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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

24/11/2016 09:14

Casado há 70 anos, Luiz é romântico e leva café todo dia na cama do grande amor

Thailla Torres
Juntos  há sete décadas, Cosma e Luiz tem neles todo amor do mundo. (Foto: Rodrigo Pazinato)Juntos há sete décadas, Cosma e Luiz tem neles todo amor do mundo. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Cosma tem nela uma alegria e Luiz todo romantismo do mundo. Até hoje, de um jeito bem querido, rola cena de ciúmes. Mas ele faz questão de levar o café da manhã todos os dias até ela. Já completaram 70 anos de união, de um amor que começou cedo e resistiu a cinco anos de namoro à distância, do tempo que ainda viviam no Nordeste. O amor que dura até hoje é a maior inspiração da família.

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Luiz Francisco de Alencar, tem 93 anos. Cosma Lima Alencar, 90. Ambos nasceram na região de Paudarco, no Ceará, e se conheceram em algum momento de 1941. O amor começou rápido, à primeira vista. Quem descreve toda história é a neta, que foi criada como filha e até hoje os chama de pai e mãe. É Jozylene Alencar Aguiar, de 40 anos, que se emociona ao lembrar toda vez a história deles. 

Ela conta que os dois moravam em fazendas, quando a família de Cosma foi trabalhar na mesma propriedade que Luiz vivia. " Ele diz que a primeira vez que viu ela, já gostou e não demorou muito para a pedir em namoro. Mas depois de um tempo ela se mudou com os pais para outra fazenda e aí começou a história. Era muito longe e não tinha carro. Visita mesmo era só a cavalo", conta.

Sorridentes, são exemplos de amor incondicional. (Foto: Rodrigo Pazinato)Sorridentes, são exemplos de amor incondicional. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Naquele tempo, era tudo bem diferente. Namoro mesmo, só se fosse de mãos dadas e na presença da família. Por conta da distância, nem isso era possível ao casal que acabara de se apaixonar. Longe um do outro, o amor venceu os quilômetros e o namoro durou cinco anos até o casamento. "Eles se viam só uma vez por ano praticamente. Quando meu pai ia até a cidade, chegava a cavalo todo preocupado, tentando descobrir se ela não tinha outro alguém ou teria se apaixonado de novo", ri. 

Mas é claro que isso jamais aconteceu. Vivendo longe do grande amor, Cosma segurava a saudade, na esperança pela chegada do sim no altar.

Do casamento até hoje, os dois mantiveram uma ligação única. Romantismo é palavra certa no cotidiano. Luiz levanta diariamente, faz o café e leva até a cama. Juntos, ainda sentam na rede trocando palavras de carinho. Cosma é a alegria da vida dele, que nem se imagina um minuto longe da amada. 

"É uma história muito engraçada. Ela é toda sorridente e ele mais fechado, só que por ela, ele topa tudo, vira um homem despojado, ama tirar fotos com ela e mostrar que ama. Acredita que ainda tem espaço para o ciúme? Sim, ela ainda fica enciumada e ele chama ela de 'minha garota', todos os dias", conta.

Hoje o casal vive em Dourados, próximo a alguns dos familiares. Os dois já vem dando sinais de esquecimento por conta da idade, ela mais do que ele, porque sempre teve a saúde sensível. O marido sempre teve mais força, descreve a filha. "Coisas da idade né. Ela ouve pouco e esquece algumas coisas. Mas nunca dele. Ela brinca quando vê ele muito forte e todo animado, que morre de ciúmes dele. Que se algo acontecer, ela vai junto, seja onde for".

Dentro do carro, minutos antes da cerimônia.  (Foto: Rodrigo Pazinato)Dentro do carro, minutos antes da cerimônia. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Os dois chegaram aqui há cerca de 40 anos. Quando saíram do Nordeste, tentaram a vida em São Paulo. Com algum dinheiro no bolso, Luiz veio com a família seguir os pais em Mato Grosso do Sul na região de Itaporã. "Eles compraram um sítio e continuaram a trabalhar. A vida deles sempre foi essa. Não frequentaram muito a escola, mas são alfabetizados e criaram todos os filhos com muito trabalho", se orgulha a filha.

