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Campo Grande, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

18/08/2013 09:00

Manoel de Barros, nosso poeta das novas palavras, manda notícias

Bosco Martins (*)
Poeta fala ao jornalista Bosco Martins (Foto: Divulgação)Poeta fala ao jornalista Bosco Martins (Foto: Divulgação)

Manoel de Barros vive em uma casa do centro de Campo Grande (MS) com a mulher, Stella. Aos 96 anos (já conta os 97) considera “um privilégio” ter chegado a esta altura, sem nunca precisar agradar ou bajular ninguém.

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Por conta da idade, o Poeta diminuiu muito a sua produção. Os anos trouxeram ainda outros dissabores, como uma maior dificuldade para andar e a lentidão para escrever, agora, segundo ele, já em ritmo “baticum gererê”.

O poeta faz poesia, a lápis (ou com uma Bic), usando a mão esquerda possui alguns dedos “adormecidos”. Mantém sua letra miúda e justifica: “Não sei de máquina. E ignoro computador. Cheguei antes”.

Em seu escritório, continua a reunir seus tesouros: as fotos do pai João Wenceslau e da mãe Alice, uma pequena biblioteca com os livros preferidos, dicionários, a escrivaninha , vários pequenos cadernos com anotações, tocos de lápis etc, onde cria: relendo e escrevendo, ouvindo música clássica ou fazendo sua contemplação em sua lida diária.

Fechado pro mundo - Sempre foram frequentes minhas visitas ao Manoel, nos últimos 30 anos. Na mais recente, desfiz, enfim, a preocupação de uma outra ida à casa dele, quando não consegui vê-lo e fui recebido apenas pela filha Martha, também minha amiga. Era só uma “constipação”.

Manoel de Barros mantém a vivacidade de seus pequenos olhos pretos. O sorriso inesquecível do Poeta e a cordialidade mineira de Stella, sua mulher há mais de 60 anos, continuam os mesmos.

Degustamos o pão de queijo oferecido por Stella, acompanhado do seu saboroso cafezinho.

O Poeta mantém o hábito de antes do almoço tomar sua dose diária de destilado, com a única diferença de ter trocado as talagadas da pinga mineira por uísque com água de coco, orientação, segundo ele, de seu médico. O artista tem comido pouco. Gosta de ovo, arroz, carne, feijão, acompanhados sempre de fruta.

Fazem parte de sua rotina sete netos, cinco bisnetos, duas funcionárias que se revezam, a fisioterapeuta domiciliar que ajuda na reabilitação do filho Pedro (que busca recuperar de um coma pós um AVC).

Martha, que mora no Rio, também vê sempre os pais, cercados que estão pela lembrança do outro filho, João, morto em acidente de avião em 2008.

Manoel de Barros tem saído raramente de casa e só permite abrir as portas de sua residência para os familiares. Se comove muito quando revê algum amigo. Pessoa de uma delicadeza natural, estremece emocionalmente quando admiradores se aproximam. Houve um tempo em que atendia todo mundo, mas já não consegue.

O moço filho de fazendeiro, que estudou pintura e cinema em Nova York, é hoje o ancião que mais vende poesia no Brasil. Os livros dele também vendem bem na Europa, onde tem seguidores principalmente em Portugal. Por essas e outras é que o poeta fica cada vez mais fechado para o mundo. “Ele nasceu sem arrebentar a bolsa d água”, diz Stella, para explicar a estrela original do pantaneiro/cuiabano. E, é certo, ganhou “o dom” de Deus.

Estela serviu pão de queijo e cafezinho para o jornalista Bosco MartinsEstela serviu pão de queijo e cafezinho para o jornalista Bosco Martins

Nunca se relê - O Poeta é um tímido que vive de palavra. Manoel de Barros vive em estado de sensibilidade pura. Não relê os livros que escreveu. E somente Stella tem o privilégio de ver os originais, antes que o Poeta os mande à editora. Diante da consagração e da condição dos iletrados pós-modernos, sua poesia é nossa mais absoluta demonstração de independência e soberania e de esperança nesses tempos de sociedade digital.

Entre os assuntos recorrentes que aguçam a curiosidade de seus leitores, estão essas perguntas, que arquivei junto com as respostas curtas do Poeta: “Autores preferidos? Rimbaud é meu mestre. Aqui no Brasil, Guimarães Rosa, Padre Vieira. Novos autores? Há dez anos eu só releio. O que é poesia? Poesia é trabalho com palavras. Novo livro? Tento, com pouca força, outro livro de prosa poética. A posteridade? Sinceramente penso. Mas tenho todas as dúvidas. A timidez? Sou tímido. Um gole de vinho me tira a timidez. Fala do Poeta. Sou linguagem”.

