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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

12/12/2015 07:23

Autonomia de Dan foi coroada por ele mesmo, quando down assinou o passaporte

Paula Maciulevicius
Nas mãos da mãe, passaporte de Dan assinado por ele mesmo. (Foto: Gerson Walber)Nas mãos da mãe, passaporte de Dan assinado por ele mesmo. (Foto: Gerson Walber)

Daniel Leite Goulart. Escrito em letra de forma, Dan, como é conhecido entre os amigos e família, seguiu a ordem certinha das riscas para concluir o nome. Era a responsabilidade de assinar a própria autonomia. Daniel tem síndrome de down, 13 anos, um sorriso que desarma qualquer preconceito e o sonho de que o primeiro carimbo seja de uma viagem para a Disney.

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O documento para viajar foi tirado em 2014 quando então ele tinha 12 anos e a família planejava ir à Espanha visitar uma tia. "Foi aquele dia que a minha mãe foi naquele lugar", conta Dan sobre a ida dele à Polícia Federal expedir o passaporte. O carimbo ainda não saiu, eles decidiram que a viagem poderia esperar um pouco, mas de antemão, se precisarem, toda documentação já está feita. 

Dan é filho de uma velha conhecida da TV, jornalista Waléria Leite. A importância da assinatura é descrita por ela mesma. À época, o filho estava aprendendo a escrever. "Eu falava Dan você treina, ele pegou a folha e treinava. Vai ser o meu orgulho você assinar seu passaporte sem eu ter que colocar como analfabeto". Em resposta, ouviu do adolescente que ela poderia ficar tranquila, que quando chegasse o dia, "estaria fera". 

Garoto treinou muito em casa e fez bonito no documento. (Foto: Gerson Walber)Garoto treinou muito em casa e fez bonito no documento. (Foto: Gerson Walber)

"E ele foi lá e assinou direitinho, não errou nada. Ele trocava as letras antes, mas lá ele respirou e falou para o moço: 'calma, calma, que vai dar certo, não se preocupa que eu já treinei bastante em casa", repete Waléria. O nome dele na letrinha infantil, foi motivo de orgulho para a mãe.

"Você é meu orgulho Dan, ele falava: você dizia que eu não ia conseguir, eu respondi que claro que você consegue tudo o que quiser. É o que eu sempre falo para ele: Dan, você vai conseguir tudo o que você quiser".

Daniel terminou o 6° ano B numa escola da rede municipal e passou para o 7°. Entre as matérias preferidas, claro que estão História, Matemática e Educação Física. Sobre a última disciplina, ele diz que o que mais gosta é de "brincar". A turma deve ter em média 25 alunos e ele conta que tem mais menina que menino.

A mãe o transferiu de escola porque o Município tem tutor, que fica do lado dele o ajudando a focar nas aulas. Independência e autonomia? Daniel tem de sobra. "Ele faz tudo, até o que não pode", alfineta aos risos a mãe. "Não que ele não consiga fazer, mas o tutor ajuda muito", completa.

Dan coleciona histórias engraçadas e que a mãe sempre repercute para mostrar que "de bobo, o down não tem é nada". Certa vez a escola pediu para que todos os alunos fossem de tênis, porque dali seguiriam para um passeio. Daniel calçou sandálias mesmo sabendo da obrigatoriedade. "A supervisora foi ver a turma, perguntou se estava todo mundo de tênis, ele e todos responderam que sim. De repente ela vê ele com os pés dentro da mochila..."

Dan exibindo as várias medalhas dos jogos olímpicos da rede municipal de ensino. (Foto: Gerson Walber)Dan exibindo as várias medalhas dos jogos olímpicos da rede municipal de ensino. (Foto: Gerson Walber)

O garoto confirma a história. "É verdade, eu escondi na mochila".

Waléria recebeu a notícia da síndrome do filho da pior maneira possível. Foi acordada pelo médico, voltando da anestesia. "Tem uma história que fala que existe um luto quando você descobre e para mim, foi horrível. O médico me balançava, eu meio tonta e ele disse: olha seu filho tem síndrome de down, não sei se ele vai andar. Meu Deus, eu pirei, foram 40 dias em que eu chorei, fiquei muito mal", lembra.

Mas o próprio Dan, desde o peito, pôs por água abaixo a "avaliação" médica. Ele mamou assim que nasceu, coisa que Waléria descobriu depois que o down não faz. "Aí fui entender o que era a síndrome de down, eu não tinha a mínima ideia", diz. O que vinha à cabeça era a irmã dela, nascida com paralisia infantil, que nunca andou e nem falou. "Eu pensava: será que meu filho vai ser igual? Depois que fui ler, estudar e ver que ele poderia ser uma criança totalmente normal, que é o caso do Dan hoje".

