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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

19/11/2015 22:18

"Joelma" pedala pelo Centro para depois contar no teatro o que sabe da vida

Naiane Mesquita
Fábio Vidal como Joelma durante intervenção urbana no centro de Campo Grande (Foto: Marcos Ermínio)Fábio Vidal como Joelma durante intervenção urbana no centro de Campo Grande (Foto: Marcos Ermínio)

A bicicleta azul, que parece sair de outra década, leva para lá e para cá, a mulher de cabelos longos e pretos, sobrancelha fina e feições fechadas. O trajeto de Joelma poderia ser na pequena cidade de Ipiaú, no interior da Bahia, onde nasceu e voltou adulta, mas é realizada em Campo Grande, sob olhares curiosos de uma população com pressa.

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Algumas pessoas tentavam entender o que acontecia enquanto Joelma pedalava para a cidade. Um aviso sonoro seguia o ator explicando a data e horário da peça Algumas pessoas tentavam entender o que acontecia enquanto Joelma pedalava para a cidade. Um aviso sonoro seguia o ator explicando a data e horário da peça

Joelma é interpretada pela ator baiano Fábio Vidal, que tentou ao máximo extrair os gestos e a “alma” de sua inspiração de mesmo nome. Uma das primeiras transexuais do Brasil e da Bahia, a personalidade da cidade interiorana do nordeste sempre povou a memória do cineasta e diretor Edson Bastos, que cresceu na mesma localidade que sua inspiração.

“Minha formação é o cinema e no meu trabalho como cineasta é trazer esses personagens da minha cidade para o cinema. Comecei a pesquisar a vida de Joelma desde 2006”, afirma o diretor.

A intervenção que Fábio fez na tarde de ontem em Campo Grande, passeando com a bicicleta pela cidade divulgando a peça, se assemelha a um comportamento da personagem no passado baiano. “É como ela fazia. Até hoje ela chama a atenção na cidade, é impossível não parar para observar, ela sempre usa roupas coloridas, a forma de ela falar é sempre expressiva. Ela sofria bastante preconceito”, ressalta Edson.

O diretor e idealizador do projeto Edson Bastos O diretor e idealizador do projeto Edson Bastos

Encontrei Fábio nos bastidores da peça, que estreou ontem na cidade e segue com apresentações até domingo, às 20 horas, no Teatro Aracy Balabanian.

Caracterizado como Joelma, Fábio parece incorporar desde então os traços da personagem, com exceção de quando fala sobre o temperamento forte dela. Baseado em fatos reais, mas com a liberdade de uma ficção, diretor e ator precisaram transformar alguns trechos para compor o filme e a peça.

“O Edson já tinha me falado, ela não vai querer te receber, vai durar uma hora, uma hora e meia até convencê-la. Eu imagino que ela não teve uma vida fácil, ela foi muito agredida, tem um temperamento muito na defensiva. E foi exatamente assim, quando cheguei na casa dela, expliquei que era o ator e fui recebido com um 'lá vem esse povo tirar minha tranquilidade'”, ri.

Fábio precisou vencer o temperamento de Joelma para interpretá-la no filme e na peçaFábio precisou vencer o temperamento de Joelma para interpretá-la no filme e na peça

Fora isso, as expressões durante as pedaladas pelas cidades onde a turnê da peça acontece são muito variadas. Em Campo Grande, as pessoas pareciam confusas, as vezes mais preocupadas com o trânsito ou o ônibus, alguns acenavam, outros acompanhavam com o olhar. Enquanto, o Lado B esteve com Fábio não houve ofensas.

Mas, em Cuiabá foi diferente. “Tem todos os tipos de reações, a última experiência em Cuiabá foi de muito estranhamento, de rostos fechados, agressivos. Eu trabalho muito com a questão do olhar, se me olham de uma forma eu retribuo do mesmo jeito”, frisa.

Gal Costa faz parte da trilha sonora do peça Gal Costa faz parte da trilha sonora do peça

Aos 71 anos, Joelma só deixou de sofrer o preconceito na cidade natal após a exibição do filme e depois com a criação da peça. “Essa aproximação é muito benéfica. Quando entendemos que em menor ou maior grau que pertencemos a minorias, ter a consciência que a formulação de pensamentos, de opiniões são estabelecidas por uma cultura, não sou eu que tenho de forma nata, isso é determinado por crenças e pensamentos que vem pronto da família, da escola, do meio em que vive, de como a mídia apresenta o assunto”, acredita.

Para o intérprete de Joelma estamos em uma guerra. “É uma barricada, uma frente de guerra política com esse tipo de trabalho, quando a gente estabelece ideias de respeito ao outro, respeito as diferenças, ao que você não entende, não compreende, não querer a morte, não ter aversão ao que seja desconhecido”.

A peça tem tradução em libras e legenda em português. O preço dos ingressos é de R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia-entrada). O Teatro Aracy Balabanian fica na rua 26 de agosto, 453, centro. 




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