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Campo Grande, Sexta-feira, 02 de Dezembro de 2016

07/03/2016 06:23

Ele não sabia porque estava batendo, mas Cida sabe porque apanhou durante 3 anos

Paula Maciulevicius
De nome fictício, a diarista de 47 anos é uma das personagens que o Lado B ouviu para desconstruir frases tão enraizadas quanto a violência no nosso cotidiano. (Fotos: Paula Maciulevicius)De nome fictício, a diarista de 47 anos é uma das personagens que o Lado B ouviu para desconstruir frases tão enraizadas quanto a violência no nosso cotidiano. (Fotos: Paula Maciulevicius)

"Eu apanhava por causa de ciúme. Ciúme doentio. Ele não deixava eu trabalhar, não deixava eu fazer nenhum documento meu, nada. Se eu fosse no mercado ele falava que eu estava dando pra um homem, dando pra outro”.

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Durante três anos e meio foi essa a cena vivida e revivida por Cida. De nome fictício, a diarista de 47 anos é uma das personagens que o Lado B ouviu para desconstruir frases tão enraizadas quanto a violência no nosso cotidiano, como “Eu não sei porque estou batendo, mas ela sabe porque está apanhando."

“Biscate, puta, sem vergonha. Ele repetia isso, não confiava em mim e nem na minha sombra. Em nada, em ninguém. Eu ia ali, ele pegava meu celular. Dizia que eu estava ligando para macho. Quebrou 15 celular meu”.

A primeira agressão foi no início da relação, os dois moraram por três anos e meio debaixo do mesmo teto. O local, a diarista nunca esqueceu, nem a força dos socos, nem o aperto na garganta.

“Foi lá perto do Ceasa, ele me chamou para sair, vamos? Eu falei vamo. Chegou perto do Ceasa, ele me deu um pau. Pegou minha garganta assim, apertou, e eu ajoelhei. Para, para para”.

Após cada agressão ou xingamento, o que ficava era a dor de ter sido surrada por um homem, por causa de homens. Após cada agressão ou xingamento, o que ficava era a dor de ter sido surrada por um homem, por causa de homens.

O marido batia sem dó. Com bebida ou sem bebida da parte dele, Cida apanhava na cama, no quarto, na sala, na rua, no shopping. “Era murro, apertão, tapa, no meu olho...” exemplifica. “E eu não sei, ele batia em mim sem saber, sem motivo. Eu não sei, essa doença, existe uma doença...”, procura respostas.

Desde a primeira vez, ela achou que todas as vezes seguintes seriam “a última”. “Sabe aquelas pessoas que não confia? É isso”, tenta justificar Cida. Ela só não era chamada de bonita, porque de resto, de “sem vergonha” para baixo, era acusada a cada minuto de traição.

“Ele cheirava a minha roupa, quantas vezes rasgou minha roupa... O que ele dizia para mim? Que a gente é biscate, vagabunda, tudo safada. Eu achei que precisava de um tempo para viver com ele, para mudar. E foi pior. Ele tinha planos de matar eu, ele ia matar eu”.

Quando ela conseguia por o nariz para fora, os olhos tinham de ficar fixos no chão. Ela não podia responder nem cumprimentos masculinos, porque só de estar na rua, já era motivo de estar traindo. “Ele só falava isso e pior do que quem está traindo, é quem bate em você”, avalia hoje.

Cida não lê, não escreve e nunca frequentou escola. Tinha como sonho um casamento feliz. Mas viveu o oposto disso. “A gente pensa que vai casar bem e é um inferno a nossa vida”. Até de banhos ela era privada. Quando o marido saía para trabalhar, era preciso que ele voltasse, sentisse o cheiro dela, para ter a garantia de não ser surrada.

“Eu não podia tomar banho. Não podia usar perfume. Se eu usava, era para a rua, porque eu estava na rua, queria ir para a rua. Tinha que andar fedida. Eu tinha que esperar ele chegar e ele cheirava até a minha calcinha”.

Depois de cada agressão ou xingamento, o que ficava era a dor de ter sido surrada por um homem, por causa de homens. Um singular que decidia por um coletivo e que era surdo aos gritos de “pare” de Cida.

Foram quatro boletins de ocorrência. Quatro e mais comparecimentos à Casa da Mulher Brasileira para prestar depoimento. Para Cida, ela apanhava por ciúme, doença, obsessão e precisou por as roupas do marido para fora de casa e registrar a quarta queixa para ter direito a ter perfumes na prateleira do quarto.

“Por que ele me batia? A pessoa não sabe viver, não confiava em mim, em ninguém e eu não tinha paz. O que eu senti quando ele saiu de casa? Nada! Eu sabia que uma hora eu ia morrer, então era melhor ele sair”.

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Hoje Cida tem vários perfumes e pode usá-los sem medo. Hoje Cida tem vários perfumes e pode usá-los sem medo.



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