava mais com o trato do gado, mas fazia algumas coisas em couro. Estou aqui há mais de 20 anos, rodei Corumbá, Água Clara e São Gabriel. Quando decidi ficar em Campo Grande comecei a fazer alguns trabalhos. Tem muita procura porque essas coisas do campo nunca tem fim”, explica.

Gilberto é campo-grandense, nascido e criado na rua Cascudo, 126. A casa foi construída pouco tempo antes de ele nascer, em 1956. As galinhas e os cachorros ainda dividem o espaço no terreno, mas nas lembranças do filho do proprietário, Pedro Araújo, 28 anos, a casa dos avós já teve muitos outros habitantes. “Criamos de tudo aqui, porco, galinha, bode, mas a saúde não deixa mais. De vez em quando temos umas galinhas, mas não dura muito”, ri.

Com os trabalhos que realiza para o campo  (Foto: Fernando Antunes)Com os trabalhos que realiza para o campo (Foto: Fernando Antunes)
Gilberto mostra como toda a história da família começou na rua Cascudo, 126  (Foto: Fernando Antunes)Gilberto mostra como toda a história da família começou na rua Cascudo, 126 (Foto: Fernando Antunes)

Foi dele a ideia de pendurar as placas no local, “deixar as coisas mais bonitinhas para os clientes que visitam”, explica. Assim como o pai, Pedro segue o ofício do artesanato em couro, sendo que é dele a função de deixar o trabalho ainda mais minucioso e bonito.

“Eu faço desde que era molequinho, comecei com 14, 15 anos, não lembro direito, acho que desde que eu comecei a dar conta. Fiquei um tempo morando fora, em Nova Andradina e voltei com o desejo de deixar as coisas mais arrumadas, até porque o cliente vem né e tem que ter uma boa impressão”, diz.

Enquanto o pai faz a cabeçada, boçal e peiteira para os arreios dos cavalos, Pedro é responsável pelas bainhas de facas. As cutelarias de Campo Grande costumam procurar o jovem para o trabalho, assim como colecionadores de facas da cidade. “Quanto mais trabalhada a bainha mais importante é a faca. Temos faca que custam de R$ 400,00 a R$ 5 mil. Claro que tem outras ainda mais caras, só não são vendidas com frequência aqui”, explica.

Os trabalhos de Pedro incluem porta-cartões  (Foto: Fernando Antunes)Os trabalhos de Pedro incluem porta-cartões (Foto: Fernando Antunes)
As bainhas de facas são trabalhadas especialmente para as peças  (Foto: Fernando Antunes)As bainhas de facas são trabalhadas especialmente para as peças (Foto: Fernando Antunes)

O trabalho com o couro é todo manual. Cada detalhe é feito com um instrumento diferente. É necessário precisão e os machucados são muitos nas mãos. Nada que tire o orgulho de Pedro e Gilberto. “Nosso trabalho é sob encomenda. O cliente escolhe a cor, a forma como é feito, as argolas. Tudo. Acabei de indicar para um cliente que ele pinte esse couro, mas tem outras opções, até deixar o couro natural”, frisa.

Com o resto do couro, Pedro ainda faz pequenos trabalhos, como porta-moedas e porta-cartões. “O porta moeda custa R$ 25,00 e o cartão R$ 10,00. Tem vezes que eu faço umas bolsas para carregar minha agenda e até vender, mas não é sempre”, diz.

Os vários nomes no local são fonte da criatividade de Gilberto. O nome original é Selaria Esperança, mas na porta do ateliê ainda há Selaria do Giba. O Furnas do Cascudo é uma brincadeira. “Se você olhar aqui antes de construir tudo isso era uma furna. Passava um córrego ali na avenida Rachid Neder, que era o córrego Cascudo. O nome era por causa dos peixes que viviam ali e também pelo barro que ficava em época de seca. Um amigo veio aqui e fizemos uma placa aqui fora de brincadeira”, ri, seu Gilberto.

Quem se interessar pelo trabalho, Pedro mantém uma página no Facebook com detalhes do trabalho. 

No ateliê, em meio a bagunça que só seu Gilberto entende  (Foto: Fernando Antunes)No ateliê, em meio a bagunça que só seu Gilberto entende (Foto: Fernando Antunes)



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