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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

24/05/2012 11:54

Nunca Manoel de Barros deixou de atender ao telefone

Ângela Kempfer
Foto de divulgação do filme Só dez por cento é mentira, sobre a vida de Manoel.
Foto de divulgação do filme "Só dez por cento é mentira", sobre a vida de Manoel.

As palavras saem meio borradas, mas mesmo assim ele conversa bastante e repete o quanto for necessário. Aos 95 anos, o senhorzinho de bigode atende mais uma das dezenas de ligações que tenho feito ao longo da vida de jornalista. Nunca Manoel de Barros deixou de atender.

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Ele não usa celular. É na base do telefone fixo que tenho conversado há mais de 20 anos com o poeta. É a forma rápida de “trocar uma ideia” com o homem mais sensível, atencioso e sorridente que já conheci.

Mas mesmo que tentasse uma conversa frente a frente, não conseguiria, adverte o poeta. “Ando meio sem graça, não estou mais recebendo visitas”, responde quando a pergunta é a básica: “Como o senhor está?”

Parece pretensão minha, mas não encontro ninguém na cidade que tenha mais a dizer que Manoel de Barros. É claro que não ligo para perturbar o homem à toa, ou debater questões pessoais.

Já telefonei para falar sobre a questão indígena, para discutir comportamento e, é claro, para conversar sobre arte e sobre o Pantanal. Nunca Manoel pediu para desligar, sempre fui eu, constrangida pelo tempo “desperdiçado” por ele comigo.

Lembro que um dia, na década de 90, consegui até dividir o telefonema com alguns meninos de assentamento rural que formavam o grupo “Poetas do Cerrado” e tinham como sonho falar com Manoel. Por um bom tempo, os garotos se revezaram no telefone, alguns só para dizer oi.

Hoje, lá pelas 10 da manhã, procurei Manoel de Barros mais uma vez, desta vez para conversar sobre prêmio internacional conquistado pelo nosso grande poeta. Ao atender, uma das funcionárias da casa surpreendeu minha certeza. “Vou ver se ele vai atender, porque ultimamente não anda falando ao telefone”.

Tive sorte. Manoel não mudou.

O prêmio - Manoel de Barros é o primeiro autor brasileiro a receber o Prêmio de Literatura Casa da América Latina/Banif, instituído em Portugual há 7 anos. Venceu com a “Poesia Completa” (no Brasil, lançado pela editora Leya).

A homenagem hoje em Portugal não terá a presença de Manoel. No lugar dele seguiu a filha Martha, não por qualquer motivo preocupante, diz sorrindo o vencedor. “Não estou doente, estou velho, é só isso mesmo”, conta.

Os títulos e mais títulos conferidos não só pelas academias, mas por gente de todo tipo que encontrou na poesia de Manoel algo compreensivo e tocante, não parecem empolgar o poeta. “Fico feliz, mas é só outra viagem. O que mais me interessa mesmo é continuar escrevendo”.

E o lápis continua na mão. Sem sair de casa “para nada”, como resume o poeta, os dias no imóvel da rua Piratininga são de observação e escrita. “Ainda consigo”, ri o homem aparelhado para gostar de passarinhos.

Manoel escreve, escreve, mas já não são só poesias. É algo a mais ou a menos. Ele mesmo ensinou que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que produza em nós, não é.

E perto dos 100 anos, ele continua assim, tentando novos encantamentos. “Não sei dizer o que ando escrevendo, são ideias”, diz.

Nesta semana, Manoel conta que sentou para escrever poesia por agradecimento. Como não poderia ir até à Europa, deu o obrigado com rãs, formigas e brisas.

“Enviei o que escrevi pela minha filha Martha. Espero que eles tenham gostado”, comenta com verdadeira humildade. Leio as frases para o poeta e ele confirma em meio a uma gargalhada. "É minha. Totalmente minha".

