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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

06/05/2016 06:05

Cicatriz em foto de casamento é parte da vida da noiva que caiu de paraquedas

Paula Maciulevicius
Jaqueline com a mãe a abotoar os botões do vestido e a cicatriz que carrega de um grande marco na vida. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)Jaqueline com a mãe a abotoar os botões do vestido e a cicatriz que carrega de um grande marco na vida. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)
Imagem de como ficou a coluna com a prótese após queda de paraquedas. (Foto: Arquivo Pessoal)Imagem de como ficou a coluna com a prótese após queda de paraquedas. (Foto: Arquivo Pessoal)

São duas as datas de nascimento que Jaqueline comemora. A de registro na certidão e a que marcou suas costas e pernas. Cinco anos atrás, o espírito aventureiro a levou para saltar de paraquedas. Na hora de pousar, houve complicação com a vela que a chicoteou no chão. Foram tíbia, fibula, tornozelo e quatro costelas quebradas, além da "explosão" de uma vértebra, o esmagamento de outras e uma recuperação surpreendente: em seis meses.

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Do dia 17 de abril de 2011 em diante, Jaqueline passou a ter a cicatriz das costas e a das pernas como parte de si mesma. Os 20 centímetros que aparecem na foto foi um pedido dela feito ao fotógrafo no dia do casamento, último 12 de março, quando a mãe fechava os botões do vestido. 

"Faz tão parte de mim. Eu queria que ele tirasse, porque não tinha e para mim, realmente, é um marco. De antes e depois do acidente", explica a administradora Jaqueline Rodrigues Pinto Cirico, hoje com 30 anos. À época da hospitalização e recuperação, o noivo, quem nem sequer sonhava um dia se casar com ela, chegou a visitá-la. Os dois já se conheciam há anos por trabalharem juntos.

Foram as lições da queda que fizeram Jaqueline escolher a data do renascimento. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)Foram as lições da queda que fizeram Jaqueline escolher a data do renascimento. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)

Durante três meses Jaqueline não podia encostar os pés no chão. Mas passado esse período, a recuperação foi "milagrosa". "A partir do momento que você fratura a coluna, você tem um risco. Meu médico falou que foi quase providência divina o que aconteceu, na verdade, acredito que tenha sido", avalia.

Sozinha, ela caiu no meio do mato, ficou rolando de dor no chão e conseguiu pedir ajuda pelo rádio. Se hoje alguém contasse que ela fez tudo isso mantendo a calma, nem ela mesmo acreditaria. "Você nunca sabe como reagir, mas eu fiquei tranquila", lembra. Os médicos acreditam que por conta do impacto na coluna, se ela tivesse tentado levantar ou se sentar, teria lesionado a medula.

Entre os familiares e amigos que não a deixaram sozinha nem por um minuto, estava Tiago, o até então colega de trabalho. "A gente se conheceu tem oito anos, ele foi me visitar durante a recuperação, a gente chegou a almoçar juntos, sempre nos demos muito bem", conta. Por atenderem a mesma região do País era frequente as viagens em conjunto, mas sem nada rolar entre os dois.

"Nós sempre namoramos. Eu namorava, ele também. Até apresentei a namorada dele, a gente brinca que os nossos ex devem pensar que a gente já tinha alguma coisa, mas nunca tivemos nada mesmo. Ele era muito parceiro só", recorda Jaqueline.

De jantar a corridinhas pelo Rio de Janeiro e a primeira ida ao Maracanã, a consultora compartilhou tudo com ele. Em Campo Grande, apesar de serem muito parecidos e se darem bem, os encontros não rolavam com a mesma frequência. Até que depois de recusar o pedido de casamento do então namorado, entre 2013 e 2014, Jaqueline se viu solteira. Por coincidência, Tiago também, logo depois.

E eu falava: ainda é estranho pensar que eu estou casando com você, brinca a noiva. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)"E eu falava: ainda é estranho pensar que eu estou casando com você", brinca a noiva. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)

"O assunto casamento sempre me assustou. Eu sou muito independente, saí de casa muito cedo. O Tiago terminou no mesmo mês que eu. Um dia a gente combinou uma coisa em casa, com os meninos do escritório e aconteceu de a gente ficar, era fevereiro de 2014", narra.

E no final do mesmo ano, ele a pediu em casamento. Dessa vez Jaqueline disse sim, se casou no civil e os dois foram morar juntos em fevereiro de 2015. Os planos para o grande dia levaram 13 meses para que tudo saísse a cara do casal. A começar pela chegada dela ao buffet, dirigindo sozinha, um Mustang antigo. 

"E eu falava: ainda é estranho pensar que eu estou casando com você. Eu acho que esse amor começou bem sem intenção, eu não pensava em namorar e foi muito despretensioso. Achei que não ia dar em nada e logo ele já viu uma viagem para a gente", relembra Jaqueline.

Jaqueline e Tiago se conheciam há oito anos, como colegas de trabalho. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)Jaqueline e Tiago se conheciam há oito anos, como colegas de trabalho. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)

"A gente nunca teve uma briga séria, sempre conversou muito. Acho que tudo isso é porque a gente se conhece, sabe o gosto um do outro, o jeito. A primeira coisa é que o Tiago me fez realmente pensar em casar, era uma pessoa que eu estava junto e não tinha que ser diferente. Não é isso de completar um ao outro, como a gente ouve muito falar. Eu amo pedalar, às vezes ele tem preguiça, mas vai porque é parceiro".

As fotos do casamento mostram todo o amor construído com a parceria e amizade que os dois sempre tiveram e o quanto a vida de Jaqueline mudou depois do acidente. Cair de paraquedas, nas palavras dela, foi uma experiência que a fez repensar na vida e na correria.

"Às vezes me pegava voltando para casa, dirigindo que nem louca e para que a pressa? Depois, eu sempre fui muito independente e achava que eu me bastava. Era aquilo do: 'eu me viro, eu não preciso das pessoas' e a partir do momento que isso acontece. Eu também parei para pensar o que Deus representa e o tanto que ele cuida".

Foram as lições que fizeram Jaqueline escolher a data do renascimento. "Não que eu recomende isso, mas você automaticamente passa a mudar olhares, sentimentos. Minha cicatriz representa hoje uma lembrança e eu não quero tampá-la. Não me incomoda. Agora faz parte da minha história".

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A independência dela foi levada para o altar. Jaqueline chegou sozinha, dirigindo um Mustang. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)A independência dela foi levada para o altar. Jaqueline chegou sozinha, dirigindo um Mustang. (Foto: Pedro Wendel Fotografia)



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