A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

03/05/2014 07:10

Fabricação de viola tradicional do Pantanal atrai crianças e idosos em festival

Aliny Mary Dias, de Corumbá
Sebastião aprendeu como fazer viola com o pai (Foto: Cleber Gellio)Sebastião aprendeu como fazer viola com o pai (Foto: Cleber Gellio)

Responsável pelo ritmo que embala as danças siriri e cururu, tradicionais no Pantanal do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a viola de cocho está longe de ficar apenas nos registros dos patrimônios imateriais brasileiros. O instrumento carrega a força do homem pantaneiro, demora uma semana para ser fabricado e os ensinamentos estão mais atuais do que nunca.

Veja Mais
Descobertos na adolescência, Rafa e Ruan mesclam clássicos e pop sertanejo
Em clipe de rock alternativo, casal coloca tudo a perder por mensagem de celular

Na 11ª edição do Festival América do Sul, uma oficina ministrada pelo ícone em produzir o instrumento, Sebastião de Souza Brandão, 70 anos, atraiu crianças, jovens e adultos. Foram mais de 25 inscritos em cada dia da oficina que terminou nesta sexta-feira (2).

E não há como falar sobre as técnicas, a produção e o som da viola, sem se emocionar com as histórias de Sebastião. Hoje vivendo em Ladário, cidade vizinha a Corumbá, o senhor de cabelos brancos, passo agitado e olhar atento, repassa para qualquer um que tiver interesse no aprendizado tudo aquilo que foi ensinado pelo pai.

“Meu pai sempre gostou da viola e sempre fez. Aos 18 anos eu tive o primeiro contato com o instrumento como ajudante dele, depois que ele morreu, eu fui trabalhar na ferrovia, mas nunca esqueci da viola”, lembra.

Oficina atrai crianças e adultos em Corumbá (Foto: Cleber Gellio)Oficina atrai crianças e adultos em Corumbá (Foto: Cleber Gellio)

Uma década se passou e Sebastião deixou a vida de ferroviário para se dedicar à fabricação da viola de cocho. E um dos instrumentos que ele usa para animar as danças de cururu hoje tem um valor que dinheiro nenhum desse mundo paga.

“Já me ofereceram muito dinheiro nessa viola, mas essa eu não vendo. Ela foi a última que meu pai começou a fazer antes de morrer. É uma relíquia que eu vou deixar para o meu filho que vai passar para o meu neto”, diz o cururueiro com os olhos marejados.

A história de Sebastião, o amor e a dedicação com os quais ele compartilha o que aprendeu durante a vida, são um capítulo a parte em toda a oficina. A todo o momento, uma frase sábia contagia todos aqueles que têm a oportunidade de ouvi-la. “Quem ensina aprende também”.

Ensinamentos – Nas oficinas sobre a fabricação da viola, lecionadas durante o festival, tudo é ensinado. Desde a madeira certa para o instrumento, a maneira de cavar a tora, como riscar o compensado que é usado para fechar a viola e até qual a afinação correta das cordas – que hoje são de nylon, mas que no passado já foram de intestino de porco.

Maycon dá aula de viola para crianças e nunca viu como fazer uma (Foto: Cleber Gellio)Maycon dá aula de viola para crianças e nunca viu como fazer uma (Foto: Cleber Gellio)
Mecânico de motos foi motivado por curiosidade para conhecer a viola (Foto: Cleber Gellio)Mecânico de motos foi motivado por curiosidade para conhecer a viola (Foto: Cleber Gellio)

Entre os interessados em aprender e ser um canal disseminador da cultura pantaneira está Maycon Viana, 21 anos. Violeiro e instrutor no Moinho Cultural da cidade, ele já ensina para crianças como dedilhar as cordas da viola de cocho, mas pela primeira vez teve contato com a forma artesanal de produzir o instrumento.

“Eu ensino as crianças e elas ficam muito felizes em aprender a viola de coxo. Eu nunca tive a oportunidade de fazer uma dessas e está sendo uma experiência incrível. Tenho certeza que repassar a cultura de um jeito correto é o melhor caminho”.

Outra que fez questão de viajar de Cuiabá até Corumbá para aprender um pouco mais do instrumento com Sebastião foi Vilmara da Silva Vidica, de 37 anos. Ela trabalha com a dança siriri no Mato Grosso e fez parte do intercâmbio cultural.

“Mesmo ensinando a dança, eu nunca participei do processo de fazer a viola e está sendo muito bom. É uma maneira de manter a cultura e valorizar o que era tão tradicional da nossa terra”, completa.

Sebastião se emociona ao falar da última viola feita pelo pai (Foto: Cleber Gellio)Sebastião se emociona ao falar da última viola feita pelo pai (Foto: Cleber Gellio)

E não são só as pessoas ligadas com a dança ou com a música que procuraram a oficina. O mecânico de motos, Diego Ferreira, 22 anos, mora em Ladário e foi a curiosidade que o levou até Corumbá.

“Eu fiquei sabendo que ia ter essa oficina e quis ver, não conhecia, só tinha visto na televisão porque nasci em Campo Grande. Agora eu tenho certeza que vou começar a tocar a viola, é um som muito diferente”, completa.

Para o responsável por transmitir tudo o que aprendeu com o pai para os outros, a sensação de ver crianças e adultos olhando atentos para cada movimento só pode ser traduzida em uma frase. “Eu nem tenho o que dizer, estou muito feliz”, comenta Sebastião.




imagem transparente

Compartilhe

Classificados


Copyright © 2016 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.