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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

02/05/2016 12:00

Em casinha até decorada, Nelson avisa que mora na rua "calçada", número "pare"

Paula Maciulevícius
Casinha fica perto do Shopping Norte Sul Plaza.Casinha fica perto do Shopping Norte Sul Plaza.

“Endereço? Tenho não. Aliás, sim. É rua Calçada, número Pare”, avisa o dono do lugar. No bairro Taquarussu, a largura de 1,50m foi suficiente para ele levantar uma "casa". Há cerca de um mês, Nelson ergueu as paredes do que chama de lar na calçada, sem ligar para a passagem de pessoas que foi interrompida.

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Nas imediações do Shopping Norte Sul Plaza, a construção é cheia de capricho, toda pintada de branco, com um pedacinho em amarelo, como se as tábuas tivessem sido instaladas cuidadosamente para integrar as duas cores e decorar a fachada. A "obra" demonstra que foi feita por alguém que traz consigo experiência no ramo. Inspirada na casa que Nelson fez para a mãe-avó, em Dourados, cidade onde nasceu, o telhado ele diz ser “igualzinho”, embora a dela seja de alvenaria e a dele do que encontra descartado por aí.

Ventilação cruzada. Telhado levemente inclinado. Não há água empoçada e mesmo tendo 1,50x1,70m o cubículo tem uma janela de correr na lateral. A porta da frente se abre pela metade, como quem primeiro quer ver quem ali bate.

De longe, um aviso incompleto está jogado numa tábua de madeira, provavelmente sem serventia para a casa. Na verdade é uma advertência a possíveis invasores: “Se você quer adentrar em uma casa... É um breve aviso, que se você entrar, vai ficar mal viu. Isso é porque as pessoas entram na minha casa, aqui, pegam minhas coisas”, explica Nelson Cardoso Eleutério.

Nelson é mais alto que a casa.Nelson é mais alto que a casa.

Dos 35 anos de vida, 15 deles se passaram nas ruas. Há uma década ele deixou a prisão, onde cumpriu pena por estelionato e diz ter conhecido a Deus. “Não sei o que é roubar e nem pretendo saber”, enfatiza como quem precisa dar segurança a quem ouve.

O sorriso mostra um certo desgaste nos dentes que deixam evidente o vício. O tempo que está nas ruas é o mesmo que ronda pelo bairro. Já morou debaixo de ponte e a última “residência” era a varanda de um bar.

“Eu fiz aqui para não dormir assim, você apanha muito. Eu – senhora – já apanhei muito”. O frio que fazia no final de semana em que bati à porta do cubículo, me deixou surpresa em vê-lo sem camisa e apenas de bermuda. O segredo está no material e Nelson sabia disso quando o escolheu.

“PVC. Aqui tem 20 cm de grossura, a parede dela é como se fosse um tijolo. Não faz frio por causa que é tipo uma térmica, esquenta quando é de dia e mantém a temperatura, ela protege. Eu sou estudado senhora. Pode bater vento que não entra”, garante.

Foi de caçamba em caçamba que ele saiu juntando os pedaços da casa. O que lhe serve para a construção é deixado ali e a sucata, tem sempre outro destino. “Eu sou usuário de pasta base. Eu pego minha sucata para poder comprar de novo o que eu quero. Esse é meu vício. É só esse, mas é o mais ruim”, assume.

A casa ainda não está pronta. Falta matéria-prima, que é o PVC. Nelson corta tudo com as mãos ou com o que improvisa pelas ruas. “É ferramenta que eu faço, vou achando material e lembrando minha casa. É minha casa e minha vida, só que mais segura que a do Governo. Ventania e chuva não derruba isso aqui não”, assegura.

A comida muitas vezes é doação de vizinhos. Para fazer amizades, diz que já se apresentou por aí, falou da vida e da construção.

Nelson diz até gostar de ser simples, porque dinheiro não é tudo nessa vida. E caso lhe tirem dali, só sai se puder fazer o “barraco” onde for levado. “Sou usuário senhora. E quem não é? Todo mundo é usuário dessa vida”...E alguns, da calçada.

Essa sugestão de pauta veio da amiga, leitora e manicure Aline dos Santos que passou um tempão esperando o morador chegar na tarde do último sábado. É dela o clique da capa.




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