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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

07/06/2016 06:25

"Fiquei cega aos 17 anos, hoje sinto vontade de ver o mundo e não consigo"

Thailla Torres

Mariana Cristina Barbosa, de 31 anos, ficou cega ainda na adolescência. Viveu em dois mundos totalmente diferentes e hoje sente falta das coisas mais simples, que só a visão podia lhe proporcionar. Apesar das dificuldades pelo caminho, ela batalhou até realizar o sonho de fazer uma faculdade. Faltando apenas duas semanas para ela finalmente terminar o curso de Psicologia, Mariana decidiu abrir o coração aqui no Voz da Experiêcia.

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Agradeço, porque eu sei que não vivo totalmente na escuridão.(Foto: Simão Nogueira) "Agradeço, porque eu sei que não vivo totalmente na escuridão".(Foto: Simão Nogueira)

"Posso dizer que até hoje tive dois mundos. Antes e depois de perder a visão. Nasci com glaucoma congênito, mas que só foi descoberto aos 7 anos de idade, quando eu ainda estava na escola. A professora começou a perceber que eu tinha dificuldade de enxergar no quadro. Ela chamou minha mãe para uma conversa e disse que eu precisava ir ao médico.

Fui consultada e descobriram que eu estava com glaucoma. Comecei um tratamento, ainda aos 8 anos fiz uma cirurgia nos dois olhos e passei a usar óculos. Eu enxergava bem na minha infância, apesar de usar quase 10 graus de cada lado.

Mas foi na minha adolescência que eu comecei a perceber que a minha visão estava enfraquecendo. Durante as aulas, escrevia fora da linha no caderno, sentava na primeira fileira da sala e minhas amigas precisavam ditar as palavras para eu pudesse escrever. E aí eu fui percebendo que a minha situação estava piorando.

Perdi a visão completamente aos 17 anos. Pouco antes de perder a visão, a médica quis fazer uma cirurgia no meu olho direito que era o que eu estava com menos visão. E caso eu tivesse alguma complicação, ainda teria o olho esquerdo. Porém, na hora da cirurgia eles inverteram e operaram o olho esquerdo. Foi um erro médico, que eu tinha esperança de ser revertido. Me mandaram para Goiânia onde fui operada novamente e chegaram a dizer que era uma cortesia da casa.

Voltei para casa, continuei indo aos médicos, pra ver se tinha maneira de reverter, mas me disseram que não tinha mais o que fazer no meu olho. E até hoje não enxergo.

Quando fiquei completamente sem visão, eu larguei tudo. Fiquei um período de 7 anos fora da escola e dentro de casa. Confesso que não fiquei tão abalada, mas não tinha vida social, porque eu achava que não era capaz.

Mariana ao lado da mãe Esmeralda Dávalos,d e 59 anos. (Foto: Simão Nogueira) Mariana ao lado da mãe Esmeralda Dávalos,d e 59 anos. (Foto: Simão Nogueira)

O maior apoio veio da minha mãe. Ela me disse que já estava na hora de voltar a estudar. Conclui o ensino médio e em 2011 tive a coragem de encarar um dos maiores sonhos da minha vida que era fazer uma faculdade. Decidi cursar Psicologia, mas jamais imaginei que a vida universitária seria um mundo tão diferente pra mim. Foi ali que eu me dei conta de que estava cega. Após tantos anos em casa, eu ainda não tinha caído na real sobre a minha própria deficiência.

Os dois primeiros anos de curso não foram fáceis. Me deparei com várias dificuldades porque eu precisava de recursos. O local ainda não tinha sido totalmente adaptado, não tinha piso tátil, leitor para as provas e nem escanner dos textos. Foi um processo de adaptação, tanto pra mim, quanto para a universidade. Para estudar, eu gravava as aulas e para ler os textos, utilizo até hoje um programa no computador que é instalado e faz a leitura.

Mas a maior dificuldade foi lidar com as pessoas. Existia um atrito entre as minhas dificuldades e os professores. Eu percebi que alguns tinham dificuldade de lidar comigo. Descobri um mundo totalmente diferente de quanto estive na escola e dentro de casa, foi ali que eu me desesperei e vi que realmente estava cega.

No ensino médio eu tinha colegas muito mais acolhedores e amigas que estudavam comigo. Quando comecei a faculdade, senti tristeza, angústia e ansiedade. Passei por muito preconceito na universidade, várias pessoas tentaram me humilhar, pisar em mim, os próprios colegas de sala tentavam me colocar pra baixo, dizendo que eu fazia “corpo mole”. Tinha vezes que eu estava preocupada com algum trabalho que precisava fazer, ia pedir uma orientação e me deixavam falando sozinha.

Mas foi aí que me tornei forte, porque eu passei por cima de tudo. A Psicologia me ajudou muito nisso. Eu sempre fui apaixonada pelo curso e acho uma profissão linda. E eu sabia que no fundo aquelas pessoas que pisavam em mim, eram as que realmente precisavam de ajuda. Hoje os meus amigos são raros, tenho dois ou três no máximo. Percebi que cada é um por si.

Algumas situações ainda acontecem e acabam chateando. Esses dias, entrei ônibus e um senhor ficou indignado porque eu estava sozinha e disse que eu não poderia nem ter saído de casa. Mas a minha deficiência não me impede de viver e ninguém precisa me tratar como coitada. Entendo que as pessoas as vezes fazem sem perceber, mas é importante estar atento.

Uma das coisas que mais ouço é que a gente tem que aceitar e se conformar. Mas isso não é fácil, porque eu me lembro do tempo que eu enxergava e ficar cega foi muito doloroso. Hoje eu sinto vontade de ver o mundo e não consigo. Tudo que eu mais queria era poder ver o sol de manhã e o rosto das pessoas. Sempre que conheço alguém, peço para minha mãe falar um pouquinho como são os traços para que eu possa imaginar.

A única coisa que consigo ver com o olho direito é um clarão. Tenho 5% de visão nesse olho, mas não enxergo nada, além disso. 

Eu não me questiono sobre porque isso aconteceu comigo, mas para que. Sei que a perda da minha visão me ajudou muito como ser humano, ainda mais com a entrada na universidade. Sou uma pessoa melhor hoje em dia, com certeza.

Levo um vida normal, estudo, sou independente dentro de casa, faço minhas coisas sozinha, ajudo minha mãe a limpar casa, lavo a louça e só me preocupo com a faca. Quando eu vejo que tenho dificuldade, aprendi a não ter vergonha de pedir ajuda.

Vi que nada me impede de crescer e manter também a minha beleza. Continuo com a minha vaidade, gosto muito de maquiagem e a única coisa que peço é para minha mãe pegar a roupa no guarda roupa e me falar a cor da peça. Faço tudo normalmente.

Só digo que todo mundo tem o seu tempo. Aceitar não é fácil, mas faz parte do processo na vida da gente. Pessoas que perdem a visão, principalmente quando tiveram um tempo em que enxergaram, não podem perder as esperanças. Eu parei 7 anos da minha vida e não havia percebido que fiquei mal com a perda da visão. Mas hoje eu não desisto dos meus sonhos, quero fazer uma especialização, mestrado e seguir com meu estudos."

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