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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

21/02/2016 07:23

Baleado nas costas em uma briga de vizinhos, a reação de José veio em cores

Adriano Fernandes
José se dedica a uma de suas grandes paixões: as artes plásticas. (Foto: Alan Nantes)José se dedica a uma de suas grandes paixões: as artes plásticas. (Foto: Alan Nantes)

O trabalho com os pinceis sempre fez parte da vida de José Eduardo Borges Daniel, de 44 anos. Quando não estava vendendo imóveis como corretor, era na construção civil que ele ganhava a renda extra, como pintor.

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Mas foi depois de um episódio trágico que a pintura deixou de ser só um ganha pão na vida de José. Em frente ao número 217 da Rua Amazonas, um desentendimento entre vizinhos terminou com José Eduardo em uma cadeira de rodas, paraplégico. 

Mesmo com os movimentos limitados, José ainda dá asas a imaginação. (Foto: Alan Nantes)Mesmo com os movimentos limitados, José ainda dá asas a imaginação. (Foto: Alan Nantes)

Naquele mesmo endereço, ele nos recebe para relembrar os fatos da madrugada do dia 23 de fevereiro de 2014. Depois de dois anos morando na Bahia, foi para lá que o pintor se mudou com a filha Luiza, na época com 19 anos.

“Mas essa propriedade sempre foi da minha família. Ela era do meu avô, em seguida foi deixada de herança para minha mãe. Chegamos a morar por pelo menos 10 anos no Jardim São Bento, enquanto alugávamos aqui”, conta.

Neste mesmo período começaram os problemas com um morador da região. O “Japonês”, como ele prefere se referir certo dia mudou de vez a história de José. “Um aparelho de televisão foi roubado da casa dele e comentaram que o ladrão teria uma moto semelhante a que eu tinha na época. Foi quando começaram as acusações”, lembra.

José se recorda que de desocupado e até vagabundo começou a ser chamado pelo vizinho, que acreditava que ele era o ladrão. “Eu nunca tive proximidade com o ´Japonês` mas já conhecia a mãe dele, há anos. Como minha consciência estava tranquila, eu nunca imaginei que ele poderia tomar uma atitude mais séria do que as ofensas”, diz.

 “Campo Grande Recortada” é o nome de um dos primeiros quadros que José pintou. (Foto: Alan Nantes) “Campo Grande Recortada” é o nome de um dos primeiros quadros que José pintou. (Foto: Alan Nantes)

Mas o improvável aconteceu, da maneira mais violenta possível. “Era madrugada, a Luiza ainda não estava em casa e eu liguei para ver onde ela estava. Ela disse que estava quase voltando de uma festa, mas na dúvida, eu peguei minha moto e fui esperar em frente de casa para que se caso ela demorasse, eu buscar ela. Foi quando ele apareceu alterado”, recorda.

A filha chegou, os dois entraram, mas o homem continuou no portão. “Eu só retornei e disse para ele sair da minha casa e ir procurar a policia, porque eles é que poderiam esclarecer o furto da televisão. Foi quando eu me virei e ele me deu um tiro pelas costas”, conta. O disparo atingiu o baço e os dois pulmões.

“Eu fiquei internado por oito meses, sobre uma cama de hospital. A bala se alojou na minha coluna e eu fiquei paraplégico”, resume. Na época, o “Japonês” não foi preso pela tentativa de homicídio, mas depois foi indiciado por tráfico internacional de drogas e está preso até hoje.

Sobre a cadeira de rodas, José ainda dá vida aos trabalhos coloridos que cria. (Foto: Alan Nantes)Sobre a cadeira de rodas, José ainda dá vida aos trabalhos coloridos que cria. (Foto: Alan Nantes)

Como forma de amenizar o sofrimento e ao mesmo tempo arrumar uma distração entre um tratamento e outro, ele voltou a se dedicar a pintura, só que em telas. “Eu tinha apenas os poucos movimentos da mão e o pescoço. Então, dentro do próprio hospital eu já comecei a pintar as telas”, comenta.

A arte é terapia não só para a cabeça, serve também para amenizar as frequentes dores que sente até hoje. 

Apesar dos pesares, é com cores que ele vive essa nova etapa da vida. O estilo é livre, com algumas referências ao cubismo, imagens abstratas ou de paisagens. “Teve um período em que eu só pintava ipês em minhas telas. As levava para onde eu fosse. Era como um ipê, que eu me sentia: praticamente imóvel”, comenta.

A inspiração para os quadros ele conta que vem da observação do movimento da cidade, do Cerrado. Mas até um quadro da Banda Bêbados Habilidosos ele ostenta na parede de casa. “Este eu pintei em homenagem ao Renato Fernandes, logo em seguida a sua morte”, aponta.

As telas vão contando a história de uma recuperação. “Quando eu pintei está daqui, eu ainda tremia muito. Olha só”, diz apontando para o quadro “Campo Grande Recortada”.

Para quem quiser conhecer, pela primeira vez o artista expõe suas obras ao público em Campo Grande. Até o próximo dia 25 de fevereiro, o Frans Café, na Rua Marechal Rondon, recebe a exposição que reúne quase todas as obras produzidas desde o tiro nas costas.

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