‘Tudo o que eu não invento é falso’, diz - Manoel de Barros: ‘há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira’.

Tudo o que Manoel de Barros não inventa, “é falso”. Quem leu o poeta, sabe. Foi no vento desse vôo “fora das asas” que ele já atravessou 96 verões, invernos, outonos e primaveras. Está a caminho dos 97 anos, que vai completar em 19 de Dezembro. O poeta nascido em 1916, à beira do rio Cuiabá, não faz planos. Nem está assombrado pela idéia da morte. Caminha pela via única da poesia, movido pelas novas palavras.

E o que é esta poesia tão poderosa? Pergunta-se ao poeta. Avesso a discursos, teorias, pompas, fotos, ele prefere se isolar a responder. Não vai dizer que não pensa nem pensar o que não diz.

Ele sabe que a resposta está no que se escreve. No caso dele, a obra é o homem. É maior que o homem.

A poesia faz o artista pairar acima da rotina prosaica. Mas é dessa rotina que Manoel de Barros extrai os sentimentos, as intuições e traduz o que os olhos não vêem. Leu muito Guimarães Rosa. Adora palavras novas. Sonoridades que saem de algum ouvido extra que Deus lhe deu. Uma audição conectada com canais insuspeitos,franqueados a poucos. Ele nunca pensou longamente em Antoine de Saint-Exupery, mas sabe. O essencial é invisível.

Quando contempla, intui. E um gênio lírico em forma de anjo e aura de luz, ilumina seus textos, feitos com toco de lápis ou caneta bic. “O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis”, diz ele. Todos morrerão, o poeta morrerá.

Mas a poesia, ah! Essa tem parte com Deus. Sobreviverá aos tempos, aos desenganos, às doenças, aos limites físicos, á impossibilidade humana.

(*) Bosco Martins escreveu para o jornal Correio Braziliense




belíssima entrevista.
 
Heitor Vallim em 01/09/2013 19:56:17
Maravilhoso Manuel De Barros
 
Luiza Almeida em 30/08/2013 20:13:38
Obrigada, por esta maravilhosa reportagem que nos coloca tão próximo de Manoel de Barros.
Esta humildade, esta tocante forma de estar na vida e a partilhar dum jeito tão especial é uma benção.
Eu me comovo! É esse abraço comovido e pleno de afecto que lhe deixo. Bem haja, Manoel de Barros.
 
Alice Queiroz em 25/08/2013 19:22:27
Ah, Manoel é lindo...sensorial. Comecei a ler mais agora sobre ele e dele, estou "poetizada"...Uma graça magia envolve suas linhas escritas no tempo....Nunca mais quero parar de ler...
 
Raquel Pinheiro em 21/08/2013 09:43:27
Até hoje tenho dúvidas quanto a Manoel de Barros; se poeta ou cantador. Mas seja la o que for, sua poesia é tão bela quanto o canto do galo da serra.
 
Gilmar Soares Sobrinho em 20/08/2013 07:54:37
Este é o poeta cujas palavras deixam-se desnudar impunemente. Em nós, o prazer de passear sensorialmente por entre seus textos em busca de nossas essências.
 
Rose Mary Ferreira Almeida em 19/08/2013 22:19:31
Como eu amo esse ser iluminado. Ele é o poeta da minha vida. Palavras são incapazes de descrever o que sinto ao vê-lo através de seus escritos. Só desejo a ele vida longa e tenho por ele um amor de avô. Deus o abençoe, meu poeta querido.
 
Isabella de Souza em 19/08/2013 13:04:53
Tenho todos os livros que posso adquirir, ou melhor que acho para adquirir do imenso poeta. Adoro sua lindíssima linguagem com adoro a de Guimarães. Falam um dos dialetos brasileiros mais bonitos. Sou de Recife, temos um dialeto sertanejo muito bonito, mas o de Manoel e o de Guimarães são imbatíveis.Leio poesia desde que nasci, os pais leitores me guiaram para todos.Pai português, mãe tradutora dos ingleses e franceses, me mostraram tbm a poesia brasileira.Manoel é um ser mágico, uma fada, diria eu , melhor um gnomo.
Ilustrei dois poemas seus e nunca vos mandei .Achei pequenos diante da imensidão da sua obra.Meus sinceros pêsames pela recente morte do filho, sei a dor que passamos , não sou jovem, sou uma senhora criminalista que já rodou o mundo e não conheceu nada como vc. Agradeço .
 
elisabeth salazar martins em 19/08/2013 10:46:14
MARAVILHOSO!!!
ÓTIMA REPORTAGEM...EH UM PRAZER TER ESTE JORNAL, PARABÉNS!!!
 
helena souza em 19/08/2013 09:35:43
Ler esse texto, olhar pela janela, rever o céu e a terra, e pensar que ele ainda está também entre os dois. Tão perto da gente. Tão divino.
 
