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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

08/04/2015 08:27

A visita do "comendador" à Cidade de Deus deu o que falar nas redes sociais

Mariana Monge
E isso me fez chegar à conclusão de que seria um massacre à infância e à juventude de tantos brasileirosE isso me fez chegar à conclusão de que seria um massacre à infância e à juventude de tantos brasileiros

Nesta semana, um vídeo que o ator Alexandre Nero postou nas redes sociais deu o que falar. Nas imagens, ele chegava à favela Cidade de Deus, em Campo Grande, e era recepcionado por um grupo de crianças eufóricas com a presença do famoso "comendador" no local, celebridade que, com certeza, elas jamais pensariam encontrar na vida. Mas a cena era mais real do que podiam imaginar, e o galã global ganhou de vez o coração não apenas dos moradores da comunidade.

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Embora a atitude dele tenha sido nobre e de uma humildade linda, o que realmente provocou burburinho foi o comentário do ator sobre o vídeo:

( ) ele diz: "Vc é contra a redução da maioridade penal até um moleque colocar um ferro na tua cara ou matar alguém da tua família, seu filho da puta"

(X) eu digo: "E vc é a favor da redução da maioridade penal até um moleque desses abrir um sorriso iluminado e uma gargalhada gostosa, mesmo não tendo nenhuma perspectiva de melhorar a própria vida".

Assistindo ao vídeo, mergulhei em um mundo paralelo e cheio de lembranças, tentando organizar dentro de mim minhas próprias ideias, valores, ideais, junto com o tanto de comentários que lia na postagem do artista, muitos até com falta de coerência e sensibilidade.

Uma dessas lembranças foi a de um garoto de 17 anos que entrevistei, quando ainda trabalhava com o jornalismo diário. Aos 6 anos de idade, ele trocou os brinquedos pela pasta-base, que lhe foi dada pela própria mãe, dentro de casa. No início da adolescência, depois da morte da mãe por cirrose alcoólica, ele foi para as ruas e se afundou cada vez mais nas drogas.

Enquanto ele me contava a sua história de vida, eu só conseguia ter um pensamento: "qual oportunidade este garoto teve? Qual realidade ele conheceu que não fosse um mundo de vícios e crimes? Será que ele poderia ser diferente do que é?"

Eu o entrevistei em um abrigo que cuidava de dependentes químicos e ele estava baleado. Em certo momento da entrevista, eu perguntei se ele tinha algum sonho, apesar de ter consciência de que com a vida que levava não conseguirá chegar muito longe. Mas ele me respondeu com um brilho nos olhos: "Quero mexer com animais. Quero ser um laçador. Você me ajuda, tia?"

Quando ele disse isso, um nó me trancou a garganta e eu não consegui perguntar mais nada. Agradeci pela entrevista e carrego até hoje a história daquele garoto comigo. Um adolescente bem esperto e vivido, mas com um rosto de menino. Na época, ele tinha no histórico dois homicídios e uma tentativa...

Quero mexer com animais. Quero ser um laçador. Você me ajuda, tia? (Foto: Mariana Monge)"Quero mexer com animais. Quero ser um laçador. Você me ajuda, tia?" (Foto: Mariana Monge)

Não sou expert em lei e me considero bastante leiga para escrever um texto cheio de fundamentos. Mas quero colocar aqui o que, certa vez, ouvi de um juiz. Ele disse que se a maioridade passasse para os 16 ou 14 anos, com o intuito de tentar diminuir a criminalidade entre adolescentes, pois, na teoria, estes passariam a ter medo da lei, os bandidos de verdade começariam a colocar crianças cada vez mais novas no mundo do crime. E isso me fez chegar à conclusão de que seria um massacre à infância e à juventude de tantos brasileiros.

Talvez seja bem cômodo pra mim (que tive pais extremamente presentes na minha vida, educação de qualidade, orientação religiosa, não sou alvo comum de preconceitos e tive boas oportunidades) apenas dizer que cada um é responsável pelo o que se torna. Será que eu realmente seria como sou se não tivesse tudo do que tive?

Veja bem que não estou falando em impunidade, em passar a mão na cabeça e tratar um adolescente que comete um crime como coitadinho, só não concordo em jogar esses menores de idade em um sistema penitenciário falido. Penso que o buraco é mais embaixo e que estrutura familiar ainda é a base (e solução) de tudo.

Que me desculpem as pessoas racionais e frias, mas eu ainda cultivo em mim a mania de defender o amor ao próximo, por mais utópico que isso pareça ser nos dias de hoje. E não me venha com o código penal brasileiro, pois, na minha opinião, não há lei no país em vigor que vá consertar quem não teve referência de valores humanos.

*Mariana Monge é jornalista e colaboradora do Lado B. Mais textos na página Mariana Monge.




"Que me desculpem as pessoas racionais e frias, mas eu ainda cultivo em mim a mania de defender o amor ao próximo, por mais utópico que isso pareça ser nos dias de hoje. E não me venha com o código penal brasileiro, pois, na minha opinião, não há lei no país em vigor que vá consertar quem não teve referência de valores humanos."

isso, que se dane as pessoas racionais! Só não esquece de agradecer que essas mesmas pessoas racionais te deram a medicina, a ciência, e essa qualidade de vida que você tem, se não fosse as pessoas racionais nem teria eletricidade, nem computador e nem internet pra você falar "dane-se as pessoas racionais".

PARABÉNS MESMO PELA FRASE, VOCÊ PROVOU SER UMA PESSOA ESPETACULAR. (SQN). CLAP CLAP CLAP.

 
Cyro Escobar Ribeiro Neto em 08/04/2015 11:05:20
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