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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

04/06/2015 07:34

Acidente levou meus pais e no mesmo dia sobrevivi aos oportunistas

Lado B
Kelly e o pai.Kelly e o pai.

Kelly Venturini perdeu em um golpe só o pai e a mãe, vitimas de acidente de carro. Teve de enfrentar tudo pessoalmente, da dor à burocracia que o momento exige. Não bastasse a tragédia, o dia 5 de fevereiro de 2013 também serviu para mostrar o poder predador de um ser humano. Na série "Voz da Experiência", ela conta como sobreviveu.

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Um dos motivos que me fazia trabalhar cada vez mais, buscar mais espaço, para ter melhor condição financeira, era os meus pais. Eu tenho filhos, tinha as nossas demandas, mas, eles estavam no meu planejamento, sempre.

Um telefonema, num dia comum, às 8h, e do outro lado da linha alguém me pergunta: “Dona Kelly? A senhora soube de um acidente no Buraco das Piranhas, agora pela manhã?”

Não consegui responder. Estiquei o braço e ao entregar o telefone a um amigo que participava comigo de uma reunião política disse: “Foi. Meu pai e minha mãe.”

Dai em diante, sem esperança alguma, acompanhei a movimentação dele com o telefone, andando de um lado para o outro, enquanto conversava com o policial federal. Como imagino que seja uma estratégia da policia, a primeira noticia que me foi passada ao fim da ligação foi a de que eles estariam em estado grave, num hospital em Miranda.

Antes de terminar um copo de água com açúcar, um carro já estava preparado na porta do escritório. Era fevereiro, dia 5. Parti para Miranda, e antes que o carro pegasse a BR fiz a ligação para a PRF onde seria informada que eles tinham “ido a óbito no local”.

A ligação mais dolorosa foi a que fiz em seguida, para minha irmã gêmea. Ela havia ajoelhado a beira da cama da minha mãe na noite anterior pedindo que eles não viajassem, pois meu pai andava muito cansado e eles dormiriam pouco tempo antes de partir. Sem muito cuidado soltei logo: Keyla, o pai e a mãe se arrebentaram na estrada. O que ouvi depois foram gritos e ai sim, o barulho da minha ficha caindo.

Fora o assédio da imprensa e as ligações de familiares de todo canto do País, a primeira chamada que tratava da parte pratica do assunto veio de uma amiga da família, que me orientou sobre o golpe das ‘empresas de plano funerário’. Ela explicou que eu receberia ligações de varias empresas pedindo o numero do ‘sinistro’ referente ao acidente e me orientou que não passasse por que todas medidas com a empresa que tínhamos plano já haviam sido tomadas. Soube depois que essas empresas, de posse de tal informação, conseguem registrar em qualquer lugar do País serviços que não prestaram.

No meio de toda essa tempestade de sentimentos, o curioso é que o meu coração pedia que conferisse, olhasse tudo de perto, para poder acreditar e aceitar, e por isso eu seguia firme, no meu proposito de chegar e ainda encontrá-los no local. O motorista, e hoje um dos meus melhores amigos, Junior, sabia o tamanho da missão que lhe haviam confiado e então, desacelerava, para que chegássemos depois dos carros funerários, ao local.

Ele conseguiu.

Os pais de Kelly.Os pais de Kelly.

No local do acidente, em minha direção veio um policial rodoviário que me entregou a bolsa da minha mãe, uma garrafa de café, um travesseiro, um véu e me orientou o nome do policial que eu deveria procurar na Delegacia de Corumbá. Ali começava a minha saga.

Assinei alguma coisa do guincho, conversei com o policial mais uma vez, tirei fotos do local para pericia, e no meio daquele movimento todo, encontrei a pulseira do relógio do meu pai, ali próximo. A sensação foi pior do que quando recebi a noticia.

Sem muito cuidado, eu escutava um outro policial, de longe, contando ao meu amigo Junior sobre o estado em que eles foram retirados do carro. Parecia um filme de terror, só que num dia de sol muito quente, com os meus pés descalços fritando no asfalto, sem que eu percebesse.

Segui para Corumbá, abraçada com aquela garrafa de café quebrada, o véu, a pulseira do relógio do meu pai e uns CD’s de piada que ele gostava de ouvir. Foi tudo que sobrou deles dentro do carro.

Naquela cidade, que eu tinha ido tão poucas vezes e por motivos tão bons, cheguei para procurar uma funerária e conversar com um açougueiro. Isso mesmo. A definição de açougueiro é a mais educada que encontro pra definir a falta de cuidado, de trato, de educação e de respeito que aquele ‘empresário’ do ramo da morte, teve comigo e com os corpos dos meus pais.

Ao descobrir que eu trabalhava com o hoje governador Reinaldo Azambuja, ele lutou bravamente para tentar receber por vários canais, pelos serviços funerários e de translado. A solidariedade do senador Delcidio do Amaral, e ainda do Prefeito de Corumbá, Paulo Duarte -pessoas com quem eu convivo no meio em que trabalho, nestes mais de dez anos - que viriam para ajudar, acabaram dando ainda mais gás para a investida do malandro. Para escapar do golpe, precisei permanecer muito firme.

