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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

01/09/2016 06:33

Depois que meu filho foi assassinado, só pedi a Deus para não ficar amarga

Paula Maciulevicius
Mércia, a mãe que chorou e não se deixou amargar nem pela maior dor da vida, a de perder um filho. (Foto: Alcides Neto)Mércia, a mãe que chorou e não se deixou amargar nem pela maior dor da vida, a de perder um filho. (Foto: Alcides Neto)

Mércia tem 54 anos, dona de um sorriso lindo e um bom humor que contagia. Abraça como mãe, conversa como amiga. E 17 anos atrás, pediu a Deus que não a deixasse ficar uma pessoa amarga, depois de perder o filho. Diego foi assassinado dias antes de completar 20 anos, com um tiro no peito, em uma história mal explicada em frente à antiga boate Le Point, em Campo Grande.

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Uma mãe que nunca fez questão de entender ao certo o acontecimento, não procurou vingança e encarou o disparo como um acidente, que cessou a vida do filho, porque já era a hora dele. É o relato dela, mãe de outras duas meninas, avó de um garotinho e cabeleireira, que o Voz da Experiência conta hoje: 

"Em agosto fez 17 anos, tem tempo... Eu não podia ficar amarga. Eu tinha as meninas, a minha família e eu sempre gostei de estar junto deles. Quem fica amarga, se isola ou as pessoas te isolam e eu não sei viver sozinha, mas tudo foi tão tranquilo, Deus foi tão perfeito, que acho que não me deixou amarga, deixou?

Diego era o mais velho e meu único filho homem. Ele ia fazer 20 anos dia 1º de agosto e faleceu dia 8 de julho, na noite em que ele foi assassinado, horas antes dele sair para um jantar de um amigo que ia para os EUA, ele entrou no meu quarto, pegou uma jaqueta do pai e ainda mexeu comigo, dizendo que eu estava com dor de cabeça, porque tinha ido ao bingo.

Mércia e Diego, 37 anos atrás. Primeiro filho, único homem. (Foto: Arquivo Pessoal)Mércia e Diego, 37 anos atrás. Primeiro filho, único homem. (Foto: Arquivo Pessoal)

Nós éramos muito ligados, eu e ele. E ele não era santo, era um jovem como outro qualquer e eu acho que Deus é muito perfeito, por eu ser tão ligada a ele, isso não me deixa mais triste, eu tenho sim uma saudade infinita, mas tristeza e revolta eu nunca tive, porque graças a Deus, pude curtir muito bem ele, por 20 anos, a gente se dava muito bem.

A única coisa que eu pedi a Deus era para não me deixar amarga, porque é muito triste ser amarga. É ruim pra gente. E filho é como uma joia rara que Deus dá para você cuidar, lapidar, até que um belo dia, Deus precisa dela. E ele não te deu, ele te emprestou. Eu lido com a morte de uma maneira diferente de outras pessoas, eu penso assim, a morte nada mais é do que você já ter cumprido o que você tem para fazer aqui.

E quantas vezes por dia você fica triste, você sofre, fica nervosa e os minutos de felicidade, são mínimos. Pra mim, o ruim como chamam de inferno, é aqui. Isso sempre me consolou, para mim não foi assassinato, foi acidente. Eu nem lembro do cara que assassinou meu filho. Ele foi, porque tinha que ir mesmo.

E um dia antes, eu estava conversando com a minha mãe, e falei que eu suportava tudo, menos a perda de um filho. E o Diego estava ali, me esperando do outro lado da rua, mas é tão diferente... Deus parece que passa a mão na sua cabeça, porque é muito diferente.

Claro que dói, é como enfiar uma mão de ferro no peito e arrancar. A cicatriz? Ela fica pra sempre, mas como você vai viver se ainda não cumpriu a sua missão? Na hora da dor, ficar numa cama e depressiva, não vai te ajudar em nada. Você tem que se ajudar e lutar contra certas coisas. Não é muito fácil, mas ou você encara de frente ou você não encara e eu, que adoro sorrir, brincar e conversar, pra mim ia ser muito triste ficar sozinha. 

