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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

16/07/2016 07:05

Carta de presa chega ao Vaticano e Papa Francisco manda recado de fé

Paula Maciulevicius
Abraço do Papa Francisco sendo entregue pelo padre Hernanni, que levou carta da presa até o Vaticano. (Foto: Agepen)Abraço do Papa Francisco sendo entregue pelo padre Hernanni, que levou carta da presa até o Vaticano. (Foto: Agepen)

Quando Lara escreveu a própria história na folha em branco, nunca imaginou que a carta chegaria tão longe e seria lida pelo Papa Francisco. Presa desde maio do ano passado, por tráfico de drogas, a prisão, o nascimento do filho e o medo da partida dele, foi o que a mãe resumiu no papel, entregue ao papa em mãos, mês passado, pelo padre Hernanni Pereira da Silva, da Igreja Santo Afonso. 

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Lara Bruna Aparecida Beraldo tem 29 anos de idade. Fora do Presídio Feminino Irmã Irma Zorzi, é estudante e estava fazendo curso de cabeleireiro. Dentro, viveu as dores do parto de Arthur Miguel, a quem chama carinhosamente de Arthurzinho e só viu o mundo lá fora quando foi levada às pressas, para a Santa Casa.

Presa no sétimo mês de gestação, Arthurzinho nasceu antes do previsto e a mãe explica que foi a pressão de estar ali. Embora já tivesse ficado presa, em Goiás, a cena aqui era outra. "A boqueta da cela aqui é menor, eram 18 camas e no chão, várias mulheres. Nunca vi também tanta grávida", conta. 

Depois de cumprir a pena, também por tráfico, em Goiás, Lara veio junto do marido e dos dois filhos, para Mato Grosso do Sul tentar uma vida diferente. A gravidez de Arthur foi, inclusive planejada. "A prisão não foi um flagrante, eu já fiz coisa errada sim e estou arrependida. Só que dessa vez eu não estava, era o meu marido, mas eu não podia entregar ele para a Polícia", diz.

Ela então foi levada o presídio e em seguida, o marido também foi preso. Sobre o fato de não entregar o marido, ela reforça que "não se entrega família para a Polícia" e justifica que ele é bom pai e esposo, só envolvido com "coisa errada".

Presa no sétimo mês de gestação, Arthurzinho nasceu e viveu quase 1 ano entre grades. (Foto: Agepen)Presa no sétimo mês de gestação, Arthurzinho nasceu e viveu quase 1 ano entre grades. (Foto: Agepen)

Durante quase 1 ano, Arthurzinho ficou no presídio com a mãe, até a avó buscá-lo. "Quando meu neném estava aqui, vinha a Pastoral da Criança. Um dia chegaram dizendo que o padre ia até o Papa e se nós não queríamos escrever, que ele ia entregar a carta", conta Lara. A mãe já vivia no peito a angústia dos dias.

Por lei, a criança ficaria até seis meses no presídio, junto de Lara. Arthurzinho ficou um pouco mais. "Escrevi que meu neném ia embora, ele era muito pequenininho e contei minha vida todinha, mas nunca achei que a carta ia ser entregue, acha que sei lá, era só um papel para passar o tempo", explica.

No feriado de Corpus Christi, em maio, as presas tiveram a visita do padre Hernanni, com o Santíssimo, para rezar. Ao passar pelas celas, Lara descreve que as mãozinhas de Arthur saíram pela boqueta - buraco da porta da cela que mede menos que uma folha sulfite - e o padre percebeu. "Ele passou e meu filho deu os bracinhos pra ele dar a benção na gente e ele chamou o padre com a mãozinha. Como ele não vê homem, achou diferente", narra a mãe. 

Foi naquela ocasião que o padre Hernanni conversou, pela primeira vez, com Lara. Era ele quem faria a viagem para o Vaticano, em junho. "Pedi para eu redigir a carta dela de novo e levei para o sacristão do papa. Contei e achei que iríamos só até a sacristia, fomos levando e de repente, quem abre a porta? O Papa", conta Hernanni, de 36 anos, padre há quatro. 

Emocionado, o padre entregou a carta ao Papa Francisco, que leu e todos se emocionaram. A leitura chegou até a ser notícia do jornal local do Vaticano. "Ele pediu que eu falasse para ela e todas, que rezaria por ela, para eu cuidar dela", recorda Hernanni. 

O padre, por tabela, sentiu a emoção e o privilégio que Lara pode ter, do retorno de Francisco. "O Vaticano recebe mais de 6 mil fax todos os dias de pessoas pedindo para ver a missa do Papa e ele mandou eu dar um abraço e cuidar dela, isso renova todo o nosso sentimento de fé", descreve Hernanni.

Lara não sabia onde ficava o Papa e admite que está boquiaberta da dimensão do retorno. (Foto: Marina Pacheco) Lara não sabia onde ficava o Papa e admite que está boquiaberta da dimensão do retorno. (Foto: Marina Pacheco)

A visita ao Papa foi a semana do dia 13 junho e na volta, no dia 23, Hernanni programou de entregar o abraço e o recado pessoalmente. Lara? Nem se lembrava mais e foi pega de surpresa. "Eu nunca imaginei que ele ia pegar a carta e ler. Ele me mandou dizer para eu ter fé, que eu ia vencer e sair daqui uma mulher digna. Nossa, chorei um monte", narra.

A presa acredita que o Papa se comoveu também com o pedido de perdão dela. "Pedi que ele me perdoasse, porque eu queria muito ir embora daqui". A condenação de Lara é de 15 anos e oito meses. Tempo que ela acredita que vá cumprir, em regime fechado, cinco anos. 

"Eu não quero que ele se lembre desse tempo que ficou aqui dentro, preso comigo. Ele é uma criança doce, não gosta de gritaria, não dava problema. Ficava na creche até 4h da tarde e depois ia comigo para a cela", descreve a rotina. 

O menino está prestes a completar 1 aninho e vai soprar as velinhas longe da mãe. O recado do Papa foi um alento. "Meu maior conforto. Trazer uma benção para mim? Sem olhar nada, classe social, sem ter preconceito. Ninguém sabe o que a gente sente, eu também sou um ser humano", desabafa.

Lara não sabia onde ficava o Papa e admite que até agora está boquiaberta da dimensão do retorno. "Tem dias que eu penso nisso, como será que foi pra ele ler? Ele lá na Itália e eu aqui, presa? Isso é a prova de que a gente não está totalmente esquecido, qualquer que seja o nosso lugar. O afeto dele é a melhor coisa que se pode ter. Isso é amor ao próximo".

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Isso é a prova de que a gente não está totalmente esquecido, qualquer que seja o nosso lugar. O afeto dele é a melhor coisa que se pode ter. Isso é amor ao próximo, diz Lara. (Foto: Agepen)"Isso é a prova de que a gente não está totalmente esquecido, qualquer que seja o nosso lugar. O afeto dele é a melhor coisa que se pode ter. Isso é amor ao próximo", diz Lara. (Foto: Agepen)



LIndo! Comovente! Tocante! 'Tadinha! Marido gente boa! Bom pai! Carinhoso! Só é bandido! Tem nada não! Assim que ela sair...vai fazer de novo! E de novo...! E de novo...!
E vai escrever cartinhas bonitas de novo! Mas não vai deixar de traficar!
 
Gawaim em 17/07/2016 15:01:20
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