Chorar, lamentar, falar com uma tia ou uma irmã, nem pensar. Depois de passar por hospital, delegacia, varias vezes pela empresa do açougueiro e por fim o cartório para expedição dos atestados de óbitos enfim, escoltei até a saída da cidade os dois carros funerários.

O vestido preferido todo manchado, para substituir a sandália de salto o chinelo comprado às pressas - e um pouco maior do que o meu pé - bem sujo, o coração em frangalhos, fome, sono, dor e uma descrença imensa em Deus descreviam a minha figura, ao chegar a Campo Grande, na casa dos meus pais.

Depois disso, acho que meu corpo entendeu como missão cumprida e então só me lembro do dia amanhecendo na janela do meu quarto e o meu amigo Carlinhos me chamando pra ir para o velório.

Sempre fui avessa a cerimonias de casamento e de velório. Acho que nas duas situações as pessoas que participam devem ser muito próximas da família, ter algum envolvimento. Lembro-me de ter ido a dois ou três casamentos e apenas um velório.

Desse eu não tinha como correr.

Mas devia ter corrido.

Quando dizem que a ultima imagem é a que fica, é verdade. Não queria tê-los visto naquele lugar, naquela situação. O dele fechado e o dela aberto. Abracei uma caixa de madeira dura e fria e falei várias vezes, baixinho, como se ele pudesse me ouvir: “Pai, por que fez isso comigo?” Sem resposta.

Tinha tanta gente naquele dia lamentando a falta deles e eu com o meu egoísmo só conseguia pensar na falta que eles me faziam e o quanto Deus havia sido injusto comigo.

Tocava ‘Grandioso és tu’ canção preferida dela, num violino enquanto íamos para o enterro. Que tristeza. Quanta dor.
Eu sinto tanta falta dele e tão mais dele do que dela, que cheguei, no inicio a me sentir mal por isso. Hoje, acho que minha mãe, lá de onde ela está, consegue perceber o quanto eu tinha mais apego por ele... não é mais amor, é mais apego. Ele foi sensacional e tínhamos uma sintonia incrível.

Não fico bem vendo fotos, já restabeleci meu canal com Deus, em sua plenitude, já consigo falar do assunto sem chorar mas, não esqueço um só dia. Mudei minha rotina, deixei coisas e pessoas pra trás, refiz meu caminho e hoje luto para diminuir um sentimento que eu nunca tinha experimentado com tanta profundidade, a tal de saudade.

Sobrou para mim, dias depois do acidente, ir até o local novamente, dessa vez pra deixar a cruz benzida. Observei com mais calma as marcas na árvore e fiz a triste constatação de que, num raio de trinta metros a esquerda ou a direita não havia sequer um toco, e que, apenas aquela arvore, depois de seu cochilo, fora responsável pela minha maior desgraça.

Até hoje me incomoda o fato de não ouvir minha mãe gritar: fecha a geladeira (que ficou comigo), quando ela começa a apitar, por que ficou aberta muito tempo.

Incomoda-me não ver meu pai rindo, com os olhos apertadinhos, fugindo da bronca por comprar algum produto mais barato no mercado com a desculpa de ‘experimentar’, desagradando o paladar da turma toda.

Fazem falta as conversas e o barulho no almoço de domingo. De domingo, de segunda, e da semana toda, pois morávamos todos no mesmo bairro e vivíamos aquela confusão boa, da vida de uma família de classe media, onde todos trabalham, e até dão umas briguinhas de vez em quando, mas no geral, muito se defendem e muito mais ainda se amam e se respeitam.

Já se foram mais de dois anos, com dias das mães, dos pais, aniversários, festas de fim de ano e o execrável Dia de Finados. Vou muito pouco ao cemitério. É muito doloroso. As meninas conseguem ir mais vezes, arrumar vaso de flor, porta retrato. Eu rezo pra poder voltar embora logo. É horrível estar lá.

Então é isso. Sem querer arrancar a piedade de ninguém, contei o que houve para que eu mesma possa me lembrar depois, porque tanta coisa perdeu o sabor, porque sai das redes, porque não pesco mais e porque devo viver um dia de cada vez, curtindo muito o que sobrou da minha família, por mais defeitos que cada um deles tenha.




Kelly, eu não entendi direito o golpe, a Funerária tentou superfaturar o serviço de translado? Ou esse serviço deveria ser oferecido de graça? É a polícia quem faz?
 
Laura em 04/06/2015 20:33:39
Cara Kelly.

Quando colocamos nossa dor em uma folha de papel, creio que por alguma razão inexplicável, ela se torna um pouco menos cruel; talvez seja a sensação de que a compartilhamos com alguém e por conta disso a carga fica um pouco menos pesada.
Aceito a minha própria morte sem problemas, mas na minha cabeça, talvez por um sentimento de auto defesa, minha mãe e minhas filhas são imortais...!!!
Lamento muito sua perda, e espero que o tempo suavize da dor de sua ferida.

Um abraço.
 
SeiQueNadaSei_CGRMS em 04/06/2015 09:48:15
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