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Campo Grande, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

03/05/2016 06:25

Depois de 52 anos engraxando sapatos, Dionísio conseguiu a carteira assinada

Adriano Fernandes
Senhor Elias concilia o trabalho como engraxate na Avenida Afonso Pena e no fórum de Campo Grande. (Foto: Alcides Neto) Senhor Elias concilia o trabalho como engraxate na Avenida Afonso Pena e no fórum de Campo Grande. (Foto: Alcides Neto)

Das calçadas da cidade Elias Dionizio, de 59 anos, foi trabalhar como engraxate no Fórum de Campo Grande. Há um ano, ele também ganha a vida lustrando os sapatos de juizes e advogados do local, mas sem deixar de trabalhar na região central, onde faz dinheiro com o ofício desde os 7 anos de idade. Lá se vão 52 anos engraxando.

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Simpático, ele se orgulha da oportunidade que fez dele um profissional de carteira registrada, depois de tanto tempo em uma função sem segurança nenhuma. “Hoje em dia eu sou contratado, trabalho das 12h até às 18h, de segunda até sexta-feira. Minha carteira é assinada, tenho meu salário fixo, décimo terceiro”, sorri.

Depois de uma vida inteira dedicada ao ofício nas ruas, há um ano Elias é engraxate também no fórum. (Foto: Alcides Neto) Depois de uma vida inteira dedicada ao ofício nas ruas, há um ano Elias é engraxate também no fórum. (Foto: Alcides Neto)

Numa das salas de espera do Fórum que fica na Rua da Paz, no Jardim dos Estados, Elias tem cadeira em um cantinho de destaque, onde ele atende aos advogados. Nas terças e quintas, seu posto de trabalho é  uma das salas da Amansul (Associação de Magistrados do Mato Grosso do Sul), dentro no prédio. 

“Trabalho entre juizes e advogados”, ele ri. “Quando eu não engraxo os calçados dos magistrados aqui mesmo, no prédio, eu levo para casa e no dia seguinte já trago de volta. Mas também atendo muitos doutores por indicação dos meus próprios clientes aqui do fórum, graças ao respeito que eu conquistei com eles", completa.

No período em que não está trabalhando ali, é no seu ponto da Avenida Afonso Pena que engraxa os sapatos.

Alagoano, chegou aqui junto dos pais quando tinha apenas cincos anos, depois de sair da cidade de origem e ter vivido no estado de São Paulo. “Meus pais trabalhavam com a venda de doces e até como feirantes pelas cidade onde passavam. Com 2 anos de idade, nos mudamos de Branquinha no Alagoas para Andradina, no interior de São Paulo. Lá moramos até quando eu completei meus 5 anos de idade, até meus pais decidirem se mudar para cá”, lembra.

Aqui, mesmo muito pequeno, tinha contribuir com a renda da família. “Minha mãe já trabalhava nas ruas e feiras vendendo doces, cocadas. Meu irmão, além de jornaleiro, também era engraxate então acabou me servindo de inspiração para a função”, comenta.

A cadeira de engraxar do senhor Elias, tem lugar cativo na sala de espera da OAB no fórum. (Foto: Alcides Neto) A cadeira de engraxar do senhor Elias, tem lugar cativo na sala de espera da OAB no fórum. (Foto: Alcides Neto)

Algo inaceitável hoje, aos sete anos ele já ralava no primeiro ponto de engraxate, na Rua Dom Aquino, onde ficou até completar seus 9 anos de idade. “Era em frente a extinta frutaria Califórnia. Em seguida eu passei a trabalhar na Praça Ary Coelho, onde eu fiquei por pelo menos mais 4 anos, até me mudar para outro ponto na Afonso Pena, onde trabalho até hoje”, comenta.

No mesmo local, em frente as Casas Bahia, ele e mais dois colegas já atenderam clientes conhecidos. "Desde o coronel Adib Massad até o juiz federal de Mato Grosso do Sul, Odilon de Oliveira", garante.

Em dias de aperto, já trocou até tinta de engraxar, por borra de café. “Me lembro de quando era garoto eu meus colegas esquecermos de comprar a cera que usaríamos nos sapatos dos clientes e ter que improvisar com café, e o cliente nem perceber”, ri.

Mas ele conta que nas ruas o perfil dos clientes foi mudando conforme também foi diminuindo o movimento. “Hoje em dia, até mesmo o advogado anda nas ruas com um jeans, um sapatênis, sem falar na própria crise que também contribuiu para a diminuição do movimento. A maioria dos meus clientes hoje em dia, são vereadores do interior ou fazendeiros, por exemplo”, comenta.

Nada veio fácil na vida dele. Elias se envolveu com as drogas e até cometeu pequenos furtos para sustentar o vício. “Na adolescência eu conheci o mundo das drogas, desde a maconha até outros entorpecentes muito mais fortes e injetáveis. Nunca tive mal exemplo dos meus pais nesse sentido, mas experimentei por curiosidade e para mantê-las eu também passei a cometer furtos na rua. Foram oito anos de sofrimento”, se emociona.

Ele diz que Jesus quem o salvou, desde que se tornou evangélico. Já está no segundo casamento, tem 3 filhos e três netos. A nova rotina de trabalho, depois de uma vida toda dedicada ao oficio que ele aprendeu a amar desde criança, ele conta que é a conclusão de um nova fase em sua história.

“É muito importante para mim estar chegando aos meus 60 anos, fazendo o que eu gosto e tendo o respeito das pessoas que gostam do meu trabalho. Estou vivendo mais um importante ciclo da minha vida”, conclui.

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