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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

09/07/2015 06:56

Cabeleireiro e maquiador anunciou que o RJ estava em Naviraí e caiu do cavalo

Paula Maciulevicius
Henrique é cabeleireiro e maquiador, nasceu aqui e hoje roda o País com cursos de automaquiagem. (Foto: Divulgação)Henrique é cabeleireiro e maquiador, nasceu aqui e hoje roda o País com cursos de automaquiagem. (Foto: Divulgação)

O aprendizado de uma vida se passou em seis meses. Do Rio de Janeiro, entre 2012 e 2013, o cabeleireiro e maquiador Henrique Foizzer e o companheiro Rodrigo Iezze, chegaram à cidade de Naviraí se vendendo como os melhores profissionais da beleza. Sem plano B, eles já tinham caído em um golpe de venda de carro e tentavam sair da cilada que entraram para abrir um negócio no estado vizinho, do Mato Grosso. A ideia do marketing era conquistar a clientela da elite. Não foi bem isso que aconteceu, mas a lição de vida que eles tiraram é digna de um registro.

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Rodrigo Iezze, de 28 anos, é publicitário e sócio de Henrique, no Instituto Foizzer. Ele cabeleireiro e maquiador, também tem 28 anos, é nascido aqui, mas roda o País levando cursos de automaquiagem. Os dois se conheceram num salão de beleza no Rio de Janeiro e tiveram a ideia de largar tudo e começar uma vida nova. "Bem ou mal a gente tinha uma profissão. Nos desfizemos de tudo o que você possa imaginar", recorda Rodrigo.

A ideia era montar um negócio próprio na Europa, um atendimento delivery de cabelo e maquiagem numa van. Ao tentar vender o carro e inteirar o dinheiro da aventura, Rodrigo descobriu que tinha caído num golpe. Depois de pagar pelo Celta 2008 à vista, a concessionária não quitou as parcelas e o veículo tinha todo financiamento em aberto.

Foram dois meses tentando reaver o dinheiro do negócio e morando de favor na casa de amigos. A dupla já tinha desfeito do apartamento e colocado o essencial em duas mochilas. Numa conversa com uma amiga, aceitaram o convite para abrir com ela, de sociedade, o mesmo comércio em Cuiabá. E é aí que Naviraí entra na história. Cidade onde mora a família de Henrique, os dois passaram por lá no trajeto do Rio até Mato Grosso. Já fazia dois anos que o cabeleireiro e maquiador não via a mãe.

Em Naviraí, eles chegaram só de passagem, para dormir, comer, matar as saudades e ir embora. "Resolvemos ligar para essa amiga e dar uma satisfação, de que estávamos saindo tal hora. Aí ela disse que quem ia financiar o trabalho, não estava mais certo e que chegando lá, a gente ia conversar", conta o publicitário. "A gente tinha só R$ 90,00 e um tanque cheio. Entre uma cidade que não tem nada e nem ninguém, a gente escolheu ficar em Naviraí, pelo menos lá tinha a mãe do Henrique", completa Rodrigo. 

Ao fundo, o sócio e companheiro na aventura por Naviraí, Rodrigo. (Foto: Divulgação)Ao fundo, o sócio e companheiro na aventura por Naviraí, Rodrigo. (Foto: Divulgação)
Rodrigo, companheiro de vida e das aventuras de Henrique, a mãe Mariley Lopes e ele. (Foto: Divulgação)Rodrigo, companheiro de vida e das aventuras de Henrique, a mãe Mariley Lopes e ele. (Foto: Divulgação)

O acordo foi de passarem ainda uma semana hospedados na casa da mãe até que eles pudessem providenciar moradia e móveis. "Não tinha um plano B. Não dava para voltar, não dava para seguir. A gente tinha que pensar numa forma de ficar. Eu sentei no computador e fiz um panfletinho em A4, imprimimos e cortamos em casa em quatro, dizia assim: 'O Rio de Janeiro chegou em Naviraí, os maiores profissionais da beleza estão aqui e ainda melhor, vão até a sua casa'", descrevem. 

De roupa social, apresentáveis como quem trabalha numa multinacional, eles distribuíram o folheto na cidade inteira. E de quebra ganharam uma entrevista na rádio local. "Era um serviço muito exclusivo. A gente dizia que estava vindo para abalar, que estávamos fazendo um giro em todo interior do Brasil", relatam os dois.

A primeira ligação, 10 minutos depois do anúncio na rádio foi de dona Tereza. "Ela dizia 'mas vocês vêm mesmo na casa das pessoas? E dissemos que sim, em toda Naviraí. Pegamos endereço e era na periferia, a hora que a gente chegou lá, a casa devia ter 16 metros quadrados, dois cômodos só. E de madeira. Ela dizia 'não repara não, eu estou emocionada e espera aí, eu fiz um bolo para vocês".

