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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

12/02/2014 06:59

Guardado por 30 anos, enxoval é baú da felicidade de mulher que nunca se casou

Paula Maciulevicius
O baú vira caixinha de surpresa para a senhora que não se lembrava do que havia guardado numa vida que ficou em cima do armário. (Fotos: Cleber Gellio)O baú vira caixinha de surpresa para a senhora que não se lembrava do que havia guardado numa vida que ficou em cima do armário. (Fotos: Cleber Gellio)

Em meio à poeira, traças e marcas do tempo, que não tem piedade de ninguém, está o passado que nunca foi o presente e nem tampouco seria o futuro de Rosa. O destino ou talvez suas próprias escolhas não a deixaram usar nada do enxoval de casamento que permaneceu guardado por mais de 30 anos no baú que ela chama de felicidade.

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Aos 63 anos, Rosa Faustino Fogaça espera ansiosa para abrir o tal baú. De madeira, pesado, grande e em cima do armário. Ela, por sua vez, estava pronta. Não sei explicar o porquê, mas para nós aceitou abrir o passado guardado. Nem a pedido da sobrinha e afilhada ela tinha aceitado.

“Não tem problema, pode deixar que eu limpo”, diz a sorridente senhora ao nosso fotógrafo. “Nem lembro mais o que tem, agora até eu estou ansiosa. Desde que coloquei aqui, olha quanto tempo faz? Nunca mais abri”.

Ela justifica: o enxoval era intocável pela dificuldade em tirá-lo de onde ficou nas últimas três décadas. “Eu era nova, tinha 18, 19 anos, e comprava à prestação. A gente não tinha dinheiro e ia comprando e guardando. Eu tinha um monte de amigas e todo mundo achava que ia casar. Elas casaram, como eu nunca casei, ficou guardado”, argumenta.

Sem nem pensar nas emoções remexidas, ela escancara o que nunca mostrou a ninguém.Sem nem pensar nas emoções remexidas, ela escancara o que nunca mostrou a ninguém.
Sem nem saber se o que ficou intocado por ela, sobreviveu à poeira e às traças. Sem nem saber se o que ficou intocado por ela, sobreviveu à poeira e às traças.

Baú de madeira, cadeado rompido, história comida pelo tempo. Antes de qualquer olhadinha, ela busca um paninho para limpar. Era preciso. Afinal, é a poeira de uma vida que ficou guardada. Sem nem pensar nas emoções remexidas, ela escancara o que nunca mostrou a ninguém, prevenindo “eu não sei se está inteiro ainda”.

O baú vira caixinha de surpresa para a senhora que não se lembrava do que havia guardado para usar, numa vida que ficou em cima do armário. “Isso daqui? Nem vou contar, é que um tive namorado e ele me deu de presente e eu guardei, foi num final de ano. Eu nem lembrava mais, olha isso aqui?” . O entusiasmo dela levava a crer quem ouvia de longe a conversa que Rosa abria um baú de brinquedos novos.

Talvez para ela, o olhar fosse esse. Para nós, era uma porção de pertences confinados durante anos. O tal presente do namorado estava em uma caixa. Era a escova de cabelos, um espelho, o pente e um cartão. Apesar da felicidade em reencontrar o que um dia ela mesma abandonou, Rosa não se via naquilo.

“Por quê baú da felicidade? Você lembra do Silvio Santos? Eu tiro sarro de mim mesma, esse é meu baú”, conta.

“Eu nem lembrava mais, olha isso aqui?” E de repente a conversa vira um monólogo, em que ela fala e o passado guardado só ouve. “Eu nem lembrava mais, olha isso aqui?” E de repente a conversa vira um monólogo, em que ela fala e o passado guardado só ouve.

Camisola, anágua, pano de prato, caminho de mesa, toalha de mesa, de banho, lençol, colchas, tecidos e confecções que nem se usam mais, mas seriam um baú de tesouros, se novos, para uma noiva prestes a se casar. “Esse dá para enfeitar a casa. Olha, isso era bibelô, que judiação. Não é do seu tempo, mas olha que bonitinho”, comenta consigo mesma.

