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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

21/03/2016 06:23

As 6 horas mais longas da minha vida, a espera de Valentina na porta do CTI

Paula Maciulevicius
No corredor do CTI da Santa Casa, mãe vê as 24h do dia se transformarem apenas 3, quando a visita é permitida. No corredor do CTI da Santa Casa, mãe vê as 24h do dia se transformarem apenas 3, quando a visita é permitida.

Segunda-feira, dia 14 de março de 2016, 8h da manhã. O ponteiro contou 6h no relógio, mas o tempo ainda se arrasta à porta do CTI 5, no segundo andar da Santa Casa. Corredor adentro, está Valentina, de 1 ano e cinco meses, lutando no pós-operatório depois de uma cirurgia cardíaca que durou uma eternidade. Do lado de fora, a mãe Elisângela vê as 24h do dia se restringir em apenas três, durante os horários de visitas.

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Valentina nasceu com Síndrome de Down e teve de passar por cirurgia para fechar aberturas do coraçãozinho e relocar uma veia. A operação se faz necessária em 50% dos bebês com Down. É este o resumo que a mãe, Elis, prefere passar. O diagnóstico da síndrome só veio no nascimento e com 11 dias de vida, os médicos reconheceram o problema e cogitaram a cirurgia. Elis, a mãe, preferiu acreditar que com o tempo, o coraçãozinho se ajustaria ao mundo no passo do sorriso da menina. O que não aconteceu e desde novembro ela se prepara para o procedimento.

Foram dias e dias até que a vaga no CTI (Centro de Terapia Intensiva) da Santa Casa estivesse disponível para a menininha. Quando o hospital sinalizou que sim, os exames demonstraram que poderiam haver complicações não previstas até então. Foi uma semana aguardando os resultados para que Valentina chegasse ao Centro Cirúrgico.

A pequena toda sorridente, faz da luva um brinquedo. (Foto: Arquivo Pessoal)A pequena toda sorridente, faz da luva um brinquedo. (Foto: Arquivo Pessoal)

"É horrível. Você sabe que tem a necessidade de a criança fazer a cirurgia, só que existe um medo. Um medo de nada dar certo, de acontecer alguma coisa", desabafa Elisângela Lino Olivo, dona de casa, de 36 anos, mãe de três filhos, Valentina é a caçula.

Ela se derrete para falar da filha. Assume que se tratando de Valentina, é "mole" para dor e que sofre muito. O sofrimento continua mesmo depois de ver a a menina passar pelo corredor do CTI. "Foram seis horas, eu fiquei acabada. A gente fica aqui no corredor, porque quando entra, ninguém mais sai. É aqui que eles passam com ela e só quando sai mesmo que a gente fica sabendo", recorda a angústia vivia.

Ligada a aparelhos, ela viu a filha passar ligeiro, mas se tranquilizou quando a médica disse que havia corrido tudo bem. "Fiquei feliz porque tinha acabado a cirurgia, mas você vê uma criança tão pequena, com tanta aparelhagem. Você pensa como ela sofreu..."

A luta mal havia começado. Do segundo andar da cirurgia, Valentina desceu para o primeiro, onde está há uma semana. Os médicos explicaram à mãe que agora que começa a luta. "A gente luta a favor da vida deles e aí eles começam a responder. É uma cirurgia bem invasiva", explica Elis. 

Elis e Valentina. Mãe espera para pegar menina no colo novamente. (Foto: Arquivo Pessoal)Elis e Valentina. Mãe espera para pegar menina no colo novamente. (Foto: Arquivo Pessoal)

As primeiras 72h eram consideradas de risco. A mãe interpretou como se passado este período, Valentina pudesse ir para o quarto, o que não há previsão. Sem poder pegar a filha no colo, Elis vê a menina nas visitas, às 10h, 16h e 20h, entre máquinas, drenos e aparelhos.

"São altos e baixos, tem dia que saio daqui sorrindo. Outros, chorando. Você chega em casa e não pode levar eles. Eles ficam lá e é uma sensação muito ruim para a mãe, um choque ver a criança toda entubada", descreve não só o seu sentimento, como de todas as mães de CTI.

Não fomos autorizados a fotografar Elis junto de Valentina no CTI e mesmo se fossemos, a cena não é o que a mãe deseja ver registrada.

Valentina só foi sorrir para Elis na sexta-feira que passou. A mãe explica que por vezes as crianças interpretam a hospitalização como "rejeição".

"Ela não olha pra gente. Ignora, como se a gente tivesse deixado ela ali, faz biquinho, cara de choro. Hoje foi a primeira vez que ela me olhou e deu um sorrisinho, ela levanta o corpinho, quer colo e a gente não pode pegar", conta.

O coração fica partido e Elis repete as lágrimas que tanto rolam o rosto nos últimos dias.

Cantinho da filha. (Foto: Arquivo Pessoal)Cantinho da filha. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Eu saio daqui aos prantos, é horrível porque a sensação que eu tenho é que o dia que tem 24h, acaba tendo 3h e isso é muito pouco. Eu chego em casa e onde olho, tem as coisas dela". Quando está no hospital, a mãe também acaba sendo retirada do CTI para que os profissionais possam fazer atendimentos nas crianças, às vezes, nem chega a ser nada além da troca de fralda, mas o coração também fica na mão.

Para se distrair e ver se o tempo passa mais rápido, na casa da família, no bairro Amambaí, a mãe resolveu remodelar o quarto da menina. As paredes começaram a ganhar cor e detalhes feitos a mão. "Pintei de branco e como ela vai ficar uns dias sem sair para fora, fiz uma árvore com sol, nuvens e passarinhos, porque eu sempre levava ela para ver os passarinhos", narra.

Ao nascer, Valentina veio para mostrar novos ares à mãe e fazer com que Elis desse valor às pequenas coisas, como ela mesma descreve. "Eu nunca fiquei olhando meus outros filhos dormirem, ela eu fico. Fico para ver se a linguinha está no céu da boca, que o Down não fica, fica para fora. Quando está dentro, eu comemoro. É uma vitória e significa que ela está dormindo corretamente", exemplifica.

Elis respira fundo ao contabilizar que para estar aliviada, serão pelo menos mais três meses. "Aí sim, eu estarei tranquila, quando ela estiver dormindo de lado e não de barriguinha para cima, quando ela voltar à vida normal dela, aí sim eu vou conseguir respirar, quando ela estiver dormindo em casa com a linguinha no céu da boca. Para algumas pessoas isso pode não ser nada, para mim, é tudo".

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Árvore e os pássaros de Valentina, no quarto de casa, à espera da alta da menina. (Foto: Arquivo Pessoal)Árvore e os pássaros de Valentina, no quarto de casa, à espera da alta da menina. (Foto: Arquivo Pessoal)



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