A forma como Waléria escolheu criar Daniel foi a mais natural possível. E a gente percebe o reflexo disso nele. Desde pequeno Dan chegava sendo o centro das atenções, não pela síndrome, mas pelo desprendimento, pela simpatia. Cumprimentava todos da redação, brincava, usava o computador. Era uma criança normal, que cresceu sem que fosse imposto a ele qualquer limitação.

"Nunca fiz diferença entre o Daniel e a Sofia [irmã 1 ano mais nova que ele] em nada, em nada. Os dois foram criados da mesma forma, engatinhando no chão. Se eu precisava viajar, os dois iam grudados em mim", narra. Preconceito ela também conta que a família nunca viveu. "Eu sempre fui muito resolvida em relação a isso, já perguntei pro Dan: alguém já fez bullying com você?" O menino responde "não, ninguém". E a mãe segue com a orientação sempre passada: "se alguém fizer, você enfrenta. Não quero ninguém rindo da sua cara, você é homem o suficiente para levar uma vida normal", frisa a mãe.

Waléria conta que sempre explicou para o filho o que era o down. Dan, sabe de cor: "down é uma pessoa linda e gente fina".

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Waléria Leite escolheu criar o filho sem nenhuma diferença, mostrando que ele é capaz de tudo. (Foto: Gerson Walber)Waléria Leite escolheu criar o filho sem nenhuma diferença, mostrando que ele é capaz de tudo. (Foto: Gerson Walber)

Na escola, entre os amigos, a adaptação e a inclusão sempre foram naturais. Em parte, porque a mãe é figura conhecida da TV. "E talvez eu tenha sido iluminada, porque fui para os lugares certos. Eu vejo histórias de pessoas que passam por dramas horríveis", compara a mãe. Mas não é só pelo rosto conhecido, porque Waléria e Dan já se mudaram de Campo Grande para o Rio e também Florianópolis.

Falando nisso, o menino adora praia e diz que está com saudades. As férias são quase sempre em Paraty, cidade onde a avó paterna tem uma pousada. "Linda e cheia de praias", explica Dan sobre a cidade.

O adolescente já está na fase das paqueras e esses dias até disse que tinha "feito a merda da vida dele", quando a mãe foi buscá-lo na escola. Ele escreveu um bilhete dizendo que amava uma colega, mas acrescentou, que ela tinha uma "bunda gostosa". A mãe explicou que isso não deveria se escrever quando se pede alguém em namoro e sim falar depois, numa intimidade.

Ele escreveu outro bilhete, ocultou essa parte, mas colocou de novo na escola. A cartinha chegou às mãos dela, que foi chorar no banheiro. "Claro, eu disse que isso não é coisa que se fale para mulher", brincou Waléria. Vaidoso, Dan que escolhe as próprias roupas, sempre troca antes de sair de casa, escova os dentes, toma banho e faz tudo sozinho. A única coisa que a mãe precisa pegar no pé é em relação às tarefas.

O medo do futuro, ela afirma que o que sente na verdade é preocupação. "Da autonomia dele, a gente não sabe como vai ser. Se o Dan vai trabalhar, vai conseguir fazer algo que ele goste. Eu quero que ele seja feliz, mas me preocupo com a questão de dinheiro, de ele conseguir se sustentar", diz. "Futuro mesmo é sempre tão incerto", completa.

A autonomia de Dan foi coroada por ele mesmo, na assinatura do passaporte, que encheu a mãe de orgulho por ele ter encarado a primeira responsabilidade. "Eu sabia que ele sabia escrever, mas ele ainda não tinha se dado essa responsabilidade, de fazer uma coisa que fosse importante. Eu joguei essa responsabilidade, ele puxou para ele e fez. Eu quase morri de orgulho".

Sobre viajar carimbar o documento, sozinho, Waléria descarta a possibilidade. Não por ele ser down, mas por ser filho. "A chance? Nenhuma, sem mim? Não vai viajar nunca, não vai. Você vai ficar colado em mim o resto da vida", brinca ela. O menino responde que não "e que por isso ela tem que ficar feliz. Você é mãe e eu sou filho", termina Dan.

A autonomia de Dan foi coroada por ele mesmo, na assinatura do passaporte, que encheu a mãe de orgulho. (Foto: Gerson Walber)A autonomia de Dan foi coroada por ele mesmo, na assinatura do passaporte, que encheu a mãe de orgulho. (Foto: Gerson Walber)



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