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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

11/08/2016 07:56

Faixa-preta em judô, sensei Sato vende ovos para sobreviver aos 80 anos

Naiane Mesquita
Sensei Sato vende ovos para moradores da região (Foto: Alcides Neto)Sensei Sato vende ovos para moradores da região (Foto: Alcides Neto)

Todos os dias, às 6h30 da manhã, "Sensei", como é conhecido, arruma cuidadosamente as caixas de ovos que irá vender no dia. Em pé a maior parte do tempo, apesar das dores constantes no fêmur, o professor faixa-preta em judô conta apenas com o auxílio de uma bengala, que ele volta e meia deixa descansando no cantinho ou nas grades da prateleira. A rotina é repetida todos os dias nos últimos meses e no mesmo ponto, em frente a Amape (Associação de Moradores do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian), onde lecionou por quatro anos.

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“Eu tinha contrato com a associação durante a gestão passada, quando o Bernal entrou fui exonerado e fiquei um ano sem receber. Continuei trabalhando mesmo assim, até que não teve jeito, tive que cair fora”, relembra.

Sensei, o professor em japonês, ainda é cumprimentado pelos alunos da associação, que costumam andar pelas redondezas. Apesar da exoneração, o judoca confessa que as dores físicas também o impedem de treinar com mais afinco. “Na verdade eu gosto muito de judô, mas eu parei também por causa da perna, por causa de desgaste físico, hoje para treinar está dificil. Tenho esse desgaste no fêmur, sinto muita dor. Já fiz de tudo para melhorar, mas o médico indicou apenas cirurgia, como é perto da coluna, prefiro não mexer”, explica.

Sensei trabalhou durante quatro anos nas aulas de judô da Amape (Foto: Divulgação)Sensei trabalhou durante quatro anos nas aulas de judô da Amape (Foto: Divulgação)

Aos 80 anos de idade e apesar das dores para se locomover, Noritoshi Sato tem bom humor e memória de sobra. “Vamos ver se você acerta a escrita do meu nome”, ri. O trabalho que começa bem cedo só termina às 17 horas, com tempo para bater um papo com os antigos vizinhos e alunos que passam por ali. Dos treinos ele sente falta, mas sabe que as contribuições são voltadas mais para a disciplina e orientação. “Não tenho como treinar, mas sinto muita falta de orientar e da parte de disciplina, que são coisas muito importantes para o esporte”, ressalta.

Vivendo apenas com a aposentadoria, um salário mínimo, Sensei precisou mudar de casa, do Maria Aparecida Pedrossian para o Noroeste e voltar para a venda de ovos como meio de sobrevivência. “Estou fazendo isso para quebrar o galho”, confessa. A caixa com 30 unidades sai no valor R$ 12,50 e o produto vem direto da cooperativa. Quem compra acaba perguntando como vai a saúde de Sensei e as novidades da família.

As histórias do faixa-preta sempre aparecem. Desde de ter conhecido o primeiro medalhista olímpico brasileiro Chiaki Ishii até ter participado do programa da Hebe Camargo em 1967. “O Chiaki quando chegou do Japão treinou na academia em que eu fazia parte, a Kai Dokan. Eu tive vários alunos que foram campões mundiais, nacionais, mas a memória não ajuda muito”, brinca.

Mesmo com a idade é difícil não se impressionar com a memória de Sensei. Até o mês em que mudou-se para o Japão, agosto de 1989, ele guarda. “Fiquei dez anos lá, quando voltei em 1999 e direto para Campo Grande. Viemos para cá mais pela minha sogra. Não tínhamos casa quando fomos embora, então já compramos aqui”, explica.

Ovos tem padrão de qualidade Sato (Foto: Alcides Neto)Ovos tem padrão de qualidade Sato (Foto: Alcides Neto)
Sato tem saudade do tatame (Foto: Alcides Neto)Sato tem saudade do tatame (Foto: Alcides Neto)

O judô entrou na vida de Sato bem antes, aos 20 anos de idade. “Comecei a praticar tarde, mas eu treinei bastante para recuperar porque muita gente não conseguia e eu consegui. Naturalmente para dar aula tem que ser faixa-preta, terceira dan. A única época que parei de treinar foi quando fiquei no Japão, depois voltei”, frisa.

Sato não é campo-grandense, nasceu em Bastos, interior de São Paulo e terra do ovo. “Mas, não é por isso que eu to vendendo ovo”, ri, para em seguida completar. 'Foi a única coisa que eu consegui fazer agora”.

Casado há mais de 40 anos, ele tem dois filhos, um que mora até hoje no Japão e outra que veio embora junto com os pais. “Tem que melhorar a renda”, frisa.

Por ser tão querido pelos judocas daqui, o presidente da associação Janio Batista Macedo fez questão de escrever uma publicação contando brevemente a história do atleta. Com cerca de 800 curtidas e 500 compartilhamentos, a intenção é alavancar a venda de ovos de Sensei ou trazê-lo de volta ao tatame.

“Eu o encontrei vendendo ovos há quatro anos e quando soube da sua história eu acabei conseguindo que ele fosse contratado pela prefeitura. Ficou trabalhando conosco durante quatro anos. Ele é faixa-preta de um grau altíssimo de conhecimento, sempre contribuiu para o nosso trabalho”, explica Janio. As provas são os certificados e a documentação que Janio teve acesso. “Dizem que ele tem uma foto com a Hebe Camargo”, conta.

Sato não assume e confessa que nunca nem viu a gravação do programa. “Na época eu não sabia que dia iria passar e acabei nem vendo. Mas quem assistiu conta que foi bom”, brinca, mais uma vez.

Quem quiser comprar ovos de Sato, o endereço é avenida Orlando Daros 279, bairro Maria Aparecida Pedrossian




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