A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

30/09/2016 08:52

De olhos fechados, peça é "vista" pelos ouvidos com a narração cena a cena

Paula Maciulevícius
Os Ancestrais é apresentado pela companhia mineira Grupo Teatro Invertido"Os Ancestrais" é apresentado pela companhia mineira "Grupo Teatro Invertido"

“Móveis quebrados e objetos diversos estão espalhados de modo desordenado pelo espaço em meio a uma enorme quantidade de terra. Pequenos pontos de luz iluminam o ambiente escuro”. São essas as palavras que descrevem o início da peça “Os Ancestrais”, apresentada nesta quinta, no Armazém Cultural, pela companhia mineira “Grupo Teatro Invertido”.

Veja Mais
Poeta Ferreira Gullar morre aos 86 anos devido a problemas respiratórios
Com gorros de Papai Noel, artistas realizam performance contra calote de editais

Em cena, atores que desenrolam depois de um desmoronamento, as relações familiares embaixo dos escombros e a noção de desigualdade diante da propriedade da terra no Brasil. Entre o público, gente que para entender a peça não precisa enxergar e pela audiodescrição, entende o que se passa em cada momento.

A ferramenta de acessibilidade já esteve presente em Campo Grande em poucas apresentações de terra e mostras de cinema, mas é o que faz a diferença para a artesã Zenaide Dias da Silva Rocha, de 70 anos. Cega de nascença, foi assim que ela entendeu o começo da peça: “O cenário, com a audiodescrição era assim, tinha uma porta velha de madeira, uma porta de metal e um monte de terra e um buraco. Entendi tudo através da audiodescrição, que a pessoa descreveu para nós com fone”, explica.

 

Zenaide, deficiente visual desde nascença, assistiu a peça ouvindo a descrição das cenas.Zenaide, deficiente visual desde nascença, assistiu a peça ouvindo a descrição das cenas.

Desde o cenário, até as coisas que acontecem no palco, uma cabine com profissional que tem o preparo e o roteiro em mãos repassa no fone de ouvido todas as informações descritas. “A gente sabe o que está passando, porque ouve as pessoas falar, mas até então, não sabia o que elas estavam fazendo. Assim, consigo entender a peça que é muito bonita”, explica dona Zenaide. “Para nós, é emocionante porque a gente não está vendo, mas sabe o que está acontecendo”, completa.

O espetáculo já passou por Curitiba, São Paulo, Florianópolis, Caxias do Sul, Itajaí, Santos e até na cidade de Manizales, na Colômbia. Com texto e direção assinada por Grace Passô, no mesmo momento em que uma família se transforma e se confronta em meio a uma situação extrema, os diálogos mostram que a ausência de política justa no que diz respeito à propriedade de terra de um país desigual.

Sem saber os dias e nem as horas que estão ali, uma família de mãe e filhos, junto da vizinha, contam a trajetória para construir a casa e como é ver todo esforço vir abaixo. E mais, pensam como será quando saírem dali. Dos escombros, sairão heróis, mas que depois ficara à mercê para reconstruir a vida.

O cenário é um só. O buraco é a saída quando eles são resgatados. Quem vai, segue a luz que vem ali.

Depois do desmoronamento, personagens levam para o palco as relações familiares e a desigualdade de terra no País.Depois do desmoronamento, personagens levam para o palco as relações familiares e a desigualdade de terra no País.

A audiodescrição é feita pelo grupo mineiro SVOA, que há dois meses acompanha o espetáculo pelo País, com uma narração extra a ser feita ao vivo, de uma cabine na lateral do palco.

“A gente assistiu dois ensaios, viu também um vídeo deles e fez um pré-roteiro, testamos de novo e nosso consultor, com deficiência visual, é quem vai falando o que está funcionando ou não e fazendo ajustes no roteiro”, explica a audiodescritora Anita Rezende.

Sem sobrepor a fala dos personagens, a narração segue harmonicamente com a sonorização da peça.

O consultor deficiente visual é o crivo da equipe. “Nada se faz para uma pessoa com deficiência sem ela, nada é feito para eles, sem eles”, frisa Webster Moreira, também audiodescritor do grupo.

Na saída da peça, dona Zenaide agradece ao trabalho e já porta afora do espaço, consegue discutir o que foi ouvido. “A audiodescrição é uma ferramenta de acessibilidade que provoca a inclusão. O legal é saber que se ela tiver que sair e discutir com quem viu a peça, vai poder fazer isso de igual para igual”, frisa Webster.

A peça será reapresentada novamente hoje, às 20h, no Armazém Cultural, na Avenida Calógeras, 3065 – Centro. A entrada é gratuita e os ingressos serão distribuídos 1 hora antes do início da apresentação.




imagem transparente

Compartilhe

Classificados


Copyright © 2016 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.