Begèt de Lucena em 19/08/2013 09:34:30
Ah... Manoel! Que honra tê-lo "nosso", e ter o privilégio de ler suas linhas...
Quem nunca o leu não faz ideia do que perde...
 
Mériele Oliveira Pereira em 19/08/2013 09:30:54
Se ele não fosse nosso teríamos que rouba-lo. É fácil dizer o quanto ele é querido, mas é difícil pensar que a idade chega e que um dia será levado de nós, mas enquanto isso não acontece, que ele continue carregando água na peneira e colocando palavras em cima de cercas, porque afinal, os vazios são maiores e até infinitos. Nosso querido ♥
 
Ennesli Granjeiro em 19/08/2013 08:42:21
Grata e bela surpresa numa manhã ainda fria de segunda-feira ao receber notícias do poeta Manoel de Barros pela verve de Bosco Martins. Texto leve, bem escrito, com jeito de trilha sonora e cheiro de cafe com pão de queijo.
 
Marcos Morandi em 19/08/2013 08:02:30
Há muito não lia uma memória de visita tão original! obrigada.
 
Rosa Morceli em 19/08/2013 01:00:49
Gostei de encerrar meu domingo e iniciar mais uma semana lendo essa matéria de Bosco Martins. Delícia de texto! Parabéns, Bosco e viva o Poeta!
 
Mônica Ferreira em 18/08/2013 22:23:10
Aaaah como eu gostaria de conhecê-lo. Só um abraço...um olhar de agradecimento por tantos anos brincando com as palavras.
Também sinto orgulho de termos bem pertinho ... Manoel de Barros.
 
Nádia Heuert em 18/08/2013 20:11:05
lindo texto! parabéns ao jornalista!
 
Alexandre Ribeiro em 18/08/2013 19:55:54
Verdade é, que a nossa geração tem se esquecido da poesia. Da nossa poesia. Talvez não lhes interesse a nossa poesia, ou talvez não tenhamos conseguido passar para eles os nossos valores eternos. Que escola sul-mato-grossense de ensino fundamental ou médio tem incluído no rol das suas leituras, Manoel de Barros?
Estamos vivendo um momento de literatura descartável, infelizmente. Quem já leu Machado de Assis, Guimarães Rosa, Castro Alves, Monteiro Lobato?! Essa geração lê Senhor dos Anéis, Crepúsculo... Ainda assim, parabéns aos que leem.
 
Aldo Silva Rocha em 18/08/2013 17:59:31
Recebi o maior presente que um amante da poesia e literatura pode receber...em uma visita a meu irmão em Campo Grande fui levada por ele para tomar café da manhã e "amarrar o tempo no poste" com o poeta Manoel e Estelinha...inesquecível o que vivenciei ali e inexplicável os sentimentos que me afloraram...obrigado meu querido irmão BOSCO, por eternizar em mim a a belezura dos tontos...obrigada Manoel por me ensinar a construir uma naturezinha para o AMOR!
 
Gislene M. de Castro Martins Duarte em 18/08/2013 17:19:23
Feliz em vê-lo na ativa Bosco. Belo texto e feliz por ter noticias de nosso grande e amado poeta.
 
Lucilene Bigatão em 18/08/2013 15:09:03
Grande poeta, que Deus continue iluminando-o para que, através da poesia , continue nos brindando com as suas sábias mensagens de amor e humildade.
 
Marlione Nascimento em 18/08/2013 14:55:27
Grande escritor, deveria ter uma semana em Campo Grande dedicado as obras deste grande escritor pantaneiro.
 
Roberto Domingos em 18/08/2013 13:59:44
Manoel,
que Deus o abençoe!!!
E viva a palavra, inventada, vivida...!!!
 
Mariluci Rossi em 18/08/2013 13:40:56
Gostaria muito de chegar perto do mestre, mas sem cometer o crime de falar uma palavra. Penso que falar com Manoel é um sacrilégio... Fiz três canções pra ele, que é claro, ele não as conhecerá, mas são só pra registrar meu amor pelo poeta, que mudou radicalmente na minha vida no modo de ver as palavras, aquelas que formam uma curvatura luminosa advinda das cantigas dos sapos pantaneiros! Minha conversão, em parte, pra essa região, é dele, é impossível não ter orgulho de saber que se mora perto do maior palavrista da humanidade vivo! Vida longa pra Manoel!
 
Raimundo Edmário Guimarães Galvão em 18/08/2013 11:10:02
Entre tantas notícias banais do dia a dia, uma matéria gostosa de se ler. Manoel de Barros é exemplo de vida, de profissional.
 
Miram de Castro em 18/08/2013 09:41:19
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