Nessa etapa, os dois se olharam pensando se no interior, se pagava o serviço com bolo. O pedido da cliente era para tirar um resto de tinta vermelha do cabelo. Ela nem sequer questionou o orçamento, ainda chamou a filha e as netas para fazerem cabelo também. "A gente ficou até 9h da noite lá. Voltamos para casa dirigindo, o Henrique me disse 'eu ia passar por uma experiência dessa, tão intensa de carinho, de acolhimento por um desconhecido, fora daqui? E eu choquei. Eu sou de cidade grande, e ela numa coisa tão simples, foi de uma delicadeza e numa situação que de repente para os outros pode ser desprezível, ela enxergava uma possibilidade de felicidade. Começamos a chorar: para onde a gente está indo? Nos perguntamos". 

Um dos cursos ministrados ainda em Naviraí. (Foto: Divulgação)Um dos cursos ministrados ainda em Naviraí. (Foto: Divulgação)

Dona Tereza animou tanto a dupla que eles chegaram até a ofertar o serviço num preço mais barato. Depois de passada a uma semana, eles se mudaram e ao comprar o mobiliário, numa loja de segunda mão, eles se surpreenderam mais uma vez. Um rapaz entrou todo sujo do trabalho de obra pedindo para que comprassem o jogo de sofá dele. Era o que ele tinha na casa para vender e pagar a conta de luz. 

Durante vários dias eles se encontraram coincidentemente com o auxiliar de pedreiro que tinha uma história incrível. Aos 20 anos ele tinha se apaixonado por uma prostituta, a tirado das ruas e a levado com os três filhos para dentro de casa. Eles presentearam a família com cortes de cabelo e viram nascer uma grande amizade. Com os novos amigos, a dupla comemorou a felicidade da contratação do pedreiro para o trabalho em uma usina e ajudou no enxoval do bebê que estava para nascer. "Isso tudo abalou muito a gente, era algo tão pequeno que a gente começou a ponderar isso na nossa vida. Quantas coisas tão importantes como essa passaram e nós não vimos? Foi um momento de estágio na nossa vida", recordam.

O problema dos dois começou, dois meses depois do sucesso das ligações, com a concorrência. A cidade era pequena e as pessoas estavam acostumadas a cortar o cabelo e arrumar no salão do fulano. Foi então que eles viram que cada ideia tida, era copiada no dia seguinte.

"Nossa intenção era criar um produto que eles não pudessem reproduzir. O que a gente reparava? As pessoas se arrumavam para ficar na praça. Não tinha outra coisa para fazer na cidade. Foi então que a gente pensou num curso para ensinar elas próprias a se maquiarem". 

A surpresa foi o sucesso do curso. Nem tanto em recorde de público, mas em quem esteve presente. A funcionária que trabalhava como chapeira no trailer onde eles comiam, que ninguém nunca tinha visto usando um batom, apareceu.

"Ela não fez nenhuma pergunta. Acabou a aula, agradeceu e foi embora. Quando a gente foi ao trailer e ela virou... Ela estava toda maquiada. A gente começou a chorar, foi algo muito próximo, aí vimos que esse negócio deu certo. Ela não tinha quase nada de produto, mas mesmo assim tentou reproduzir o que tinha aprendido. Aquilo mudou significativamente o dia, ela sorriu. Coisa que nunca tinha feito e a gente nunca tinha visto, tão de perto, o que a maquiagem era capaz de fazer de uma mulher". 

Depois da madrugada inteira pensando e refletindo, o contrato de seis meses de aluguel venceria na semana seguinte. Eles perceberam que ao invés de assinar prolongando a estadia, era hora de entregar a chave. Henrique e Rodrigo vieram para Campo Grande, foram para São Paulo e na capital paulista eles estão instalados desde 2014, de vez, com casa e lugar fixo. Ao invés de arrumar e maquiar, eles passaram a ensinar as mulheres a se produzirem. O pequeno curso de automaquiagem resulta hoje numa escola que atende todo País. 

"A gente se dedica a ensinar as pessoas a se maquiar de verdade. A realçar a beleza que sempre esteve ali e é mágico você conseguir extrair isso. "Eu vou falar para você, eu sinto vontade de chorar. Esses seis meses eu descobri que eu não sabia nada da vida. Foi ali, no contato com as pessoas que eu vivi uma oportunidade que eu não teria de viver em outro lugar. Aprendi a colocar o lado humano na frente das pessoas", as palavras saem da boca de Rodrigo, mas é a reflexão dos dois. 

"A gente só começou a ganhar dinheiro a hora que parou de querer ganhar dinheiro, aí que aprendemos o sentido da família, da felicidade. E que não são problemas que vão destruir seu dia, a falta de dinheiro que vai tirar a sua alegria. Estar bem é uma prática, uma escolha. Ficar desesperado é uma opção sua, nossa vida é uma superação constante", diz Rodrigo.

O companheiro resume que a grande magia da história está, acima de tudo, na união entre os dois. "Foi a parceria, a cumplicidade, a família que montamos que superou as dificuldades", define Henrique. E a mãe também foi peça fundamental. "A figura dela estava sempre lá, quando a nossa bola estava mais baixa", agradece Henrique.

Essa foi a história que o casal contou ao Lado B, de gratidão ao Estado e principalmente à dona Tereza, de Naviraí.

O que Henrique leva para o pincel é o aprendizado da vida vivida em Naviraí. (Foto: Divulgação)O que Henrique leva para o pincel é o aprendizado da vida vivida em Naviraí. (Foto: Divulgação)



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