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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

10/04/2013 07:08

Artista que aposta na polêmica volta à cidade com exposição sobre a Igreja

Elverson Cardozo
Busto do Papa Bento XVI. (Foto: Vanderlei Aparecido)Busto do Papa Bento XVI. (Foto: Vanderlei Aparecido)

Em 2006 ele causou polêmica em Campo Grande com a mostra “Hebemus Cocam”. A proposta era falar sobre o culto a determinadas marcas, mercadorias e ao dinheiro, mas o trabalho, ao invés de ser assimilado e compreendido, foi visto com uma afronta à Igreja Católica, irritou fiéis e, claro, alguns políticos que repudiaram o ato e chegaram a pedir o cancelamento da exposição.

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Mas pudera. Em um país predominantemente católico e em uma Capital não muito aberta às manifestações artísticas, ver o manto de Nossa Senhora sobre uma garrafa de Coca-Cola ou uma latinha do refrigerante no lugar onde deveria estar o sagrado coração de Jesus, geraria, no mínimo, estranheza, para não dizer revolta. Era de se esperar.

Aqui, infelizmente, a exposição de Evandro foi vista como provocação e não como arte contemporânea. Faz parte. São os “ossos do ofício”, como diz o ditado popular. Na visão de críticos, estudiosos do assunto, a não compreensão poderia ser descrita como “um abismo entre o espectador e obra”.

A explicação vem do próprio artista, Evandro Prado, que voltou à cidade para uma nova mostra e falou com o Lado B. O campo-grandense, que reside em São Paulo desde 2008, continua a trabalhar com a iconografia católica e, desta vez, apresenta a “Dominus Tecum” ou “O senhor está convosco”.

Lampadário. (Foto: Vanderlei Aparecido)Lampadário. (Foto: Vanderlei Aparecido)

Trata-se de uma exposição com cinco trabalhos inéditos: duas esculturas, uma fotografia, um vídeoarte e uma instalação.

“O que une tudo isso é que eu continuo minha pesquisa dentro da iconografia católica. Busco desestabilizar e dessacralizar o sagrado. Eu tento, de certa maneira, questionar essa iconografia tão simbólica”, disse.

Um das esculturas é do busto do Papa Bento XVI. Evandro apresenta-a como um “troféu de caça”, que sai da parede, como se fosse a cabeça de um boi ou de um veado, por exemplo.

A idéia é falar do Sede vacante, o "trono vazio”, nome dado ao período em que a igreja elege um novo pontífice, mas vai além. “Eu falo um pouco dessa crise do catolicismo, do Vaticano, da renúncia do Papa. Eu apresento essa escultura de maneira irônica, como um troféu”.

A outra é um lampadário, uma espécie de lustre que decora santuários, mas só tem uma vela como ponto de luz. A escultura foi construída com cerca de 60 imagens de santos, colados de cabeça para baixo.

“Esse é um objeto que dá luz. Constituído por imagens de cabeça para baixo revela um paradoxo, um questionamento sobre a própria história do catolicismo”, explicou.

Detalhes dos santos colados de cabeça para baixo. (Foto: Vanderlei Aparecido)Detalhes dos santos colados de cabeça para baixo. (Foto: Vanderlei Aparecido)

O vídeoarte, segundo o artista, é a obra mais difícil da exposição Dominus Tecum. São dois vídeos que mostram a mesma escultura de cemitério, um anjo segurando um tecido. “Para mim é como se fosse um sudário. Ele fica balançando ao vento. É um trabalho que fala da morte e melancolia”.

A fotografia é outro destaque. Chama-se “Ruína” e mostra uma imagem de madeira de Jesus Cristo deixada sobre um banco no altar. O registro foi feito pelo próprio artista, em Salvador. “A imagem estava de qualquer jeito, em uma igreja abandonada. Fotografei e fiz uma ampliação de 80 por 1,20 metro”, contou.

Ruína, foto da igreja abandonada em Salvador. (Foto: Vanderlei Aparecido)"Ruína", foto da igreja abandonada em Salvador. (Foto: Vanderlei Aparecido)

Na avaliação de Evandro, o trabalho reflete o atual momento da Igreja Católica que, além da crise, está perdendo fiéis com o crescimento do número de evangélicos.

Entre os cinco trabalhos expostos, o maior é a instalação, composta por 5 mil tijolos em uma área de 9 x 14 metros. A disposição com que as peças foram colocadas no chão deixam um vazado no meio da sala.

O desenho que se forma é da planta baixa de uma igreja no estilo medieval e com cruz latina. Os tijolos representam os fiéis. “A metáfora é de uma não-construção. Quem constrói uma igreja são os fiéis, que estão para fora”, revelou.

Evandro sabe que a mostra pode gerar interpretações diferentes do conceito criado por ele. O busto do Papa, por exemplo, pode ser visto como uma homenagem. “Não sei se as pessoas vão entender, mas eu não posso me responsabilizar por isso”, declarou, ao dizer que a arte contemporânea é aberta, livre para avaliações.

Evandro se define como um questionador. (Foto: Vanderlei Aparecido)Evandro se define como um questionador. (Foto: Vanderlei Aparecido)

O artista não acredita que o novo trabalho possa gerar polêmica, como aconteceu em 2006, porque a nova mostra está mais implícita, “sutil” e a proposta, como nas exposições anteriores, não é essa.