“Fôssemos merecidos de água, de chão, de rãs, de árvores, de brisas e de graças! Nossas palavras não tinham lugar marcado. A gente andava atoamente em nossas origens. Só as pedras sabiam o formato do silêncio. A gente não queria significar, mas só cantar. A gente só queria demais era mudar as feições da natureza. Tipo assim: Hoje eu vi um lagarto lamber as pernas da manhã. Ou tipo assim: Nós vimos uma formiga frondosa ajoelhada na pedra.

Aliás, depois de grandes a gente viu que o cu de uma formiga é mais importante para a humanidade do que a Bomba Atômica”, agradece Manoel aos portugueses.




Ótima matéria! Só os grandes se permitem fazer o que a idade pede! Grande Manoel de Barros...!!
 
Bartolina Ramalho Catanante em 20/12/2012 08:31:38
Matéria sensacional!!!
 
Magno Ferreira em 20/11/2012 12:53:36
Belo depoimento! Manoel de Barros é com certeza um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Ângela, sou pesquisadora da poesia de Barros. Gostaria de entrar em contato com você. Pode me passar seu e-mail?! Ficaria muito grata.
 
Jahynne Dantas em 26/05/2012 12:08:46
Maravilhosa a matéria, Ângela. Parabéns!!
 
Priscila Maria Marcheti Fiorin em 25/05/2012 11:50:48
Texto simples e emocionante... como nosso poeta.
Viva Manoel de Barros o melhor poeta da atualidade.
 
Ana Carolina em 25/05/2012 11:17:02
Manoel de Barros, não o conheço pessoalmente mas me conformo com a estatua que existe no jardim da prefeitura,o mundo deve agradecer ao Brasil por aqui existir uma pessôa maravilhosa como Manoel de Barros,minha admiração e total,Obrigada Grande poéta por voce existir.
 
Teresa Moura em 25/05/2012 10:40:50
Ângela, parabéns! Linda matéria.
 
Laura Chudecki em 25/05/2012 09:36:21
Se me vires na rua
a culpa é exclusiva sua
se meu corpo tremer
é simplesmente reflexo
de corpo,alma e sexo
sentindo falta de você.

Minha humilde poesia não é tão fantástica e apaixonante quanto a sua Manoel, mas voce serve de inspiração para muitos afinal de poeta e louco todos temos um pouco.
beijos no coração.
 
jorge cabral em 25/05/2012 09:25:03
Seu texto é um fato, Angela.

Sou testemunha da humildade do poeta Manoel de Barros.

Certa vez, quando eu assessorava o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, aqui em Brasília, fiz contato com o poeta. Everardo é um fã do Manoel de Barros.

Ele me atendeu com simplicidade impressionante.

Esse gesto é próprio dos grandes homens, das grandes inteligências.
 
Antonio Carlos Teixeira em 24/05/2012 12:50:00
Olha... Manoel é verdadeiramente grandioso! Com ele compreendi que "A maior riqueza do homem é a sua incompletude"
Com certeza! É por isso que não podemos enferrujar, o movimento é necessário, as mudanças, a renovação: "...Eu penso renovar o homem
usando borboletas." Viva Manoel de Barros!
 
JESSICA MACHADO em 24/05/2012 12:25:24
Que texto! Que privilégio ter uma colega com um texto tão primoroso e residir na mesma cidade onde vive Manoel de Barros. Também já testemunhei a simplicidade com que o poeta atende as pessoas. Concordo com Antonio Carlos: atitude dos grandes homens.
 
Mônica Ferreira em 24/05/2012 10:44:47
Manoel de Barros é o legítimo homem conhecedor da nossa terra...é emocionante sua visão do homem em relação com a natureza.
 
JOSIAS PEIXOTO ACOSTA em 24/05/2012 04:13:13
Uma das melhores matérias que já li. Emocionante. Parabéns, Ângela.
 
Bruna Lucianer em 24/05/2012 01:39:50
Podemos dizer que o "Véi" é o andarilho das palavras. Viva Manoel
 
José Fábio em 24/05/2012 01:27:39
Que lindo texto...Bom demais ler coisas simples e com sensibilidade.
 
Ana Maria em 24/05/2012 01:05:04
imagem transparente

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