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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

20/07/2015 14:43

Ele conseguiu vencer um tumor no rim, mas morreu atropelado ao comprar xarope

Ângela Kempfer
José Wellington Pinto morreu no dia 15 de maio.José Wellington Pinto morreu no dia 15 de maio.

No ano passado, José Wellington conseguiu se livrar do tumor em um dos rins. Mas quando a família comemorava tamanha vitória, a vida mostrou ser muito mais frágil. Ao atravessar a rua para ir à farmácia, comprar xarope, em um dia como qualquer outro, o senhor de 64 anos morreu atropelado.

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Resistiu ao câncer, mas não conseguiu escapar da violência no trânsito de Campo Grande.

A dor ainda é recente, são apenas 2 meses desde o acidente na Rua Brilhante. Mesmo assim, quem sofre ensina. O economista Cleber de Amorim Borges, de 39 anos, é a voz da experiência hoje. Fala sobre o padrasto que ganhou importância de pai, mas foi levado sem aviso prévio.

Cleber de Amorim Borges é a voz da experiência hoje.Cleber de Amorim Borges é a voz da experiência hoje.

 

Quando busco na minha memória, sem muito esforço eu consigo lembrar a primeira vez que te vi. Eu tinha seis anos de idade...

Não seria nada fácil pra você... ter conquistado minha mãe e agora conquistar o filho. Lembro-me daquele dia: Vocês dois sentados no sofá da sala apertada e eu no meio dos dois... Assim tinha que ser o namoro, afinal eu era o homem da casa.

Desde então, sucederam muitos desafios. Mas agora eu tinha um pai. E que diferença isso fez! Não consigo nem imaginar como seria se Deus não tivesse colocado você no meu caminho.

Lembro-me de você ficar horas ao meu lado me ensinando a ler. Nossa, quanta coisa eu aprendi junto, quanta coisa aprendemos um com o outro. É tão difícil lembrar hoje!

Quando terminei o 1º grau... o 2º... o 3º... Quando tive que te contar sem palavras a minha mais profunda intimidade... Quanto amor você demonstrou. Te devo tanto. Mas o destino e a vontade de Deus não me permitiu devolver a você.

Um dos momentos mais difíceis para mim foi quando você me falou da doença. Claro que eu não chorei na sua frente, mas foi tão difícil! Nossa, que medo eu tinha de te perder. Quando você retirou um dos rins fiquei aliviado junto foi o maior medo.

Não consigo acreditar que era seu corpo estendido no asfalto. Na última hora, no último instante... Cheguei atrasado!

Poderia escrever um texto onde a indignação fosse o que ficasse mais evidente, com todo o descaso pela vida. Onde as pessoas tiram fotos do corpo de alguém sem saber que postar isso em rede social é uma violência quase tão grande quanto aquela que te levou. Mas não é justo que só eu me sinta indignado. Existem tantos pais... tantos Josés que o trânsito matou...

Eu tenho plena certeza que a vida continua, faz parte da minha crença. Eu sei que vamos nos reencontrar novamente.

Que o tempo passe rápido, mas que tanta dor não seja em vão... Que ninguém mais tenha que vencer uma doença tão terrível e pelo descaso das autoridades e a nossa própria complacência, morra ao atravessar uma rua.

Uma das coisas mais difíceis a ser alcançadas pelo ser humano é o pleno conhecimento de si mesmo, tão cantado pelos poetas e recomendado pelos sábios da antiguidade. Essa busca se perde nos evos dos tempos.

A grande verdade que constatamos é que ninguém sabe o que sucederão nos próximos segundos, nem tão poucos qual será a nossa condição diante do inesperado.

Quantos milhares de vezes que tivemos oportunidade de dizer a alguém que está ao nosso lado no caminho? Mas vivemos correndo atrás de algo ilusório, não observamos mais nada além do tempo que se esvai nos vãos dos nossos compromissos. Tolos compromissos... Nenhum deles tem a menor importância. Só agora isso fica muito claro.




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