“Quando tento desestabilizar essas imagens eu estou pensando sobre uma igreja constituída por homens acusados de pedofilia, por homens que participaram da inquisição; uma igreja que foi a favor da ditadura no Brasil e que se calou diante do holocausto na Europa”, disse.

“Eu tento levantar questões histórias, mas não de maneira escancarada. Depende de uma segunda leitura”, ressaltou.

Temporada 2013 – A exposição Dominus Tecum é uma das quatro que integram a primeira temporada 2013 do Marco (Museu da Arte Contemporânea), em Campo Grande. O espaço fica aberto para visitação gratuita até o dia 2 de junho, de segunda a sexta, das 12h às 18h.

Além da mostra de Evandro Prado, os visitantes terão acesso a outros três trabalhos: “Trajetos Urbanos”, uma exposição fotográfica da artista plástica Esther Casanova, de São Paulo, "O Relógio Quebrado”, de Henrique França e o “Museu de História Ficcional”, de Yara Dewachter.

Serviço – O Marco fica na rua Antônio Maria Coelho, 6000, no Parque das Nações Indígenas. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (67) 3326-7449.




hahaha... pelo menos ele vai levar público ao Museu Marco, nem que seja pela curiosidade de ver a exposição.
 
Maria Nantes em 11/04/2013 21:43:03
O Evandro é obrigado a ficar ouvindo o vereador Paulo Siufi posando de bom moço na Câmara e dizendo que artista deveria pintar arara e tuiuiu, que o Evandro nem é tão importante porque não recebeu homenagens na Câmara no dia do Artista Regional. Hipocrisias a parte, esse artista merece nosso respeito e faz a arte questionar nossas posturas. Ele está de parabéns!
 
Jerônimo Gonçalvez em 11/04/2013 21:40:55
.. concordo com Ricardo Franco ..
Alias tive o prazer de visitar “Hebemus Cocam” quando ainda era acadêmica de comunicação e achei fantástico! Estou organizando minha agenda para visitar o quanto antes “Dominus Tecum”.
Espero que seja tão fascinante quanto a primeira a mostra.. o material era riquíssimo!
 
Ana Botelho em 11/04/2013 11:25:32
O que é lamentável é confundir isso com cultura, vale tudo para atacar a fé de mais de um bilhão de pessoas no mundo e tentar "causar" quando falta talento.
Respeite se quiser exigir respeito!
 
Carlos d Amore em 11/04/2013 07:56:36
(cont.) Ou seja: provocando a quem sabe que causará escândalo, Evandro Prado vai pelo caminho mais fácil para "ficar em evidência" ("se aparecer", no português popular), angariar a simpatia da elite liberal e "lucrar em cima". Ninguém atira pedra em árvore que não dá fruto, diz o adágio...
 
Marcel Ozuna em 11/04/2013 00:16:06
Aqui, país de "maioria católica" mas formalmente "laico" e de "livre expressão", é muito cômodo ao Evandro Prado usar as desculpas de "crítica ao consumo", "gosto pela polêmica" e "licença poética" para deformar imagens católicas. Por que será que ele não tentou fazer o mesmo, p. ex., com o Alcorão num país de maioria islâmica? Ou mesmo no Brasil, com objetos da umbanda?
Ao invés, foi-lhe mais cômodo "mudar de tática". Agora as profanações são mais sutis. Mas o cerne é o mesmo: a polissemia contraditória da arte moderna - o "parece mas pode não ser" e vice-versa.
Quanto a ele divulgar a História da Igreja Católica como "negra": da missa, o Evandro não sabe o terço! As "acusações" são batidas e de fácil contestação; até desmenti algumas delas (ex.: Inquisição) em comentários anteriores...
 
Marcel Ozuna em 11/04/2013 00:05:51
O próprio CRISTO disse: por causa da sua fé, vocês serão perseguidos. Hora meu caro LUIZ ALVES apenas queremos respeito por nossa crença, DEUS não quer que IDROLATRAMOS Idolos mas podemos VENERAR cristãos que deram a vida para propagar a palavra de DEUS, pedimos uma intercessão assim como um padre ou um pastor faz uma oração por nós ele esta intercedendo as intenções junto a JESUS que intercede a DEUS.
 
ANDERSON MARQUES em 10/04/2013 11:05:28
É incrível a falta de cultura da população. Mostras desse tipo são comuns em qualquer parte civilizada e urbana do mundo. É óbvio que é um tema delicado para ser tratado, porém as pessoas são acostumadas a julgar visualmente as coisas. Estas são obras de arte que tem um cunho interpretativo. Mas fica claro que, por falta de cultura, as pessoas criticam e não vêem esta mostra da forma com que deveriam. #lamentável
 
Ricardo Franco em 10/04/2013 10:38:57
Para quem acredita em imagens e outros objetos mortos, deve ficar com raiva; mas para os que acredita na Palavra de Deus, vê como uma escultura qualquer, ou trabalho artesanal diferente; que eu não compraria nenhum para dentro de minha casa.
 
luiz alves em 10/04/2013 07:22:45
imagem transparente

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