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26/05/2014 06:14

Comprada por engano, família ergueu casa com moinho em chácara no Oliveira

Paula Maciulevicius
Na chácara, porteira se abre para casas com arquitetura romântica de uma família apaixonada pela arte. (Fotos: Cleber Gellio)Na chácara, porteira se abre para casas com arquitetura romântica de uma família apaixonada pela arte. (Fotos: Cleber Gellio)

Da porteira para dentro, parece cena de filme. Entre o verde do gramado e das árvores, surge, no alto, um moinho de vento. Em cada direção que se olhe, tem construção que abriga o trabalho e a moradia de três famílias que compõem uma só: a de Ana Jordão. A casa principal é feita de madeira e com janelas brancas, no estilo chalé de serra. O modelo da arquitetura saiu em três dias das páginas de uma revista para as mãos e o coração de uma família apaixonada pela arte.

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Nesta semana que passou, o Lado B foi visitar a chácara onde mora a família Ana Jordão, no bairro Oliveira, em Campo Grande. Em 10 mil m², estão três casas, uma cozinha comunitária, área de lazer, marcenaria e o ateliê. O terreno comporta quatro, dos cinco filhos do casal e ainda os netos. O lugar é tão encantador que provoca um sorriso de criança, tal qual aqueles desenhados por Carol Jordão.

Tanto pelo ambiente de campo, quanto pela delicadeza e sensibilidade donos na construção e decoração, onde se respira ar puro e poesia, é que vem a vontade de querer morar ali também. Os filhos, Carol, Camila, Pedro, Thiago e Lucas passaram os últimos 14 anos na chácara e a medida em que foram se casando, ganharam os pais como vizinhos. Ou seria o contrário?

Moinho foi colocado mais pela beleza do que pelo aspecto funcional. Moinho foi colocado mais pela beleza do que pelo aspecto funcional.

O primeiro terreno foi comprado na década de 80, “por engano” e como presente à Ana, que na ocasião completava 40 anos. Para consertar o erro, descoberto apenas na escritura, os outros nove lotes foram sendo comprados pouco a pouco. Em 18 meses, os 10 mil m² já pertenciam aos Jordão.

“Não era o terreno que eu queria, era uma posição diferente. São 10, então fomos comprando devagar”, conta o patriarca da família, Jordão Abreu da Silva, de 62 anos. Aqui é necessário um parêntese – Jordão é o primeiro nome do capitão reformado da Força Aérea Brasileira e não sobrenome. Nas exposições de artesanato, o casal se apresentava como “Ana e Jordão”. Ao comerem o ‘e’, o público foi quem fez de Jordão o sobrenome. Hoje, nem Ana se reconhece sem o Jordão.

“Aqui era um lugar feio, onde se jogava lixo. Quando a gente passou, viu árvores lindas e que ficava bonito se limpasse”, conta Jordão.

No final da década de 90, quando o pai estava prestes a se aposentar, a família que antes morava na Vila da Base Aérea, começou a planejar a construção. Em 1999, eles fizeram a oficina e a casa principal. O galpão funcionava como espaço para guardar os materiais e serrar a madeira.

Moinho capta e transmite água para toda a família. Moinho capta e transmite água para toda a família.

O modelo da casa é de um chalé da serra do Rio de Janeiro. Toda a madeira usada na casa já estava comprada há 10 anos. “Eu fui para Brasília e falei que se em três dias ela não escolhesse, quem ia desenhar era eu”. O aperto rendeu à Ana e aos filhos horas em volta de centenas de revistas de arquitetura.

“Fiz bem em apertar ela. Somos saudosistas, românticos, temos até um moinho de vento”, comenta. A escolha pelo moinho foi mais pela beleza do que pelo funcional. Como amor à primeira vista, Jordão comprou o moinho numa das lojas de construção da cidade e guardou por anos até os planos da casa na chácara saírem do papel. “Ele que faz a captação e traz água para a chácara”, explica.

