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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

31/08/2016 07:03

De Getúlio a Lava-Jato, Laerte jura que pé de caju conta trama política do País

Paula Maciulevicius
Seu Laerte descrevendo tudo o que a natureza lhe mostrou quanto à política. (Foto: Marcos Ermínio)Seu Laerte descrevendo tudo o que a natureza lhe mostrou quanto à política. (Foto: Marcos Ermínio)

O Brasil, seus três poderes e a corrupção. Do Executivo, Legislativo e Judiciário até o "braço" da Lava-Jato. Os galhos do cajueiro do quintal de uma casa, no Jardim Paulista, contam a história da política. Pelo menos é isso que jura seu Laerte, hidrometrista de 87 anos, que há quase quatro décadas carregou uma mudinha do pé de caju para os fundos de casa.

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"Tinha um amigo que eu ajudava a fazer a casa dele nos fins de semana e lá tinha uma mudinha, desse tamainho, que ficava entre a casa dele de madeira na divisa com outro terreno e a gente batia a perna no cajueiro, na hora de passar com os materiais", recorda Laerte Young. A barba longa não é aparada há quatro anos, em homenagem a quem ele atribui como único "mártir" do País, Tiradentes. 

Só pelas expressões, já dá para imaginar o quanto de imaginação e história tem Laerte. De tanto esbarrar, ele resolveu pedir para o amigo o pezinho da árvore como presente. A resposta foi positiva e entre o fim de 1979 e o início de 1980, o caju ganhou casa nova: o quintal no Jardim Paulista.

Até o tiro de Getúlio Vargas está no tronco do cajueiro. (Foto: Marcos Ermínio)Até o tiro de Getúlio Vargas está no tronco do cajueiro. (Foto: Marcos Ermínio)
Dos três troncos surge a lava-jato. (Foto: Marcos Ermínio)Dos três troncos surge a lava-jato. (Foto: Marcos Ermínio)
Como era no início e depois de 30 anos. (Foto: Marcos Ermínio)Como era no início e depois de 30 anos. (Foto: Marcos Ermínio)
Por vezes ele se questionou e pensou se não estava louco. (Foto: Marcos Ermínio)Por vezes ele se questionou e pensou se não estava louco. (Foto: Marcos Ermínio)

"Era só um troncozinho com raiz e três brotos. Ela cresceu, cresceu, um galho desgarrou, ficou em cima da cerca e foi de onde eu tirei. Mas ao invés de ficar uma cicatriz, ele fechou", descreve. Ao chegar aos 2m de altura, foi a vez dos galhos que sobraram, ganharem o chão. "Esse cresceu e quando chegou ali, começou a cair para lá, pensei: 'não vai dar, vou tirar fora esse também'". A história é discorrida entre tantos detalhes que se deixar, seu Laerte transforma a entrevista em visita de horas.

Numa das rajadas de vento que ele acompanhou, é que vem à memória a cena surreal. "Você pega uma árvore e o movimento da galhada é meio desconforme. Eu olhei assim e tive a impressão que a copada toda fazia um movimento harmônico", descreve. Há quatro anos, o último galho foi cortado e o dono teve de passar veneno para afugentar cupim e formigas. "Porque estava na iminência de um vento mais forte derrubá-la e danar o telhado todo", justifica.

A revelação da "árvore-política" surgiu ali. "Quando era pequenininha, eram três galhos. Tirei o primeiro, o outro lá e ela repetiu. Quando ficaram os três galhos, me veio uma ideia assim na cabeça: 'gozado, os poderes da república são três: Legislativo, Executivo e Judiciário. Em Brasília tem a Praça dos Três Poderes. Eu estou contando aquilo que se passou comigo, os fatos, depois vocês examinam", ameniza. 

E antes que dê tempo de a gente fazer qualquer comentário, ele emenda: "mas essa árvore, parece que foi prodígio divino ou da natureza, porque ela repetiu o fenômeno. Passaram 30 e tantos anos e por que isso me aconteceu? Comecei a me questionar se eu estava ficando louco, de me questionar, explicar e querer entender", reproduz.

À época, ouviu a esposa dizer para ele não esquentar a cabeça com as coincidências da natureza. Do caju ter voltado a forma "primitiva". E de resposta, disse que já tinha se incomodado o suficiente com o País e toda a corrupção. No contexto de Brasil, três poderes e a "corja de ladrões" que ele afirma que assola a política, é que surgiu a ideia de então nomear os galhos. 

De onde se olha, enxerga os dizeres nas placas. (Foto: Marcos Ermínio)De onde se olha, enxerga os dizeres nas placas. (Foto: Marcos Ermínio)

"De onde surgiu as oportunidades dos corruptos? Do próprio governo. Eu entendi que a árvore era um prodígio e eu tinha que fazer isso aqui", explica.

A árvore tem placas com os nomes Executivo, Legislativo e Judiciário e do galho do primeiro poder, surge como um dos braços, a Operação Lava-jato. "É loucura, me pergunto? Não, são fatos. Toda estrutura foi feita pela natureza. Ela fez isso e brotou para eu mostrar", reforça.

Até o tiro que Getúlio Vargas deu no próprio peito, em agosto de 1954, está simbolizado ali. Abaixo da placa, uma tinta vermelha com fundo branco, faz referência ao suicídio do presidente. A árvore fica na Rua Senador Ponce, quase esquina com a Quintino Bocaiúva. Seu Laerte convida, quem quiser, pode ir lá tirar fotos e até ouvi-lo falar. "E se alguém quiser contestar, eu vou pegar os livros que estão aqui", diz todo sério. 

Vale a visita para conhecer seu Laerte, sua barba e a árvore da política. 

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Essa foi uma sugestão de pauta da fotógrafa, amiga e leitora do Lado B, Raquel Ovelar Rodrigues. 

 

Fachada da casa. Árvore está aberta para visitação. (Foto: Marcos Ermínio)Fachada da casa. Árvore está aberta para visitação. (Foto: Marcos Ermínio)



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