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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

04/05/2016 06:10

Diário de 1959 revela juras de amor que um escrevia escondido do outro

Paula Maciulevicius
Caderno de recordações foi testemunha do amor de Mariana e Antanas de 1959 até 1974. (Fotos: Alcides Neto)Caderno de recordações foi testemunha do amor de Mariana e Antanas de 1959 até 1974. (Fotos: Alcides Neto)

De 1959 a 1974, Otto escrevia para Nenza juras de amor que tinham de sinceridade o mesmo que de perfeição na caligrafia. Ela retribuía, assinando com o apelido que trazia da infância. Ele terminava com o nome mesmo, como fora registrado.

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Nas primeiras páginas, o caderno traz a escrita das amigas de Mariana Saltão na década de 1940 e eram guardados como recordação da época de escola. Oito anos depois de se casar com Antanas Maciulevicius, em 1959, é que as folhas se tornaram dos dois, testemunhas de um amor que buscava na poesia e na meninice, palavras para descrever tamanho sentimento de um encontro de almas.

Na semana que passou é que, durante uma arrumação de armários, fui apresentada aos meus avós que se foram antes que eu pudesse conhece-los. Nenhuma história contada anteriormente traduzia tão bem o que fora – para ambos – um amor arrebatador e eterno quanto a própria escrita deles.

"... Hoje ... Fevereiro de 1959..." Era assim que meu avô começava cada carta que deixava. Ali, no primeiro registro, Otto voltou aos anos da meninice, quando à sombra das palmeiras sonhava com ela, quem viria a ser a rainha da sua vida?

"Onde haveria de encontrá-la? Ficava a sonhar que castelos de ilusão que eu, igual a um gigante, haveria de atravessar muros cercando-a de carinhos e de felicidades para que nada faltasse à minha deusa. E hoje, completando 40 anos percorridos ao despertar dos primeiros sinais de outono, o que eu fiz na vida, o que ofereci à minha deusa encantada, o que estou oferecendo e o que poderei oferecer ainda quando faltam tão poucos anos nesta passagem da terra. Seria eu o culpado, ou o destino assim quis que fosse quase nada, a não ser este amor egoísta que te dei meu amor e que tanto preciso de você para terminar esta jornada. Antanas7 de fevereiro de 1959."

O casal em 1975. Ele buscava na saudade a poesia para escrever à rainha de sua vida. O casal em 1975. Ele buscava na saudade a poesia para escrever à "rainha de sua vida".

A assinatura sempre vinha no final, junto do dia em que o sentimento encontrou o papel.

Foram 20 dias até vir a resposta. Ele escrevera sem ela ver e de surpresa, quando encontrou, Mariana retribuiu à altura, da mesma forma que o amado. Começando com "Hoje" e terminando com sua assinatura de menina - Nenza - e a data.

"Hoje

Não posso descrever com palavras a emoção que senti ao ler o que escreveste. Estás muito enganado querido, deste-me o maior presente que existe na terra, pois dando-me amor, carinho e os nosso filhos. Esqueceste-se amor? Deu-me a felicidade. Que mais posso desejar nessa vida? A não ser pedir a Deus para que possamos seguir sempre unidos por este amor e assim terminaremos a jornada que tão felizes empreendemos juntos. 

Nenza, 26 de fevereiro de 1959."

Mariana era campo-grandense, morena de olhos verdes e dona de uma generosidade proporcional à pressa que tinha para viver tudo ao mesmo tempo e agora. Antanas era estrangeiro, nascido na Lituânia, veio para o Brasil ainda criança. Loiro, alto e que carregava uma timidez indescritível por trás dos olhos azuis. Chegou a Campo Grande em 1950, como funcionário da Camargo Corrêa para a construção do aeroporto na cidade.

Morava num hotel na Rua Cândido Mariano, de frente para a casa do padrinho de Mariana, onde os olhos dos dois se encontraram primeiro para repetidas vezes pelo resto de suas vidas por aqui.

Casamento aconteceu sete meses depois do início do namoro e é descrito abaixo, por ela, quando eles comemoravam oito anos juntos. Casamento aconteceu sete meses depois do início do namoro e é descrito abaixo, por ela, quando eles comemoravam oito anos juntos.

Admiradora declarada de quem decide dizer “sim” no altar, se tivesse o presente da convivência com a vó Mariana, eu obviamente a teria feito contar esta cena um milhão de vezes. Para minha sorte, ela escreveu como foi sua entrada na igreja, desde a decoração ao amor que a envolvia até a chegada diante do noivo. Parece que sabia que isso mataria a curiosidade da neta pelo seu grande dia. Reli repetidas vezes as palavras dela e imaginei como num filme como fora a troca de alianças dos dois.

"Hoje 7-4-59

Oito anos

Parece-me que foi ontem que entrei naquela igreja toda enfeitada de lírios brancos, caminhava tão devagar e olhando sempre um alguém que estava ao pé do altar, este alguém era o meu amor, aquele que escolhi para o meu companheiro de toda a vida. Sou muito feliz, muito feliz porque depois de oito anos ainda o amo, ou talvez mais ainda do que naquele dia tão lindo em que nós nos casamos, e, agradeço a Deus, de todo coração tamanha felicidade. 

Com carinho, Nenza."

Os dois começaram a namorar num piquenique que aconteceu na Base Aérea, em comemoração ao 7 de Setembro e se casaram sete meses depois. Na penúltima carta é que se consegue saber quando é que as declarações eram feitas. Nas viagens que Mariana fazia, a saudade foi o que levou Antanas ao encontro com a caneta e o papel. De 1959, a folha pula para o ano de 1964 e mostram que eles já caminhavam para a velhice. Como estrangeiro, meu avô trazia na memória o branco da neve e recorreu ao passado para pontuar o que esperava o futuro tão próximo e ao mesmo tempo já curto a eles.

"Hoje

Janeiro 1964

Quando a neve aos primeiros passos do inverno começa a colorir teus cabelos, recordo com saudade os anos percorridos de felicidade e amor junto a teu lado minha querida. E cada vez que ficas ausente, aumenta minha saudade num delírio ou receio de perder-te e nesta saudade egoísta, quero-te cada vez mais só para mim e nesta solidão, onde se perderm as ilusões no horizonte da vida, é que sinto o quanto necesside de ti, meu amor.

Antanas, 27 de janeiro de 1964."

Assim como as palavras se encontravam no diário, Mariana e Antanas tiveram olhos um para o outro a vida inteira. A última carta, não chegou a ser terminada. Se imagina que a amada deve ter chegado no exato instante em que ele, inspirado, começava a escrever.

"Hoje, outubro de 1974".

No caderno de pensamentos de Mariana, Otto não escreveu mais. Ele morreu em 1985, ela, cinco anos depois. No intervalo da despedida, era frequente vê-la de olhos marejados e o caderno à vista. Quando a saudade apertava, Mariana recorria às juras feitas nas últimas cartas de amor.

Antanas não terminou a última carta. A gente imagina que foi porque a amada chegou em casa. Antanas não terminou a última carta. A gente imagina que foi porque a amada chegou em casa.



Obrigada por compartilhar tão linda história. (Olhos marejados)
 
JESSICA MACHADO GONÇALVES em 04/05/2016 09:47:54
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