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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

06/09/2016 06:20

Prédio tapou o sol, mas casa de 1930 não perdeu encanto nem memórias de 86 anos

Thailla Torres
Apesar do terreno menor e da falta do sol no fim de tarde, o local é como um paraíso. (Foto: Fernando Antunes)Apesar do terreno menor e da falta do sol no fim de tarde, o local é como um paraíso. (Foto: Fernando Antunes)

A cerca que separa a calçada do quintal dá mais vontade de conhecer a casinha que já foi sonho de criança. Na Rua 14 de Julho, no São Francisco, a casa das irmãs Teresa e Maria é aconchego de família. A chegada dos prédios trouxe a sombra que tirou a visão de um lindo por do sol. Mesmo assim, o lugar é a resistência em uma região transformada.

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Erguida em 1930 pelo pai, Girá Kanashiro, que veio sozinho do Japão em busca de uma vida melhor em Campo Grande, a estrutura continua igual. Simples, mas de cômodos amplos, a preocupação maior sempre foi do lado de fora, já que a ideia era aproveitar a natureza. “Quando ele chegou aqui, tinha muita árvore e poucas casas em volta. Na verdade, isso era uma chácara. Fez a casa e o restante usava como lavoura”, explica Maria Akemi Kanashiro, de 64 anos.

Para Maria e Teresa, a união da família ficou marcada.  (Foto: Fernando Antunes)Para Maria e Teresa, a união da família ficou marcada. (Foto: Fernando Antunes)

O pai vendia frutas e verduras para hotéis e bares da cidade. Durante um período, após a construção da casa, resolveu voltar para o Japão a passeio, lá se apaixonou e voltou casado. “Minha mãe trabalhava em uma fábrica no Japão, ele tinha 35 anos e ela 18. Se conheceram, apaixonaram e ele a trouxe para o Brasil, de trem chegaram até Campo Grande”, conta a filha, Teresa Aiko Kanashiro, de 57 anos.

As irmãs nunca casaram, mas parecem não sentir solidão. Com sorriso tímido e olhar sereno, elas lembram os momentos felizes que, graças aos pais, tiveram ali no espaço que até hoje preferem chamar de chácara. Com o tempo, a área foi diminuindo e recentemente uma construtora comprou parte do terreno para levantar um novo prédio.

Mas elas conseguiram preservar a árvore que as acompanha desde que nasceram. “Quando vendemos, foi junto a árvore centenária que ficou do lado de lá. Mas a gente falou da importância e disseram que não ia cortar. Hoje a gente só observa pela varanda, antes ali também batia o sol no fim de tarde”, lembra Teresa.

É na varanda que surgem as lembranças mais alegres.”A gente brincava em tudo, subia na árvore e corria. Enquanto a mãe cuidava das plantas, era o que ela mais gostava”, diz.

Teresa colhe o maracujá doce que foi plantado pela mãe. (Foto: Fernando Antunes)Teresa colhe o maracujá doce que foi plantado pela mãe. (Foto: Fernando Antunes)

Os hábitos e a união ficaram marcados. “Nosso hábito era reunir a família, foi o que o meu pai deixou de herança. Eu lembro até hoje que nessa varanda tinha uma mesa enorme, a gente tomava café todo mundo junto lá pelas quatro da tarde. Tinha sempre que estar todo mundo reunido”, conta.

A alegria era tanta que as pessoas que passavam na rua achavam que era festa. Pela falta do muro, o amor da família era visto de longe e isso elas afirmam que nunca irá acabar. “A gente deixa sem muro por segurança, eu acho que causa menos curiosidade, quem deseja olhar, que olhe. Mas também sempre foi assim e aqui ainda tem jeito de chácara”, justifica Teresa.

No quintal, restaram as plantas, o pé de maracujá doce e os ipês que se tornaram xodós da mãe. “Ela plantou e nunca via flor. Quantos os pés já estavam grandes, ela decidiu cortar, não sei porque ela esperou mais um ano e no ano seguinte deu flores lindas. Era ipê roxo, nunca mais quis cortar”, descreve.

Apesar do terreno menor e da falta do sol no fim de tarde, o local é como um paraíso. "Hoje as crianças cresceram, mas quem ainda vem acredita que é o paraíso. Convidamos as pessoas e todo mundo aparece, é a forma de manter a memória do nossos pais, eles adoravam a família unida", declara.

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No quintal tinha um balanço, sonho de toda criança. (Foto: Fernando Antunes)No quintal tinha um balanço, sonho de toda criança. (Foto: Fernando Antunes)



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