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Campo Grande, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

31/01/2016 07:45

De maca e no barracão do samba, Alexandre é o folião mais especial do Carnaval

Adriano Fernandes
Alexandre voltou para o Carnaval depois de 7 anos sem sair de cima de uma cama.Alexandre voltou para o Carnaval depois de 7 anos sem sair de cima de uma cama.

A palavra limitação ganha um novo sentido quando o entrevistado é o simpático Alexandre Garcia Palhares, de 31 anos. Mesmo sendo portador de uma doença rara, que restringe os movimentos do corpo, este ano ele fez questão de voltar a conferir de perto uma grande paixão: o Carnaval.

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Já fazia um tempo que o Lado B estava a procura do folião de “maca” da Vila Carvalho, até que o encontramos neste sábado, durante um dos ensaios da escola. Deitado e acompanhando o ritmo do samba apenas na palma das mãos ele mostrou que é festeiro, mas também um exemplo de superação, inspiração e animação, claro.

Primeira vez que o Alexandre desfilou na Vila Carvalho. (Foto: Arquivo Pessoal)Primeira vez que o Alexandre desfilou na Vila Carvalho. (Foto: Arquivo Pessoal)

A data do primeiro Carnaval na Vila ele se recorda como se fosse hoje. Era o Carnaval do ano de 2007 quando Alexandre desfilou pela primeira vez na avenida, representando a escola de samba que o acolheu com tanto carinho. A foto dele na passarela do samba, num triciclo adaptado, ele guarda com orgulho até hoje.

Mas o tempo foi passando e com ele veio o desenvolvimento da Fibrodisplasia Ossificante Progressiva, doença genética que causa a formação de ossos no interior dos músculos, tendões, ligamentos e outros tecidos do organismo e por consequência restringe os movimentos do pescoço para baixo.

“Por sete anos e oito meses eu fiquei deitado em uma cama, praticamente sem poder sair de casa”, se recorda. Mas longe do vitimismo, Alexandre conta que nunca foi de se queixar de sua situação. De sorriso fácil ele também se recorda do dia em que pode finalmente deixar o quarto que tanto o limitava.

O dia 15 de janeiro de 2015 simboliza para ele, uma espécie de libertação. “Foi a primeira vez que eu saí de casa para dar um passeio em uma praça, depois de todo esse tempo numa cama. É claro que tem dias em que a gente fica um pouco triste, para baixo, mas eu tento estar sempre feliz”, comenta.

Animado que só, ele conta que sempre foi festeiro e curte do rock ao samba. Nos passeios, as duas companhias são o motorista da van adaptada para ele e uma de suas quatro cuidadoras. Neste sábado quem curtia o samba com Alexandre era dona Maria Lucia dos Santos. “Ele não dá trabalho, não”, brinca dona Maria, aos risos.

Bem ali na frente Alexandre conferindo o show do Rosa de Saron. (Foto: Arquivo Pessoal)Bem ali na frente Alexandre conferindo o show do Rosa de Saron. (Foto: Arquivo Pessoal)
Alexandre e Rafinha Bastos após apresentação em Campo Grande. (Foto: Arquivo Pessoal)Alexandre e Rafinha Bastos após apresentação em Campo Grande. (Foto: Arquivo Pessoal)

Senhor Alonso é o outro parceiro dos rolês do rapaz e quem o acompanha para onde Alexandre quiser. Na van que demorou quase sete meses para ficar pronta, tem DVD, televisão e até circuito de câmera para que Alexandre possa acompanhar os percursos por onde passa.

No para-brisa, está escrito em letras garrafais o nome do passageiro digno de tanta pompa. Foi num desses passeios que ele conheceu o barracão da Vila Carvalho, em novembro do ano passado.

“Nós estavamos passando aqui na rua, quando meu motorista me mostrou onde era o barracão da escola de samba. Pedi para ele para e ver se era acessível para mim, descemos e desde então comecei a frequentar o barracão”, comemora.

Desde quando começaram os esquentas este ano, Alexandre conta que só não foi conferir os ensaios quando ele tinha algum outro compromisso ou convite. Até na Igrejinha ele já foi esse ano, a convite da escola. Alexandre também fez questão de mostrar alguns dos registros do primeiro ano voltando a se aventurar da porta de casa para fora.

À frente de uma multidão no Ginásio Poliesportivo Colégio Dom Bosco, em novembro, ter visto o show do Rosa de Saron foi para ele um dos momentos mais emocionantes. Já o mais divertido foi conferir o stand up do comediante Rafinha Bastos em outubro.

Todo processo de adaptação da van de Alexandre durou mais de 7 meses.Todo processo de adaptação da van de Alexandre durou mais de 7 meses.
No para-brisa do automóvel vai o nome do grande Alexandre. No para-brisa do automóvel vai o nome do grande Alexandre.

Mas a verdade é que Alexandre só aquieta mesmo quando está em casa, vendo filme ou jogando vídeo game, dois de seus hobbies preferidos. Mesmo com a deficiência, ele explica que a possibilidade de sair de casa, praticamente sozinho e longe do cuidado sempre atento dos pais, está longe de ser arriscado. Ser tratado como uma pessoa normal, para ele não só faz bem como também é seu ato quase que diário de coragem.

“A melhor coisa que existe para uma pessoa é chegar em um ambiente onde você é bem tratado e tem o carinho das pessoas como o que eu encontrei aqui. Mesmo eu não podendo me mexer, a sensação de estar em um ambiente agradável é muito boa. O importante é não ter medo. Não ter medo de nada”, ele explica.

Ali, deitado em sua maca, enquanto muitos dançavam sob o som contagiante do samba, nossa conversa só era interrompida por quem ia comprimentar o folião ilustre. Ou então o senhorzinho que foi dar um beijo em sua mão, ou o rapaz que pela primeira vez foi a Vila Carvalho e fez questão de parar e dizer o quanto tinha ficado impressionado com tamanha força de vontade.

Difícil não se emocionar conhecendo a história de alguém que mesmo aparentemente agindo tão pouco, impressiona a cada mínimo gesto, a cada palavra, a cada olhar. Alexandre é do tipo de pessoa que consegue ir, muito além do que a deficiência pudesse impedir. A despedida do folião que sem dúvida, merece o título de o mais “especial” do Carnaval 2016 em Campo Grande, serve de lição para qualquer pessoa.

Alexandre vive o seu infinito limitado dando exemplo de força e superação.Alexandre vive o seu "infinito limitado" dando exemplo de força e superação.

“Muitas pessoas às vezes têm o melhor trabalho do mundo, o carro do ano mas no dia a dia elas estão tristes e não sabem nem sequer o porquê. Talvez elas me vejam e imaginem: 'Eu tenho tudo e ainda assim não sou feliz. Mas olha aquele rapaz ali. Ele não tem movimento nenhum, mas está ali, está feliz, está curtindo, está alegre. Em qualquer ambiente que ele esteja, está rodeado de pessoas, colegas, amigos ou conhecidos'. Eu acho que passar essa força para pessoas tem um significado muito grandioso. Eu quero trazer felicidade para todas as pessoas, não importa como elas sejam”, conclui.

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