Da terceira peça em diante, viramos meros espectadores de uma senhora conversando com o passado, sobre uma vida nunca experimentada . O avental, assim como uma parte do enxoval, estava estragado, mas havia o que pudesse ser salvo. “Vou lavar e botar tudo de molho, ver o que dá para aproveitar”.

Além dos itens comprados, tinha também o que foi feito de próprio punho, por Rosa, ou pela mãe. “O crochê foi minha mãe que fez, esse está inteirinho, só está sujo. Tem ideia de um negócio desse? Eu nunca vi isso na minha vida, que bom que fui abrir! A gente comprava com sacrifício, eu nem sabia quanta coisa mais tinha aqui dentro”, afirmava frase por frase, uma seguida da outra.

“É verdade, eu nunca casei, ninguém quis”, diz rindo de si mesma. A verdade não é essa. Talvez o motivo tenha ficado guardado junto com o enxoval. O namorado que viria a ser o noivo morreu em um acidente de carro. Mas a solteirice não veio em razão do sentimento por ele. Antes mesmo de tudo acontecer, os sonhos que tinha durante a noite pareciam lhe trazer a realidade: ela nunca iria se casar.

“Eu sempre sonhava que eu chegava de noiva e ele não chegava. Então eu tinha certeza de que não ia dar certo. Eu tinha esse sonho, era engraçado porque parecia uma premonição”, descreve. Como católica fervorosa, a senhorinha pedia para que, se não fosse dar certo, o melhor era nem ter. “E com ele, eu não achava que ele era sabe? Eu nunca tive paixão. Casar, também não seria com ele. Quando tem que acontecer, acontece”.

Os anos passaram e com eles vieram obrigações que Rosa tomou para si. “Minha mãe ficou doente e eu achava que tinha que cuidar dela, ela morreu, depois eu cuidei do meu pai e fiquei cuidando deles. Sabe, como eu nunca mexi nisso, ficou ali, guardado”, aponta para o baú.

Para reforçar a opção, ela assinala que as pessoas mais importantes foram o pai e mãe. Pergunto se ela se arrependeu ou lhe veio qualquer sentimento ao remexer o que ficou intacto.

“Nada. Não senti nada. O tempo, ele se encarrega de qualquer coisa e isso faz muito tempo. Agora é lavar e colocar no baú de novo por mais 30 anos. Mas acho que não chego até lá”. Os argumentos foram ditos, as justificativas dadas, mas o fato é que Rosa manteve e quer continuar a guardar o enxoval no baú da felicidade, quer ter por perto a vida que nunca foi sua, o presente e o futuro que não lhe aconteceram.

O tempo se encarrega de qualquer coisa. Depois de lavado, enxoval volta para o baú da felicidade, quem sabe, pelos próximos 30 anos. O tempo se encarrega de qualquer coisa. Depois de lavado, enxoval volta para o baú da felicidade, quem sabe, pelos próximos 30 anos.



Paula Maciulevicius, parabéns pela matéria! Texto emocionante, correto e muito agradável de ler. Infelizmente, textos assim são cada vez mais raros. Parabéns novamente - em especial, pelo primeiro parágrafo - e faço votos que a dona Rosa encontre logo seu "felizes para sempre", como todos nós.
 
Eldes Ferreira em 13/02/2014 10:35:22
A Paulinha é danada; transforma o caderno B em C (de coração)...
O texto revela uma criatura incrível que é dona Rosa, que nunca casou - mas que não ficou amarga ou algo parecido...na televisão daria um programa especial. manoel afonso
 
manoel afonso em 12/02/2014 20:49:56
Parabéns Paula! Acho que é a primeira vez que vejo aqui um texto tão bem escrito.
 
Alessandra Pereira em 12/02/2014 20:35:06
Um texto de estória bonita e real escrito como se fosse um poema. Parabéns jornalista Paula.
 
Carlos Silva em 12/02/2014 20:26:34
Minha mãe Luiza ainda tem o seu enxoval dentro do Baú, que fez quando solteira, a luz de lamparina de querosene. Se casou com 27 anos de idade, 52 de casada. então se perguntar a ela quando iniciou seu enxoval irá com certeza ter mais de 60 anos, detalhe de vez em quando ela abre seu baú e as lembranças afloram , fala de cada peça que fez ,como que fez e por ai vai....acho que por esse motivo as peças não se estragaram, sim claro, algumas já estão amareladas pelo tempo.
 
