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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

01/04/2016 06:56

Desculpem-me o transtorno, estou em manutenção para um melhor convívio

Mariana Monge
Desculpem-me o transtorno, estou em manutenção para um melhor convívio

Às vezes, tenho a impressão de que a minha vida se divide em ciclos semestrais. Em setembro do ano passado, após me deparar com a morte de uma amiga muito querida, simplesmente parei de escrever. Confesso que não fui capaz de lidar com a morte repentina dela e também achei bastante difícil tratar isso a distância (já que hoje moro em outra cidade). E a forma que meu cérebro processou a informação foi me arrancando a inspiração para escrever. Junto com ela, enterrei as palavras escritas.

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Um dia ou outro, eu sentei em frente ao computador e tentei rabiscar alguns pensamentos. Mas nada saiu. Tentei mudar a estratégia, peguei uma caneta e me debrucei em cima de um caderno. E o vazio continuou me assombrando. Foram meses difíceis pra mim. Nenhuma ideia minha conseguia chegar à folha em branco. Nada.

Minha carreira de escritora, que mal havia começado, chegara ao fim. Um fim da linha precoce. Mas eu simplesmente me via de mãos atadas, sem saber para aonde ir com a falta das palavras. Parecia que algo estava incompleto em mim (e realmente estava). Percebi durante esse tempo que nada sou sem a escrita, sem os sentimentos colocados sobre as linhas imaginárias de uma folha em branco.

Me restou apenas o pensamento, a reflexão... Afinal, o que será que essa escassez de inspiração teria para me mostrar e ensinar? E a bomba-relógio tiquetaqueava dentro de mim, prestes a explodir a qualquer momento. E se as palavras não saíssem, eu mesma explodiria de agonia e desespero.

E hoje, durante uma caminhada na praia, comecei a pensar em tudo o que me cerca, dos problemas às alegrias. Das dores ao privilégio de simplesmente ter mais um dia pra mim. Enfim, fiz o exercício de tentar me ver através de outro ângulo, outra perspectiva.

Foi então que percebi que a morte me fez ter medo da vida e dos laços que criei com tudo o que me cercava, sejam com pessoas, com momentos, com lugares. Me vi completamente desapegada de tudo e, consequentemente, sem muitas emoções para expor.

É dolorido admitir isso. Como explicar que os meus sentimentos não fazem mais sentido (ou pelo menos não o mesmo sentido que um dia já fizeram)? Como explicar que tudo aqui dentro de mim mudou? Como explicar que o afeto anda difícil de me afetar?

E como uma ficha que cai, percebi que foi por isso que parei de escrever. Foi por não saber lidar com a dor que talvez o meu subconsciente tenha blindado as minhas emoções. E agora, assim estou, seca e vazia, a procura daquele amor que sempre me moveu a ser melhor e a lutar por um mundo mais bonito.

Ainda não sei o que fazer com isso, mas senti uma pitada de felicidade por ter conseguido escrever até aqui e ter colocado alguma coisa pra fora de mim. Por enquanto, peço humildemente que aceitem minhas sinceras desculpas em caso de rispidez da minha parte ou alguma falta de atenção e carinho. Por ora, desculpem-me o transtorno, estou em manutenção para um melhor convívio coletivo e trabalhando para iniciar um novo ciclo.

Mariana Monge é jornalista e colaboradora do Lado B. Mais textos da autora na página Mariana Monge.




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