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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

31/05/2016 06:10

Dormindo na rua, Maria anda o dia todo cheia de sacolas e comove moradores

Thailla Torres
De poucas palavras, o gesto foi um tchau e agradecimento pelas doações recebidas. (Foto: Marcos Ermínio) De poucas palavras, o gesto foi um tchau e agradecimento pelas doações recebidas. (Foto: Marcos Ermínio)

Todo dia a cena se repete. Na Rua da Paz, em frente a um estabelecimento comercial, Maria Fátima Correa, de 60 anos, se levanta às 5h da manhã. Dobra o cobertor, ajeita a roupa e cuidadosamente organiza suas sacolas onde carrega o pouco do que tem na vida.

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Se você passa normalmente antes das 7h pelo Centro da cidade, já deve ter visto a senhora baixa e de cabelos grisalhos, que chama atenção pela jeito asseado e a força, carregando quase 10 sacolas nos braços. 

O Lado B foi em busca da história de Maria e acabou se deparando com uma realidade bastante triste. Morando na rua há seis meses, o olhar tímido mostra o receio a estranhos. Encolhida em um cobertor macio, doado naquela noite, ela senta e com apenas um gesto mostra que aceita uns minutos de conversa antes de dormir.

É preciso chegar bem perto e se dedicar a uma leitura labial para compreender o que ela fala. Em pouquíssimas palavras, resume de onde veio e o porquê de morar ali.

Em poucas palavras, diz que morava com uma filha no bairro Vale do Sol. (Foto: Marcos Ermínio) Em poucas palavras, diz que morava com uma filha no bairro Vale do Sol. (Foto: Marcos Ermínio)

Maria conta que veio de Minas Gerais e, antes de ir morar na ruas, vivia com uma filha no 'Vale do Sol'. Sem mencionar o nome, ela só faz um sinal com a cabeça de que não sabe onde ela está hoje. O motivo de viver tão longe de casa, ela justifica, mas não convence. "Era muito longe e eu queria vir para a cidade, levava muito tempo", diz. 

Ela diz que foi casada durante 40 anos, mas não responde como foi o tempo ao lado do marido. Com gesto de sim, afirma que sabe ler e escrever e mais um vez, em poucas palavras, olhando nos olhos, solta o próprio sonho: "Queria ter uma casa para morar", resume. 

Durante a noite, vizinhos se aproximam para lhe entregar um alimento, doar roupas, cobertores e um pouco de atenção. Mas quase ninguém sabe a história de Maria. 

O pecuarista Vitor Zambamn, de 52 anos, aparece para entregar uma sacola com bananas e bolachas macias. Por saber que ela não tem dentes, leva um lanche para que não sofra na hora de mastigar. Maria recebe o pacote e, ao ver o lanche, sorri em forma de agradecimento. 

Vitor explica que já morava por ali quando Maria apareceu e que muitos já tentaram ajudar, mas ela não quer sair das ruas. "Fico com uma pena, vendo ela sozinha. Cada hora ela diz uma coisa e a gente fica sensibilizado, porque vemos um contraste enorme na sociedade", comenta.

Nas mãos estão sinais do tempo em que vive nas ruas. (Foto: Marcos Ermínio) Nas mãos estão sinais do tempo em que vive nas ruas. (Foto: Marcos Ermínio)

Com as mãos frágeis e as unhas descuidadas por conta do tempo, Vitor contratou uma manicure para ainda nesta semana atender Maria e completa dizendo que não é todo o dia que ela está séria. "Tem dias que ela dá bastante gargalhada", garante. 

Maria dorme no chão em frente a uma clínica de cirurgia plástica, os donos não se incomodam e ela retribui da mesma maneira. "Parece que ela não quer incomodar. As vezes ela deixa as coisas dela e a gente guarda durante o dia por conta de outros andarilhos. Mas ela não incomoda, quase não fala e a gente mal sabe a história dela", explica a secretária do estabelecimento, que prefere não ser identificada. 

Durante o dia, ela anda pelo Centro da cidade. Sempre carregando as sacolas, a força que tem aos 60 anos destoa das mãos ressecadas e dos pés com rachaduras, sinais de que há muito tempo vem sofrendo com a vida na ruas. 

Durante o dia anda pela cidade carregando as sacolas. (Fotos: Marcos Ermínio) Durante o dia anda pela cidade carregando as sacolas. (Fotos: Marcos Ermínio)
Cheia de peso, ela pouco fala com as pessoas. Cheia de peso, ela pouco fala com as pessoas.

A psicóloga Márcia Bertola explica que, em muito casos, pessoas que vivem por muito tempo nas ruas podem ter falhas de memória e uma negação da realidade em que viveu. É como se, aos poucos, fossem perdendo a própria essência. No entanto, ressalta que são apenas exemplos.

"Se for um mecanismo de defesa do ego, ela pode sofrer com o esquecimento, o que muitas vezes é um recurso inconsciente. Por isso, no caso desta senhora, deveria ser atendida, avaliada e ter todos os cuidados necessários, para garantir a saúde física e mental", reforça.

E mesmo diante da incerteza da vida, fica aparente a força e coragem de Maria. Anda por aí sozinha e parece não ter medo do que encontra pela frente. Quando retorna para o chão frio onde dorme, eis a cena que se repete. Deixa as sacolas de lado, ajeita o chinelo rosa de canto, com alguns jornais e pedaço de papelão arruma a própria 'cama'. Se cobre até a cabeça, adormece e talvez sonhe com algo que nunca saberemos.

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Comovente... principalmente nestes dias de chuva e frio!
 
Rogério Possionatto em 01/06/2016 15:38:25
A vejo todos os dias, ao passar pela barão do rio branco, na altura do Belmar fidalgo.
 
Bey em 31/05/2016 14:58:06
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