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Campo Grande, Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

04/10/2016 06:20

Depois que Valdir morreu, restou à filha missão de atender último pedido do pai

Emocionante é o jeito que Andreia fala do pai

Thailla Torres
O coração de Andreia se emociona a cada lembrança do pai querido. (Foto: Alcides Neto) O coração de Andreia se emociona a cada lembrança do pai querido. (Foto: Alcides Neto)

Na porta da loja da família, a placa serve de marketing, mas também é um recado. "Precisamos de clientes com ou sem experiência". A frase fala um pouco sobre desafio que restou à filha, depois que o pai morreu. Difícil é não se emocionar com o brilho no olhar de Andreia ao falar dele.

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Dono de uma casa de tintas na Avenida Fernando Corrêa da Costa, Valdir Dias ficou conhecido pela proximidade com os clientes. Quando ele se foi, coube à ela tocar um sonho que nunca foi seu, e hoje, é Andreia que administra o negócio.

Antes de partir, um pedido foi feito. Mas a mensagem só teve sentido depois de algum tempo. “A última palavra que meu pai falou para mim foi: Abre. Naquele momento de desespero, eu entendi que ele estava dizendo para abrir os olhos. Mas na verdade significava abre a loja”, lembra emocionada.

Andreia Dias Anzou tem 39 anos e é corretora de imóveis. Mas carrega na bagagem a experiência como dona da Sucolândia, que era ao lado da loja do pai. Quando precisou fechar as portas e entrar de vez na casa de tintas, foi um recomeço.

Característica do seu Dias, era sorriso e bigode.(Foto: Arquivo Pessoal)Característica do seu Dias, era sorriso e bigode.(Foto: Arquivo Pessoal)

Valdir morreu aos 61 anos, depois de um acidente enquanto arrumava o telhado da chácara onde pretendia se aposentar. Era terça-feira de Carnaval, quando a telha quebrou em Piraputanga. Ele foi encaminhado para hospital em Aquidauana. “Quando chegou na emergência, o médico disse que era grave. Precisava ser transferido para Santa Casa, mas faltava ambulância e médico”, lembra.

Foram algumas horas de espera, mas que para filha durou uma eternidade. Enquanto se preocupava com o pai, pedia a Deus para que ele chegasse em Campo Grande com vida. No meio do caminho, Valdir teve uma parada cardíaca e não resistiu.

Os minutos que antecederam a morte nunca mais saíram da cabeça de Andreia. Assim como a última conversa que tiveram sobre a morte em outubro de 2015, quando ele acalmou a filha sobre a partida.

“Falava que depois que morresse, não era para ninguém ficar sofrendo. Tinha que continuar a vida e trabalhar. Horas antes, ainda brincou que iria fazer uma lista das pessoas que ele queria no velório. Mas claro que ele nem precisava. Descobri o quanto ele era querido, pelo tanto de amigos que estiveram para despedida”, recorda a filha.

Quando teve noção da mensagem que o pai havia deixado, Andreia se fortaleceu para seguir em frente. “Enterramos ele às 11h da Quarta-Feira de Cinzas. Como tinha muita coisa para fazer naquele dia, não abri a loja. Mas na quinta-feira as portas estavam abertas como era o desejo dele”, diz.

Essa foi a última fotografia de Valdir na loja. (Foto: Arquivo Pessoal)Essa foi a última fotografia de Valdir na loja. (Foto: Arquivo Pessoal)

Crise - Ao entrar para o primeiro dia ali, sem ele, vieram as lágrimas. “Tudo aqui ainda lembra ele, a cor das paredes, o cheiro e o estoque. Mas foi trabalhando que entendi a necessidade do que ele estava me dizendo", comenta.

Sem pensar duas vezes, a filha seguiu adiante, mas encontrou pelo caminho a crise. O ritmo da empresa hoje é outro e lembrando as qualidades do pai, é que decidiu mostrar ao cliente que estar ali pode ser interessante.

Em um banner de lona, com letras maiúsculas, ela deixou a mensagem em busca de clientes até sem experiência. O recado gera dúvidas e também expectativas. “Eles nem terminam toda frase. Geralmente só reparam no 'precisa' e 'experiência' e entram aqui achando que é vaga de trabalho”, conta Andreia.

Mas o objetivo é mesmo conquistar os clientes mostrando que não precisa entender de tintas, basta entrar. Da mesma forma que o pai conquistava pelo olhar e a experiência, na simplicidade Andreia quer mostrar que o amor de Valdir pelos negócios continua vivo e na mesma família.

“Temos que seguir, essa loja era o sonho e a vida dele. Cresci vendo meu pai aqui dentro, atendendo, sabendo de todas as cores e pintando as paredes. Continuo com a mesma equipe dele, só que agora perdemos um líder e a gente se abraçou para dar continuidade”, descreve com os olhos cheios.

Para ela, o espaço é uma nova família. “Os funcionários estão há anos. Tem gente aqui que era vendedor de chinelo, queijo e carro. Ninguém veio da tinta, mas aprenderam como o meu pai e tinham muito carinho por ele”, conta.

Mesmo com as dificuldades, Andreia interpreta as mudanças como um aprendizado e acredita que o pai deixou a palavra como riqueza para toda vida. “Meu pai sempre foi a base da família e de muita responsabilidade. Era um homem de palavra e foi isso que ele me deixou. Faço questão de manter tudo isso, sei que não é tudo da forma como ele fazia, mas acredito nas pessoas e aos pouquinhos vou mostrar para os clientes que o a energia do seu Dias continua aqui”, acredita.

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Faixa atrai clientes curiosos e com expectativa. (Foto: Alcides Neto) Faixa atrai clientes curiosos e com expectativa. (Foto: Alcides Neto)



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