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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

28/11/2014 06:45

Pedreiro sonha em ter casa redonda e começou pela cerca, feita de 300 vassouras

Paula Maciulevicius
Foi para cercar, se ocupar e talvez até mesmo se alegrar, que ele transformou cabos de vassoura em cercado. (Foto: Simão Nogueira)Foi para cercar, se ocupar e talvez até mesmo se alegrar, que ele transformou cabos de vassoura em cercado. (Foto: Simão Nogueira)

Verde, azul e vermelho. São as cores que o seu Antônio dos Santos enxerga da varanda de casa. Aos 46 anos, ele aproveitou a profissão de pedreiro para fazer a própria morada. Não é a dos sonhos ainda, mas é a que ele tem para hoje. À espera de um imóvel pelos programas sociais, ele é mais um dos que faz da Cidade de Deus, um lar temporário.

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Foi para cercar, se ocupar e talvez até mesmo se alegrar, que ele transformou cabos de vassoura em cercado. "Tem bem umas duzentas aqui, mas eu não sei não", diz. Pois nós contamos. Eu de um lado, ele de outro. São 294 no total. Todas vindas do lixão ao lado.

"Essas vassouras eles jogaram lá. O senhor aqui do lado que juntou e repassou para mim. Ele ofereceu e eu disse que queria cercar. Eles jogam um monte no lixo", explica sobre a origem dos cabos.

Nos pomos a contar. Eu de um lado, ele de outro. São 294 no total. Todas vindas do lixo ao lado.(Foto: Simão Nogueira)Nos pomos a contar. Eu de um lado, ele de outro. São 294 no total. Todas vindas do lixo ao lado.(Foto: Simão Nogueira)

Pai de duas filhas, seu Antônio também tem dois netos e o sonho que vai além de ganhar a própria casinha. Como passou a vida a construir moradas, não vê a hora de conquistar a sua e até já sabe o projeto que quer para si. "Uma casa redonda, como uma que fiz no Pantanal. Ela era todinha redonda, as paredes, a varanda, tudo de tijolinho à vista", descreve.

Nascido em Rochedo, criado entre as bandas de lá e de cá, foi como servente e hoje pedreiro que ele sempre ganhou a vida. Inscrito há anos em programas, ele sustenta que nunca tirou casa e por isso resolveu deixar o aluguel no Jardim Tarumã e tentar a sorte ali, na base da ocupação.

Na tarde em que o Lado B chegou até ele, tivemos sorte. Seu Antônio estava de folga e cozinhava um arroz com peixe para comer no jantar, em plena 3 horas da tarde.

A comida precisa ser deixada pronta de dia, enquanto a luz do sol ainda se faz presente. Porque depois que ela vai embora, seu Antônio fica à mercê de enxergar através dos próprios pensamentos e ideias.

O barraco é simples, mas ele insiste pra gente entrar e conhecer. "São só duas pecinhas, mas é tudo limpinho", anuncia. O piso é de cimento misturado ao que ele chama de xadrez em pó e finalizado com uma desempenadeira de aço. O banheiro tem só a privada e o espaço do balde. É assim que seu Antônio toma banho.

A comida precisa ser deixada pronta de dia, enquanto a luz do sol ainda se faz presente. (Foto: Simão Nogueira)A comida precisa ser deixada pronta de dia, enquanto a luz do sol ainda se faz presente. (Foto: Simão Nogueira)
O barraco é simples, mas ele insiste pra gente entrar e conhecer. São duas peças. (Foto: Simão Nogueira)O barraco é simples, mas ele insiste pra gente entrar e conhecer. São duas peças. (Foto: Simão Nogueira)

Para dormir é preciso se cobrir com um mosqueteiro. "É que senão você dorme num lugar e acorda em outro. Os mosquitos te carregam", brinca. Exagero ou não, seu Antônio não quer é pagar pra ver.

Feita de compensado e telha, a casa é toda revestida de lona para evitar que a chuva provoque ainda mais estragos.

A decisão, sobre uma casa, deve sair na próxima semana. É o que passaram a ele. O que era para servir de lar temporário já dura mais de 12 meses.

No caso da ida para um outro lugar, o pedreiro diz que será entregue o "kit barraco". "Aí eu vou ter que desmanchar o cercado, porque não pode levar", conta.

Faz um mês que a casa dele ficou personalizada. Do jeito que ele pode, fez a casa com a sua cara. "Chegava todo dia do trabalho 5h e ficava 1, 2 horas mais ou menos fazendo. Levou uma semana", relata.

Os cabos que para quem os descartou já não tinha mais utilidade, hoje protege e anuncia de longe quem mora ali. "É por causa que estraga aqui em cima, por isso que eles jogam. Qualquer coisa que está estragada eles jogam", conclui.

"Se está boa? Tá sim, firme, firme, olha..." e chuta para mostrar a segurança do cercado. Para fazer a cerquinha ele precisou de coragem, afinal foram quase 300 fincadas no chão. "E fora os pregos, só deles foram uns três maços", calcula.

Sobre o sonho para a vida, seu Antônio diz que não quer saber de mais nada a não ser casa e casar. "Só uma casa para entrar dentro está bom e depois, tem que achar esposa, sem casa, não dá", resume.

O cenário pobre, as condições desumanas a que ele se submeteu parecem não chocar mais. Por passar o dia fora, ele diz que chega só para dormir, mas defende a região. "É mais animado do que qualquer bairro aí, tem gente passando, repórter todo dia", brinca.

Então depois da casa o senhor quer casar? Pergunto eu. "Lógico. Sozinho, ninguém veve". E foi assim que ele disse mesmo: "veve".

Sobre o sonho para a vida, seu Antônio diz que não quer saber de mais nada a não ser casa e casar.(Foto: Simão Nogueira)Sobre o sonho para a vida, seu Antônio diz que não quer saber de mais nada a não ser casa e casar.(Foto: Simão Nogueira)



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