Juntos, tiveram 17 filhos, mas seis faleceram ainda bebês, por conta de problemas de saúde, diante da dificuldade e da pobreza da época. Criaram até a vida adulta 11 filhos. Dessa contagem, foi preciso um relatório para somar toda a família que se tornou enorme ao longo dos tempos. "Já contabilizamos 60 netos, 61 bisnetos e 3 tataranetos que ainda são bebês", detalha Jozy

Criada por eles, sejam avós ou pais, o amor para ela é um só. Pelos 70 anos de união, a filha não podia deixar em branco um momento tão especial e planejou uma surpresa.

"Decidi que esses anos de casado podiam ser a motivação para o amor entre a família. A gente faz de tudo para não aborrecer eles. Mas sei o quanto a família unida é a força deles, a vontade de viver. E como toda família, na nossa também existe conflito e momentos de distância", justifica.

Decoração tinha simplicidade e o jeitinho nordestino do casal. (Foto: Rodrigo Pazinato)Decoração tinha simplicidade e o jeitinho nordestino do casal. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Festa - Jozy preparou uma cerimônia para lá de emocionante com direito a tema 'amor e perdão'. Ela que é pastora, celebrou o culto em comemoração aos "paisvôs" no dia 18 de novembro. "Sabia que podia sarar os impasses na família e deu certo. Não consegui trazer todos, mas posso dizer a maioria. Quase não coube no salão da igreja". 

Em Mato Grosso do Sul, Cosma e Luiz mantêm viva toda cultura do nordeste, desde ao jeitinho até as comidas preferidas. No lugar de contratar um buffet sofisticado, Jozy conseguiu deixar a cerimônia mais intimista, usando da simplicidade que sempre agradou os pais. 

"Minha mãe ainda gosta dos panos de chita e o chapéu de cangaceiro nunca faltou ao meu pai. Eu quis deixar tudo mais próximo do jeitinho deles. No lugar do tapete vermelho, usei a chita no chão, na decoração de mesa e trouxe objetos de decoração mais antigos. Até as comidas foram pratos típicos do Nordeste", descreve.

No cardápio, não faltou o famoso Bolo Duro da dona Cosma, feito com água e farinha. "O bolo é o preferido entre os filhos, tem o nome porque ela conseguia fazer só com água e massa simples. Naquele tempo de pobreza, isso era banquete para os filhos e até hoje é o melhor bolo com café", acrescenta.

Da sala de casa para o salão da igreja, as fotos levadas lotaram as paredes. Uma delas exibe os dois no dia do casamento há 70 anos.

"Isso tudo trouxe uma unidade e um valor muito maior para nossa família. Depois da cerimônia, consegui fazer um grupo da família no Whatssap. Quem mora longe e quer matar a saudade, estamos ali todos os dias. Sempre perguntando se o outro está bem e fazendo as orações", conta. 

Tema do casamento foi amor e perdão para unir de uma vez a família. (Foto: Rodrigo Pazinato)Tema do casamento foi amor e perdão para unir de uma vez a família. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Longe da cidade natal há tantos anos, Jozy ainda viveu um dos momentos mais lindos ao lado do pai. Depois de 60 anos sem voltar ao Ceará, no ano passado foi ela quem fez a viagem com ele, para rever o irmão que tinha 106 anos e faleceu há três meses. "Tantos anos deles falando do Nordeste, que quando eu cheguei lá, parece que eu já conhecia tudo. A história deles a gente já tem memória, mas o reencontro da família dele foi a nossa maior surpresa. Meu pai ficou muito emocionado".

A viagem foi de avião e por isso Dona Cosma não aceitou ir. O medo da altura acabou fazendo ela ficar. "Viagem de ônibus é muito dolorosa para eles e ela não quis avião de jeito nenhum, então acabou indo só o meu pai", conta.

Até o fim da vida Luiz deve continua só amores com Dona Cosma. Os fins de tarde são sempre os mais lindos para quem tem o privilégio de ver todos os dias o casal apaixonado na rede. "É um amor que não acaba mais, só aumenta. Ela brinca que se ele morrer ela vai junto e ele é todo faceiro ao lado dela, acho que o amor é isso, companheirismo, independente do tempo. Meu pai ensinou muito pra gente, não vivemos uma vida luxo, mas aprendemos o sentido do amor e da fé, graças a eles", finaliza.

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