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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

09/08/2015 07:56

Alguém duvida que perder o pai é uma das maiores dores da vida?

Ângela Kempfer
Ramão e a filha.Ramão e a filha.

Thaís nunca se arrependeu do que fez como filha. Apaixonada pelo pai, sempre fez questão de demonstrar carinho e admiração. Ramão morreu, hoje é uma saudade que deixou boas heranças. O sentimento da despedida ela conta agora no Voz da Experiência. 

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Eu pensei em diversas maneiras de começar a escrever sobre esse episódio da minha vida, sempre encarei com certa naturalidade a morte, é sempre doloroso claro, mas sempre evitei pensar nas mortes dos próximos .... Evitar, evitar, ah se eu pudesse evitar.

Meu pai sempre gostou de política, tinha um conhecimento como poucos, sempre ficava absorta observando ele falar a respeito. Quando eu era criança, pensava: “Nossa meu pai é o homem mais inteligente do mundo“ e hoje, aos 28 anos, continuo achando o homem mais inteligente do mundo.

E por ser apaixonada por ele, me apaixonei pela política, mas eu e meu pai sempre trilhamos caminhos diferentes, mas sempre onde eu fui, a qualquer canto eu ouvia: “Você é filha do Ramão Cabreira?“. Eu inflava o peito cheia de orgulho e dizia: Sim!

Quanto mais eu me envolvia com política, mais eu me aproximava do meu Pai, então no final de 2013, eu sabia que 2014 seria um ano difícil e eu gostaria de tê-lo ao meu lado, e eu consegui!

Conquistamos juntos uma vitória, mas no meio do caminho tinha uma pedra, e ele descobriu o problema no coração. A partir daqui, começa enfim minha triste história.

Ele fez a cirurgia, se recuperou, passou meu aniversario comigo, me ligou no Natal, eu liguei no ano novo, fomos a posse do então Governador Reinaldo Azambuja, ele viu todos os amigos, ele estava feliz, em paz!

Doze dias depois, numa segunda feira, às 6h da manhã, recebo a ligação: “Thais seu pai faleceu”. Eu fiquei em silêncio, ela desligou o telefone chorando e eu dei o telefone pra o meu marido Silvio, em silêncio. Ele ligou novamente pra ela e a reação em seguida me golpeou como um tiro. Ele me abraçou carinhosamente e disse que teríamos que ir pro hospital.

Não, eu não queria olhar pra ele na mesa de um necrotério frio e não queria olhar pra ele naquela situação, eu queria naquele momento que estivesse acordado esperando o suco de laranja que ele tinha me pedido na noite anterior.

E nesse turbilhão de coisas acontecendo meu celular toca, era minha mãe, como eu poderia dar essa notícia a ela, eu não podia, disfarcei a voz e disse que já chegaria em casa, claro que mães sempre sabem quando mentimos pra elas, e ela percebeu que havia algo errado e desligou.

Quando o carro parou, e eu entrei na minha casa, lá estava minha mãe. Eu sentei no sofá, tentando explicar o inexplicável , que difícil era aquilo, aquela sensação.

Depois do velório, quando o caixão foi para ser fechado, lembrei que um ano antes minhas primas haviam perdido o pai, naquela ocasião pensei comigo , pedi a Deus que demorasse muito pra aquilo acontecer comigo, não demorou, e um ano depois eu estava vendo ali meu pai dentro daquela caixa horrível.

A ficha caiu dez dias depois, surtei, sozinha, chorei o que não havia chorado, e eu pensava , o que eu faço sem ele?

Eu ainda me pergunto isso todos os dias, meu pai era herói, chato, ciumento, exigente, lindo, cheiroso, simpático ao extremo, ele era "O cara". Deve ser por isso que Deus quis levar ele tão cedo.

Em dias de chuva ele me dava carona, me levava pra almoçar, andava de mãos dadas comigo na rua. Quando algo bom acontecia, eu ligava pra ele, ele sempre foi a primeira pessoa a receber as noticias e dizia com aquele vozeirão: “Que bom filhota”.

Penso nele todos os dias, a ausência dói todos os dias, a vontade de ouvir a voz dele mais uma vez, e o abraço? Ahhh era o mais gostoso do mundo, eu em sentia segura ali. Ali era meu canto, tínhamos tantos planos, alguns eu vou realizar por ele.

Meu pai deixou pra mim três presentes: minha mãe, minha irmã, e não vou falar Madrasta não, ele me deixou a Zuleica. Na dor descobrimos o amor entre nós, amor que sempre esteve ali, amor este que nos deu força pra continuar. Amor que ajuda a superar.

Se não fosse o amor delas, e os meus amigos, eu não estaria pronta, se não fosse o amor essa ausência seria tão dura.

No Dia dos Pais, eu ainda não sei muito o que fazer, se vou ao cemitério levar flores, se fico sozinha. não sei. Muita coisa perdeu o sentido, outras começaram a fazer.

Tornei-me outra pessoa, melhor eu acho, não sei, mais calma, menos agressiva, mais equilibrada pode-se dizer e tudo isso porque eu tenho hoje a função de ser a irmã mais velha, de ser a referência que ainda sei que não sou.

Um conselho de quem passou por isso, se é que se pode falar de conselho, abrace seu pai, beije, diga que o ama, o quanto ele é lindo, ande de mãos dadas, faça como eu, que sempre fiz isso, e hoje não carrego culpa alguma, ou ressentimento.

Não deixe que além da saudade, da dor da ausência você tenha a dor do “e se eu tivesse dito, feito”. Fale hoje, diga hoje.

Agora sei que a dor vira saudade, lembranças boas que as vezes eu me pego sozinha lembrando e rindo do meu pai que sempre tinha uma pidadinha pra fazer de alguma situação.

Meu Pai não se foi, ele só esta do outro lado, só quem conviveu com ele sabe que tipo de ser humano ele era, e era sem duvida o melhor pai do mundo, me desculpe os outros pais, mas o meu era, e ainda é o melhor!




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