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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

18/10/2015 10:56

Aos 6 anos, Julia ensina em redação premiada a criança que todo adulto deve ser

Paula Maciulevicius
A menininha enxerga o mundo por trás dos óculos desde 1 ano de idade e talvez seja pelo vermelho ou roxo da armação que ela veja cor em tudo. (Fotos: Arquivo Pessoal)A menininha enxerga o mundo por trás dos óculos desde 1 ano de idade e talvez seja pelo vermelho ou roxo da armação que ela veja cor em tudo. (Fotos: Arquivo Pessoal)

Da escola municipal de Dourados para o maior jornal do País. Aos 6 anos, Julia Mazini dá valor aos livros, gibis e à vida de uma forma que a gente nunca deveria perder. A menininha enxerga o mundo por trás dos óculos desde 1 ano de idade e talvez seja pelo vermelho ou roxo da armação que ela veja cor em tudo. 

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Julia foi uma das vencedoras do concurso de redação Folhinha, do jornal Folha de São Paulo, com o texto "O mundo tem um monte de dificuldades, mas é bom mesmo assim", escrito no núcleo de altas habilidades do Estado, onde ela é acompanhada devido a habilidade natural com as palavras. Foram mais de 350 crianças que descreveram como enxergam a infância hoje e Júlia foi a única selecionada do Centro-Oeste. 

Por telefone que o Lado B conversa com a menininha. Quando chama, não é ela quem atende. Mas dá para imaginar que a criançada da casa da avó estava toda alvoraçada, porque o telefone foi atendido na primeira oportunidade. Na "semana do saco cheio", ela aproveitava para o feriado para ir a parques aquáticos e fazer um pic-nic com os primos. O lado da Julia criança. 

No Show de talentos da escola, Julia quis fazer uma contação de histórias do livro que mais gosta.No "Show de talentos" da escola, Julia quis fazer uma contação de histórias do livro que mais gosta.

"Eu moro em Dourados com a minha mãe, meu pai, meu irmão e o meu cachorrinho. Tenho 6 anos", se apresenta. Estudante do 2° ano, ela diz que a matéria que mais gosta é o Português e que sabe o que quer ser quando crescer desde os 3 anos. "Escritora e desenhista do Maurício de Souza e também jornalista". Da redação enviada ao concurso veio o convite para ela ser redatora do jornal. Júlia vai contribuir com quatro textos mensais sobre o que ela quiser no maior jornal do País. Pergunto se com esse currículo ela já não é jornalista?

- "Não sou não. A gente escreve bastante no Jornalismo, não é? Na verdade eu só tinha, desde então, a ideia de ser escritora, até que meu pai me falou que eu tinha vencido o tal concurso da Folha de São Paulo. Aí eu lembrei que meu pai é jornalista e ele escreve bastante e pensei que meu talento é para ser jornalista".

É impossível a gente não querer reproduzir na íntegra a entrevista. As respostas mostram uma fofura nos olhinhos de Júlia que é o que a leva a escrever de forma tão leve e simples e ao mesmo tempo com uma construção de aplaudir de pé. A ideia do concurso foi sugerida pela mãe, ela aceitou e escreveu o texto no núcleo de Altas Habilidades, em Dourados.

Pergunto daqui porque ela acha que ser criança é bom. "Tem gente que acha que é bom, tem gente que acha que é ruim, mas é muito bom só que às vezes os adultos esquecem, não sei porque..." Um dos exemplos de quem não se esqueceu de ser criança é a mãe e um amigo da família que se chama "Bruno". "Eles são bons nisso", completa a menininha.

No arquivo pessoal de fotos da família é difícil não encontrá-la com um gibi ou folheando um livro.No arquivo pessoal de fotos da família é difícil não encontrá-la com um gibi ou folheando um livro.

Mas o que seria o "esquecer"? Adulto esquece de ser o que? Criança?

-"É porque as pessoas ficam viciadas no dinheiro e no trabalho, só querem saber de dinheiro. Meu sonho é crescer com coração de criança".

E o que é crescer assim?

- "É mais ou menos assim: quando a gente cresce, mesmo sabendo que a gente está ficando adulto, mas não esquece como é ser criança. A gente ainda pensa como uma criança, mesmo com corpo de adulto".

Julia adora ler. No arquivo pessoal de fotos da família é difícil não encontrá-la com um gibi ou folheando um livro. A escritora preferida é Ruth Rocha, mas a paixão mesmo está no Maurício de Souza.

Sobre participar do concurso, Julia diz que esse foi o primeiro de "tudo", aí eu suponho que ela queria dizer o de "muitos". A garotinha fala que nunca imaginou que pudesse ganhar e quando a notícia chegou é que ela se convenceu de que tinha ficado bom o texto.

Do convite para escrever mensalmente, ela fala que ainda vai pensar no tema porque há tantas formas de escrever.

- "Eu tenho que ter um tempinho para pensar coisas assim, pensar bem o que eu vou escrever. Como que eu penso? Eu penso primeiro se vai fazer bem ou fazer mal. Depois se vai se encaixar com outras palavras, se cabe vírgula ou ponto naquele lugar. Preciso pensar se meu tema é realmente intreressante, se as outras pessoas vão gostar ou não, se alguém vai aprender alguma coisa com aquilo ou não. Ou se eu mesma vou aprender a fazer mais coisas com aquele texto que escrevi. É assim que eu penso." E eu, daqui, fico muda no telefone.

Ela não compreende ainda a proporção que os textos que saem da sua cabecinha podem tomar. "Eu já li jornal sim, não sei se já li a Folha de São Paulo, mas eu acho legal". Eu digo daqui que até o Maurício de Souza vai ler ela e ouço do outro lado um "Nooooooossa".

Julia, o pai André Mazini e o irmãozinho lendo Charlie Hebdo. Julia, o pai André Mazini e o irmãozinho lendo Charlie Hebdo.

Se Julia quer mudar o mundo escrevendo? Sim. "Porque às vezes eu escrevo um texto e eu mesma fico orgulhosa, porque todo mundo gostou do meu texto. Daí eu penso: será que isso vai fazer o bem? Será que eu vou poder ensinar alguma coisa para quem está lendo?

No final da entrevista Julia promete vir visitar a redação do Lado B e que vai tentar não esquecer quando crescer. "Vou tentar, se a gente não for se viciando em pensar sem amor no trabalho e no dinheiro, não esquece".

Ah e redação premiada foi essa aqui:

O mundo tem um monte de dificuldades, mas é bom mesmo assim


Ser criança é poder se soltar no mundo, é quando a gente mergulha no mundo do faz de conta, que é diferente para cada pessoa que entra nele.

Ser criança é a melhor coisa. Quando a gente é criança, as coisas mais importantes são brincar e estudar, mas também tem que contar com as obrigações, como, por exemplo, arrumar sua bagunça. Mesmo assim, ser criança ainda é a coisa mais legal que o mundo pode oferecer.

Também existem adultos com o coração de criança, o que quer dizer que o adulto não ficou viciado no dinheiro nem no trabalho. As crianças têm uma característica que os adultos não têm: elas costumam ver o lado bom das coisas antes do lado ruim.

As crianças são diferentes umas das outras, mas isso não as impede de brincar juntas. E, se elas não fossem diferentes, não seriam crianças, seriam robôs. Elas têm que respeitar as diferenças.

E, para mim, ser criança é pensar que, mesmo o mundo tendo um monte de dificuldades, ele é bom. E, enfim, é bom ser criança.

 

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