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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

24/07/2016 07:10

Artista abriu as portas do ateliê para índia e as duas descobriram mundos novos

Thailla Torres
O talento da mãe ceramista foi a força para o sonho de pintar em tela da indígena Nayokolate. (Foto: Alcides Neto) O talento da mãe ceramista foi a força para o sonho de pintar em tela da indígena Nayokolate. (Foto: Alcides Neto)

Artista plástica e pesquisadora de elementos indígenas, Ângela Miracema, de 49 anos, descobriu Adrielle, que desde pequena tinha vontade de pintar em tela. Após descobrir o talento e determinação da jovem, ela decidiu abrir as portas da própria casa para que a índia kadiwéu finalmente começasse a pintar. A experiência acabou apresentando às duas, mundos diferentes.

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Enquanto o ateliê tem espaço de sobra, em Adrielle sobra vontade de aprender . "Eu fiquei sabendo pelo Instituto Cultural Gilberto Luiz Alves que uma índia kadiwéu talentosa tinha um sonho. Foi em maio, quando eu soube que ela faria uma visita a Campo Grande e nesse tempo eu já pesquisava sobre os pigmentos, isso me entusiasmou mais ainda em abrir as portas para ela", diz Ângela.

O primeiro encontro, foi ao lado da mãe. "Quando nós marcamos e ela veio com a mãe até aqui, houve um empatia imediata. E isso me fez ir em busca de pesquisas sobre a cultura dela. Fui atrás de livros e tive contato com materiais interessantes sobre a aldeia, que falava sobre grafismos e artes que já vinham sendo esquecidas", descreve. 

Para Ângela, foi a oportunidade de conhecer e valorizar uma cultura tão rica. (Foto: Alcides Neto) Para Ângela, foi a oportunidade de conhecer e valorizar uma cultura tão rica. (Foto: Alcides Neto)

E não foi só o talento da menina índia que surpreendeu artista plástica. O amor e desejo de valorizar a cultura da sua terra foi o que mais emocionou Ângela. "É impressionante, eles têm arte na veia. Fui para a aldeia cuidar de uma oficina de arte para as mulheres e eu me contaminei totalmente pelo trabalho, me apaixonei pela cultura kadiwéu e hoje mudei meu trabalho", explica.

Enquanto uma aprende com a outra, é Adrielle Virgilio de Almeida, de 18 anos, que não contém a emoção. Cheia de orgulho, ela apresenta o nome artístico Nayokolate, como prefere ser chamada. 

A paixão pela arte sempre teve sentido dentro da família. A referência foi a mãe que é artesã e se dedica à cerâmica. Os grafismos que representam a etnia são fortes e inspiração para que ela não desista do sonho de levar a própria cultura para o mundo. "Minha mãe sempre viajava e eu ia com ela. Quando eu vi as telas nas casas de artesanato, eu gostava muito. Era um sonho meu fazer alguma coisa kadiwéu na tela", lembra. 

Além de pintar, o sonho da jovem é levar inspiração para a Aldeia Alves de Barros, em Bodoquena, uma das quatro que compõem a Terra Kadiwéu, com objetivo de valorizar a arte e a cultura de sua etnia. "Eu achei muito forte o dia que teve uma festa na aldeia e todo mundo disse 'olha que legal', mostrando minha arte, porque no começo ninguém acreditava", conta emocionada. 

Nayokolate chora de orgulho de ver o reconhecimento da (Foto: Alcides Neto) Nayokolate chora de orgulho de ver o reconhecimento da (Foto: Alcides Neto)

Com pigmentos de resina e argila, os grafismos representam o crescimento do povo. Quando se está em contato com a tela, a família e as lutas também viram arte."Eu me inspiro na minha mãe, nas lutas que a gente sempre passou e eu fico muito feliz, quando vejo ela e meu pai felizes. E chego na aldeia e falo do meu trabalho, porque tem muita gente que não valoriza e falo que tem que valorizar no nosso trabalho as nossas tradições, que quase se foram todas, mas eu creio que a gente pode resgatar", reforça.

O choro surge entre um comentário e outro, pela oportunidade que ela conquistou. "Eu tenho nem palavras para agradecer, porque eu sempre quis fazer isso e vejo coisas boas acontecendo na aldeia que nunca tinha acontecido", explica. 

Enquanto produz, ela divide os dias entre o ateliê e os trabalhos de volta à comunidade. Sempre ao lado da mãe, ajuda no processo de formalização da Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu, que tem como objetivo incentivar e fortalecer a arte e a cultura da etnia. 

Para a anfitriã em Campo Grande, o agradecimento também é real. "Eu sempre digo que foi ela que abriu as portas da aldeia para mim, me permitiu conhecer e aprender um pouco mais sobre uma etnia que até então eu não conhecia. Acho que essa oportunidade foi enriquecedora para os dois lados. E cada vez que eu a vejo pintar, o traço dela é impressionante. Na aldeia tem outros artistas com detalhes fortes, mas o dela não tem parecido", reforça Ângela, admirada.

As obras de Nayokolate estarão expostas pela primeira vez no Festival de Inverno de Bonito que vai acontecer de 28 a 31 de julho.  

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Nayokolate segue pintando e aguarda ansiosamente pela exposição no Festival de Inverno de Bonito. (Foto: Alcides Neto) Nayokolate segue pintando e aguarda ansiosamente pela exposição no Festival de Inverno de Bonito. (Foto: Alcides Neto)



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