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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

23/11/2016 08:45

Bar é o que mantém dona Carmem viva em dias de saudade do filho que partiu

Thailla Torres
Sorriso surge quando lembra que é figura importe no bairro. (Foto: Alcides Neto)Sorriso surge quando lembra que é figura importe no bairro. (Foto: Alcides Neto)

Todo dia, Dona Carmem senta na frente de casa, olha o movimento da rua, com o olhar distante... como quem espera a chegada de alguém. A casa dela é o bar, na Rua Rui Barbosa, no São Francisco, de portas abertas há 53 anos. 

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O lugar ficou conhecido e famoso pelas apresentações semanais de chamamé ao vivo, algo que dona Carmem sempre fez questão de manter. O estilo é a paixão musical dela.

Foi assim durante muitos anos, até uma tristeza profunda tirar o sorriso e trazer a saudade para perto de dona Carmem. Depois que o filho caçula faleceu, muita coisa mudou. Hoje, ela senta na frente do bar a espera do sorriso que ele jamais vai esquecer.

Choro é de saudade do filho caçula e do tempo que o bar vivia cheio. (Foto: Alcides Neto)Choro é de saudade do filho caçula e do tempo que o bar vivia cheio. (Foto: Alcides Neto)

No primeiro contato, Carmem Fialho Corgo, de 76 anos, não contém as lágrimas. Sem conseguir explicar o motivo, é a neta que faz companhia e se dispõe a contar o um pouco da história. "Ela fica triste assim sempre. É saudade, toda vez que lembra do passado", diz a neta Daniele de Menezes Fialho, de 26 anos.

Só depois de limpar os olhos, mas com a voz rouca e falando baixinho, dona Carmem consegue falar. Ela nasceu em Campo Grande e se casou aos 14 anos. Diz que chegou na região em 1963, acompanhada do marido Eráclito Fialho, depois de deixar a vida na fazenda para recomeçar. "Aqui não tinha nada, era só terra e mato", lembra.

A casa e o bar onde vive ganharam forma por invenção do marido, mas foi ela, quem sempre se dedicou ao trabalho por ali. "Foi ele que inventou isso daqui, mas trabalhava fora, eu cozinhava e servia os clientes", conta.

Entre uma lembrança e outra, surge o silêncio e o choro, toda vez que lembra do bar que já foi palco de muita alegria. "Isso aqui vivia cheio, muito amigos, vizinhos que hoje nem frequentam mais e todo mundo que era público do chamamé na época", conta a neta.

"Ela conta pra gente que vendeu 14 vacas na época, naquele tempo valia muito e ela comprou com meu avô esse terreno aqui. Construíram a casa e na frente decidiram fazer o bar", acrescenta.

Nas prateleiras, ainda estão as mesmas decorações. (Foto: Alcides Neto)Nas prateleiras, ainda estão as mesmas decorações. (Foto: Alcides Neto)
Máquina de costura ainda usada por dona Carmem. (Foto: Alcides Neto)Máquina de costura ainda usada por dona Carmem. (Foto: Alcides Neto)

Dona Carmem lembra das figuras que já passaram pelo bar, entre elas, a cantora Delinha. "Ela já cantou e dançou aqui também", diz.

O marido partiu há 25 anos, depois de um infarto. Dele ficou o orgulho, pela dedicação e educação repassadas aos filhos. "Era bravo, muito bravo. Mas ele educou todos os nossos filhos. Ninguém aprendeu a roubar e mentir", se orgulha. 

Depois de viúva, Carmem tocou sozinha o estabelecimento, mas nos últimos anos o movimento foi caindo, segundo ela, por conta da idade. "Ela acha que depois que ficou velha ninguém mais gosta dela e ninguém quer saber daqui. Mas é que a geração que frequentava aqui também envelheceu, mas ela sabe disso", fala Daniele. 

O motivo de tantas lágrimas, que até tiram a vontade de falar da dona Carmem, tem sentido na saudade enorme do filho caçula que morreu há 5 anos, também de problemas cardíacos, como o pai.

Dona Carmem não consegue nem descrever a última vez que o viu. É Daniele que lembra como se fosse hoje. "Foi assim de repente, ele morreu de infarto, igual a todo mundo que morre na família. Ele só disse que ia viajar e voltava. Até hoje não voltou. Essa é maior tristeza dela, quando ele morreu, ela sentava todo dia aí na frente esperando ele voltar", conta pausadamente, como quem também segura o choro.

Dona Carmem tocando ao lado do marido no bar. (Foto: Arquivo Pessoal)Dona Carmem tocando ao lado do marido no bar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Por isso, todo dia a cena se repete. Aos 76 anos, e com dificuldades para andar por conta de um problema no joelho, Carmem levanta e abre as portas de madeira até hoje sem fachada. O cansaço não a deixa mais ir para cozinha. Antigamente, sucesso era o pastel frito. Hoje, a única coisa que vende é cerveja, refrigerante e alguns doces.

Nem é preciso ouvir muito para entender que em cada cantinho do bar, tem um pouco da Dona Carmem. Na prateleira, flores artificiais e a imagem de Nossa Senhora Aparecida revelam a crença. Ali, ela diz que reza todos os dias. "Pela minha família", afirma. 

Quando está disposta, usa a máquina de costura antiga que fica ao lado da caixa de som. "Costuro meus tapetes de retalho", mostra. 

O violão, o som e os fios ficam sempre à mostra, prontos para serem usados na esperança de ver algum músico chegar. "Ela também tocava, dançava e hoje não consegue mais. Antes tinha muita festa aqui. Mas hoje não dá pra fazer barulho depois das oito da noite", diz a neta.

Mãe de 5 filhos e avó de vinte, Carmem mora nos fundos com uma filha, o genro, a neta e os bisnetos. O lugar não gera mais lucro e a única motivação é o amor. "Não vendo e nem alugo, as pessoas estragam", afirma Carmem.

A neta acrescenta que o lugar é a força que resta em Carmem. "Isso daqui é por amor mesmo e teimosia. Não adianta a gente falar com ela. Todo dia ela anda por aqui, as vezes ela cai e não fala nada. Mas ela não larga e a gente entende. Isso daqui é o que deixa ela viva, mesmo sem movimento", diz Daniele.

Durante a semana, o lugar abre às 7h e aos sábados, às vezes, tem chamamé com a presença de vizinhos antigos. É aí que ela faz o convite "Vem sábado sorrir", deixando um sorriso que mostra o quanto dona Carmem é encantadora.

O Bar da Carmem fica na Rua Rui Barbosa, 4488, no bairro São Francisco.

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Bar fica na Rui Barbosa, 4488 e abre todos os dias. (Foto: Alcides Neto) Bar fica na Rui Barbosa, 4488 e abre todos os dias. (Foto: Alcides Neto)



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