Ao invés de colunas, o que sustenta a casa são troncos de madeira. As 14 janelas do imóvel foram compradas do colégio Auxiliadora. Na identificação, a fábrica era de Barra Funda e com um telefone que só tinha três dígitos. “Elas devem ter mais idade do que eu”, brinca Jordão.

A posição do imóvel levou em consideração as árvores do local. À época, tudo ali parecia uma floresta e até hoje, segundo os Jordão, lobos guará e quatis aparecem de visita.

Por dentro, a casa não tem cozinha. Pelo receio de misturar fogão e madeira um só lugar e também porque Ana preferia fazer cada refeição sem se lembrar da anterior, o cômodo foi feito em um galpão na parte externa.

Todos os móveis da casa foram feitos pela família, em madeira. Todos os móveis da casa foram feitos pela família, em madeira.
Modelo foi retirado de revista. A escolha por um chalé de serra foi em três dias.Modelo foi retirado de revista. A escolha por um chalé de serra foi em três dias.

Na casa principal, todos os móveis foram feitos ali mesmo, nada é comprado. Entre os cômodos estão duas suítes, um quarto, a sala, o sótão e um pequeno oratório. Uma escada de ferro leva os visitantes até o andar de cima, onde fica o quarto do casal. Como regra, Ana e Jordão só deixam os filhos construírem suas casas no terreno depois de morar um ano na suíte do piso debaixo. “Morou um ano no quarto suíte, gostou, pode fazer sua casa”, explica Jordão.

O sonho sempre foi de trazer toda a família para morar no mesmo espaço. Da casa principal, os filhos saíam para serem vizinhos. No intervalo de dois a quatro anos, novas construções tomavam o lugar. Casas, marcenaria, ateliê... As compras dos terrenos aconteceram justamente para garantir lugar para construção das casas dos filhos. “Me encho de satisfação quanto estamos todos trabalhando juntos. Passamos os finais de semana juntos, cada um fazendo uma coisa e sempre foi desse jeito”, resume o pai. Dos cinco filhos, apenas um mora fora da chácara.

Na área de lazer, uma sala serve como cinema. O telão, o sofá em “L” e uma parede forrada de filmes e seriados desperta a certeza de que morar ali é a melhor coisa do mundo. No teto de madeira, pinturas e frases que condizem exatamente com a filosofia da família que sempre aliou poesia e forma. “Um passo de cada vez, sendo que cada passo feliz vale por três”, diz o forro.

Ana e Jordão, o casal que divide alegria e os problemas com os vizinhos. Ana e Jordão, o casal que divide alegria e os problemas com os vizinhos.

Quando se mudaram, há 14 anos, a área ainda era reserva. Sem casas ao lado e muito menos asfalto perto. As quatro vaquinhas criadas por Jordão andavam por onde hoje são ruas. Por vontade própria ele estabeleceu o número da casa como “181”. “Achei bonito, vai ser meu, é o infinito e o único de novo”. E não pense que a confusão dos números faz com que eles deixem de receber correspondência. “Aqui, olha só, o Correio entrega sim”, mostra.

Com a temperatura cinco graus a menos do que na cidade, calor humano é o que não falta no lar dos Jordão. As mães criam os filhos para criarem asas. Mas nem sempre o voo tem de ser, geograficamente falando, alçado para longe. Eles podem escolher viver por perto, dividindo o mesmo chão.

Morar assim é conviver com muitos problemas todos os dias. “Só que quando está próximo, se divide”, diz Ana Jordão. “A gente tem essa filosofia. Meus pais foram assim, casava filho, fazia a casa e tinha que ser igual para todos os filhos. A gente não pode ter muita ambição, tem que viver e ser feliz e demora muito para perceber que a gente dorme só numa casa, come só num prato de comida, senta só numa cadeira. Se você mora sozinho você tem só um. Se você divide, sempre vai ter mais”.

“Não, não falta nada do que eu sonhei. Essa casa, esse espaço, a família é mais do que eu sonhei. E é aqui que a gente se esconde”, finaliza Jordão.




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