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Campo Grande, Sexta-feira, 02 de Dezembro de 2016

07/09/2014 07:27

Considerações sobre o amor parte II: A memória do corpo

Andrea Brunetto*
Considerações sobre o amor parte II: A memória do corpo

Como na consideração anterior, me servirei da música para sustentar que amar envolve todo o corpo, muito mais do que a bela alma. O amor pede o corpo a corpo. E quando sentimos saudades de um amor passado, as lembranças do corpo estão bem presentes.

Para sustentar essa ideia, trago a música Memória da pele, de João Bosco. A letra começa com a afirmação de um homem de que já esqueceu uma mulher. Mas antes que acreditemos na afirmação, eis a segunda frase: tento crer. E depois ele continua afirmando que já esqueceu tudo, sua casa, sua cama, seu nome. E a seguir todas as lembranças do corpo: já esqueceu sua carne, sua boca, seu suor, seu odor. E a saudade bate na memória da pele, no sangue que bombeia, na sua veia. E busca em sonhos aqueles lábios que outrora os dele sugavam de prazer.

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Assim a música continua, ele tentando esquecer um amor com todas suas marcas corporais, até chegar ao odor. Nem o cheiro dela, ele esquece – sobretudo esse.

Há mais verdade entre o céu e a terra do que crê nossa vã filosofia, escreveu Shakespeare. Vou parodiá-lo: há mais verdade em nosso corpo do que em nossa vã filosofia. É certo que há amores platônicos; na Idade Média houve o amor cortês, em que a amada idealizada e seu amado nunca trocavam mais do que olhares. E também há aqueles casais que estão juntos há dezenas de anos e contam de um amor que cresceu com o tempo, de um companherismo que os une, mas que o “embate” do corpo, do desejo sexual, aquilo que os unia outrora, não existe mais.

Em todos os casos, a ausência do encaixe de um corpo no outro, dos “lábios que sugavam de prazer”, é sentida como uma falta incomensurável. E quando falta, não há Sex Shop, creminho especial, lingerie especial que dê jeito. Essas coisas só servem para aqueles casos em que não são tão necessárias.

O grande poeta de língua alemã Rainer Maria Rilke escreveu sobre esse corpo da mulher que amava: apaga-me os olhos, ainda posso ver-te; assim começa seu poema. E assim termina: se me deitarem fogo ao corpo, ainda assim hei de continuar a trazer-te no meu sangue.

Tanto na música como no poema, o amor se reflete no corpo inteiro e até no sangue. Meu mestre Sigmund Freud já explicou: é muito difícil para o ser humano esquecer uma experiência de prazer. Para esse lugar em nossa memória, onde tivemos muito prazer um dia, a ele retornamos.

O amor não é tranquilidade, não é calmaria, não é companherismo, ainda que possa ter isso tudo. O amor pede um sangue que bombeia em nossas veias, uma agitação, o suor nas mãos, os lábios que tremem. A mistura de cheiros, um olhar, uma suave agonia, uma ânsia de alívio que só a presença do outro pode dar. Queres ainda isso? Queres de novo? Queres sempre? 

*Andrea Brunetto é psicanalista e colaboradora querida do Lado B.




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