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Campo Grande, Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

09/01/2017 06:25

Bêbado, vadio ou canalha, mas você nunca vai saber o que é o blues

Richie Beauvais
Bêbado, vadio ou canalha, mas você nunca vai saber o que é o blues

O saudoso ‘blues man’ Renato Fernandes foi preciso ao escrever e cantar que era um “bêbado, vadio e canalha”. Eu por minha vez sentia sinceramente estar contemplado. Era um estilo de vida que eu - apesar de não me enquadrar de todo - acreditei ser o que seria bom para mim. Espero que não me entendam mal. De certa maneira estes três adjetivos não pareciam estigmatizar o falecido “Renatão”, afinal “ele era o Blues”¹, eu não.

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Este ano completei três décadas e, pouco antes do meu aniversário, entrei para uma “Comunidade Terapêutica” para tratamento de minha dependência química, ou como decidi chamar: “um período sabático em busca do autoconhecimento”. Apesar das aspas, é nisso que se baseou este período.

Então porque as aspas?

Porque, e por óbvio, é um eufemismo chamar um tratamento de “período sabático”. Entrar em contato com o meu “Eu” e confrontar meus paradigmas foi uma tarefa hercúlea. Em segundo porque uma Comunidade Terapêutica, ou simplesmente C.T.,é como a “Sociedade Alternativa” do Raul Seixas, só que ao contrário...

“Não faça tudo o que tu queres, pois não é tudo da Lei!”.

O “lance” é não fazer o que se quer, ou seja, não fazer as suas próprias vontades. Logo eu que adoro as minhas vontades descobri que é nelas que reside uma das principais características da dependência.

Você pode dizer: “É óbvio! Se você tem vontade de usar drogas isso é um problema”. Não é tão simples. Não é só a vontade de “usar” – incluindo beber, afinal álcool é uma droga e das piores. Minhas vontades como um todo são autodestrutivas!

Você deve estar me questionando: “Mas Richie, isso não é um exagero?”. Aprendi a duras penas que não! Mesmo a melhor das minhas intenções pode ser uma tremenda “pegadinha” da minha doença, que é sutil e sagaz!

Para deixar de lado os adjetivos de “bêbado, vadio e canalha”, entre outros do gênero, que transformei em meus por adesão estilística, foi preciso, primeiramente, entender o porquê eu os quis. Foi preciso me pautar, como dizemos no jornalismo. Fiz um rol de meus defeitos e falhas, admiti meu ego amedrontado, meu superego disfuncional e meu id totalmente impulsivo, que agia sem freio algum.

Por paradoxal que seja esta afirmação, o objetivo destes últimos meses acabou por não ser o tratamento para dependência. Longe disso. A abstinência compulsória tratou disso em grande medida. “Ficar sem usar é fácil. É só soltar o cara no meio do deserto que ele não usa. Difícil é ele ter o desejo de parar e render-se para mudar sua maneira de viver”, ouvi logo nos primeiros dias de C.T.

O pior foi descobrir que a dependência química é progressiva, incurável e fatal. Trocando em miúdos, é uma doença crônica, então o tratamento é apenas para “freá-la”.

Foi preciso admitir, como disse no início deste texto que eu não era o Renato Fernandes, e com isso admitir que a música dele que realmente cabia a mim era outra: “Você nunca vai saber o que é o Blues!”.

Aguardo contribuições e até mais!

¹Para quem não conhece a história e a importância do bluesman Renato Fernandes recomento o documentário “Ele é o Blues”, dos jornalistas Vinícius Bazenga e Kleomar Carneiro. Recomendo também a excelente matéria escrita na ocasião de sua passagem do plano terrestre, “A chuva chorou seu último blues”, escrita aqui para o Lado B.

*Richie Beauvais - ou “Ritch Bové” como costuma ser chamado após tentar corrigir a pronúncia do seu sobrenome – é um pseudônimo ou um alterego (!). Tem 30 anos, é jornalista, pai e após “um período sabático de autoconhecimento” em uma Comunidade Terapêutica para tratamento de sua dependência química decidiu escrever sobre o assunto. É “viciado” em música, revistas em quadrinhos, séries, filmes e Carnaval. Escreve semanalmente na coluna “Fim de Carreira” sobre dependência química e assuntos correlatos (ou não).

 




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