ADRIANA TONIETTO em 12/02/2014 18:14:25
Parabéns Paula Maciulevicius, sempre arrasando com suas matérias aqui no "Lado B".
 
Antonio Mazeica em 12/02/2014 17:21:51
Rosa talvez você tenha se libertado do passado, um amor que ficou la no fundo coração agora voce está livre voe voe alto. De vez enquando temos que abrir o baú e fazer uma faxina. ROSA FELICIDADE.
 
MEIRE PEREIRA DE SOUZA em 12/02/2014 15:55:02
Parabéns por essa matéria, muito linda essa história, ao mesmo tempo muito triste, esperar por algo que nunca aconteceu.
 
Caroline Mena em 12/02/2014 15:20:43
Que história impressionante. Lindo texto e linda abordagem. Parabéns, Paula!
 
Thayara Barboza em 12/02/2014 14:20:22
Paula Maciulevicius Parabens. Fantástica matéria. A história é linda e foi muito bem reproduzida aqui.
 
Edir Canhete em 12/02/2014 13:17:50
Muito boa a reportagem! e o texto também!
Toda equipe que participou dessa reportagem está de parabéns!
 
Camila Carvalho em 12/02/2014 12:32:57
Que história! Rosa não é só o casamento que nos trás felicidade, com certeza você é uma pessoa feliz, e isso é tudo o que te desejo.se foi sua escolha viver solteira, com sua simpatia deve ter muitas pessoas que te amam assim como eu me encantei com sua história muitos devem estar pensando "que senhora querida!"
 
Teresa Moura em 12/02/2014 11:37:09
que linda história e triste,eu também tive enxoval guardado,não por 30 mas por 4,5 anos.Mas é muito triste esperar por algo que nunca aconteceu,ainda bem que temos recomeços.Parabéns a jornalista.
 
Luciana Farias de Matos em 12/02/2014 10:57:17
Linda história!!!!
Campo Grande News me faz nunca sair da cidade Morena apesar de não morar mais aí!!!
 
Márcia Eugenio em 12/02/2014 10:55:55
Fantástica a reportagem. Parabéns, As coisas acontecem e a gente não se dá
conta. Não moro em Campo Grande, mas gosto das historias da minha cidade.
Saudades...
 
cleber pereira barbier em 12/02/2014 09:45:14
Madrinha não acredito!!! Tantas vezes quis abrir esse baú...rsrsr , minha infância inteira pedindo... Tô muito feliz em ver suas histórias compartilhadas... A senhora sempre foi o ELO da nossa família.. Amo você demais...
 
Karine Silva Fogaça em 12/02/2014 09:16:19
Matéria SENSACIONAL! Jornalista INCRÍVEL! Parabéns Campo Grande News por saber escolher profissionais como essa que sabe descrever o que não é visível e tocável.
 
Luna Mendes em 12/02/2014 08:54:19
Que história interessante! Parece uma crônica da Lygia Fagundes Teles...
Bonita e resignada: "O tempo, ele se encarrega de qualquer coisa e isso faz muito tempo"
É dona Rosa... O Paulinho da Viola entende a senhorita:
"Largo a paixão
Nas horas em que me atrevo
E abro mão de desejos
Botando meus pés no chão
É só eu estar feliz
Acende uma ilusão
Quando percebe em meu rosto
As dores que não me fez"
 
JESSICA MACHADO em 12/02/2014 08:36:37
Há mais de 15 anos não moro mais em Campo Grande. Amo essa essa cidade e não deixo um dia se quer de ler as noticias da cidade. Lado B é umas das minhas colunas preferidas, muitas histórias boas. Parabéns pela matéria.
 
Evelyn Santos em 12/02/2014 08:28:19
que história comovente, bom saber que esta senhora está em paz com o passado, que ele não lhe traz recordações tristes, que suas escolhas não lhe causaram arrependimentos. Que Deus a abençoe e ela continue feliz.
 
aparecida f. cruz em 12/02/2014 08:21:30
Que história.... triste imaginar o que poderia ter sido....guardar um futuro que não chegou a se concretizar....o amor talvez não tenha sido para amar!
 
sandra lima em 12/02/2014 07:55:36
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