Rapaz hoje teria 37 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)Rapaz hoje teria 37 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Já faz 17 anos, eu chorei muito, mas eu, sozinha. O quarto dele ficou oito meses sem mexer. Eu entrava, pegava uma camisa dele e fazia de conta que era ele me abraçando. Até que um dia, veio uma visita que não tinha onde ficar e eu coloquei no quarto do Diego. Aí que eu desmontei. Tudo tem um para que.

O chapéu dele, que estava na cabeça na hora que ele levou o tiro, eu guardei por 12 anos e dei para um rapaz, o Quico, que bem dizer, foram criados juntos.

Eu nunca fiz isso: 'por que você foi? por que você morreu?' porque eu acho que ele tem que ficar em paz. Naquele dia, tocou o telefone meia-noite, eu desci a escada correndo, alguém falava 'cadê o Eder? Cadê a Dany?' E eu gritei: 'o que aconteceu com o meu filho?' Eu tinha certeza, certeza e me falaram: 'tia, o Diego levou um tiro'.

Eu devo ter gritado, porque quando eu subi a escada, o Mauro, pai do Diego e a Dany, minha filha estavam de pé, na porta. Nisso tocou o telefone novamente, do Pronto Socorro, avisando que ele tinha dado entrada. Eu fui pensando que ele teria que fazer uma cirurgia, que talvez eu tivesse que vender alguma coisa. Nisso, o Mauro olhou e falou 'engraçado, a gente nunca pensa que essas coisas vão acontecer conosco'. Eu acho que ele já tinha noção.

Quando chegamos, o pátio do Pronto Socorro estava lotado de moçada, tinha sido na frente da Le Point. Me sentaram num banco, perguntaram se eu era a mãe do Diego e a segunda pessoa veio e falou assim: 'ele deu entrada e veio a óbito'.

Eu levantei. E saí falando, 'mataram meu filho'. Me disseram que eu gritava, para mim, eu achava que estava falando, como eu estou falando com você. No velório, foram mais de mil pessoas, disseram, muita gente pra época. Quando deu 4h30 da tarde, mais ou menos, não lembro, falaram que era o último horário para enterrar. Eu pedi para enterrarem ele. Só peguei o chapéu da mão dele. Da mão não, de cima do caixão.

Daquele dia em diante, eu não fico na hora que vai baixar um caixão. É a única coisa que eu desabo, até para falar. Eu peguei, eu peguei o chapéu e fui.

Por dois meses, a minha casa parecia uma romaria de tanta gente. Isso não em número, mas você se sente mais confortada, abraçada, você vê que seu filho foi querido. Isso é uma parte boa, eu tive esse carinho, graças a Deus. Nos primeiros Natal e Ano Novo, os amigos dele tudo passavam lá em casa.

Vai doer, vai doer para o resto a vida. Você pode ter 10 filhos, mas um não substitui o outro. E ele me deu vários bons momentos, que só aconteceu entre mim e ele. Eu tive um filho que pude curtir, pude educar e talvez por isso, sabe? Eu tive muita sorte.

Naquele dia, o que me disseram era que ele estava na rua da Le Point, e era estreita, estava cheia de carros, ele foi sair e diz que bateu. O motorista do outro carro, saiu, rodeou e veio falar com o carona dele. Nisso, o Diego gritou: 'vem aqui que eu vou resolver' e desceu do carro. Quando ele desceu, o passageiro do outro abaixou, pegou uma arma, saiu e falou 'vou te matar' e deu um tiro no peito.

Foi isso. E Deus foi tão perfeito comigo, que parece realmente que foi um acidente. Era hora dele ir. Um dia, em casa, me veio um ódio, um ódio que parecia um monstro dentro de mim, uma coisa horrorosa e eu pedi a Deus: 'tira isso de mim'. Acho que ele pôs para ver como eu fui abençoada, porque aquilo é uma coisa horrível e ele me mostrou que eu não precisei sentir isso.

Eu nunca fiz nada, nem ameacei. Para mim, não servia de nada. Eu vivo tão em paz, deito no meu travesseiro e fico com a minha saudade. Ele não vai voltar, mas eu tive 20 anos para curtir, tem gente que nem isso tem".

Diego teria hoje 37 anos. 

Diego e seu inseparável chapéu. (Foto: Arquivo Pessoal)Diego e seu inseparável chapéu. (Foto: Arquivo Pessoal)



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