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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

20/01/2014 06:22

Há 25 anos na mesma esquina, vendedora de jornal é personagem da Tamandaré

Paula Maciulevicius
Sem usar relógio, motorista nem precisa buzinar, mas ela sabe de cabeça quem passa e a que horas. (Fotos: Marcos Ermínio)Sem usar relógio, motorista nem precisa buzinar, mas ela sabe de cabeça quem passa e a que horas. (Fotos: Marcos Ermínio)

A rotina dela é a mesma há 25 anos. De ter em mãos as notícias do dia às 3h da manhã. Faça chuva ou faça sol, Marisângela Dias Lenos, de 58 anos, está na esquina da Júlio de Castilhos com a Tamandaré, vendendo jornais. Se o pé d’água é violento, ela se esconde debaixo de capa de chuva ou dentro do carro, uma antiga Parati branca, que fica estacionada ao lado do posto de combustíveis. Mas faltar, jamais. Houve apenas uma exceção, há quatro anos.

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A vendedora chega do Oliveira II, com uma garrafa de café no carro, velhinha, que ela confessa que é o xodó e 45 exemplares do jornal Correio do Estado, além do banquinho vermelho que fica no canteiro da avenida. Corumbaense, pegou ali como ponto de um senhor que se aposentou na venda e desde então bate cartão pontualmente às 4h30 da manhã.

“Tem 25 anos que estou aqui, você não era nem nascida ainda. Vendo só Correio e toda a minha vida foi nessa região, morei muitos anos aqui e conheço quase todos... Lá vem uma médica...” e assim interrompe a conversa para atravessar a rua correndo e entregar o jornal. O detalhe é que ela não usa relógio e a compradora não chegou nem a buzinar.

Na volta, ela explica: “desde quando comecei, eu sei o horário de cada um. Às vezes, deitada, de olho fechado em casa, eu escuto e falo lá vem eles”, descreve.

O marido trabalhava em fazenda, coisa que ela nunca gostou, nem quando era dona. “Eu também já tive situação financeira boa”, completa. Mas fazenda não era pra ela. “Resolvi vender, era o que eu gostava de fazer”. De início, ela tinha duas ajudantes e vendia 300 jornais por dia. Quando o azar batia à porta e o movimento era fraco, geralmente em feriados, o mínimo vendido eram 180.

Ponto é canteiro da avenida Júlio de Castilhos, próximo à Tamandaré. Ponto é canteiro da avenida Júlio de Castilhos, próximo à Tamandaré.

“Caiu demais a venda, hoje eu mexo com reciclagem de latinha, porque os jornais não estão dando mais nada. Naquela época não tinha internet, não estava na internet”, resume.

O último cliente a passar é uma autoridade que ela não revela quem é de jeito nenhum. “Ele passa às 8h, aí eu vou embora. Ele é grande, eu sempre vendia, mas não sabia quem era. Depois que eu vi ele na televisão, ele nem parece que é isso, ele não transparecia”, conta.

A rotina é puxada para Marisângela que para acordar às 2h40, precisa ir para a cama antes das 7h da noite. Em horário de verão, ainda tem sol lá fora quando ela dá o dia por encerrado.

Os 45 exemplares são todos vendidos, com exceção de um, que ela tira para si. Nos dias de venda recorde, se não fizesse isso, precisava passar em uma banca para comprar o seu. “Eu leio. Tem que ler, eu sempre tive o hábito de ler”, afirma.

A exceção que a fez faltar foi a morte do irmão, durante a madrugada por leishmaniose. “Foi um desespero. Eu nunca tinha faltado. Mas fui e expliquei, não cobraram pelos jornais daquele dia, eles entenderam”. E no dia seguinte, ela estava ali, com banquinho vermelho no canteiro e a Parati branca estacionada.

O valor é R$ 1,30, mas a maioria compra por R$ 1,50 ou R$ 2,00 e se recusa a receber troco. Há 25 anos ali, hoje ela pensa em se aposentar das manchetes e pular para os cabelos. Para este ano, Marisângela vai se inscrever num curso para trabalhar em sacão de beleza. “Vou mexer com cabelo, continuar mexendo com gente, que eu adoro”.

Por fim, pergunto, o que é notícia boa para quem vive de vender manchetes? “O que é notícia boa é o que me deixa feliz e faz vender jornal rápido. Vou falar que daí eu fico alegre quando acontece uma bomba de verdade, quando estoura sabe? O Alcides Bernal, todo mundo chia”, finaliza.

Para Marisângela, notícia boa é quando estoura bomba de verdade. Aí sim, vende jornal.Para Marisângela, notícia boa é quando estoura bomba de verdade. Aí sim, vende jornal.



Minha mãe é um exemplo de mulher lutadora, batalhadora, esforçada e corajosa! Quisera eu ter a disposição dela que, com essa idade, TODOS OS DIAS, mesmo aos domingos (que ela não vende jornal) acordar neste horário e estar disposta a trabalhar! Com ela não tem tempo ruim... faça chuva, faça sol, faça tempestade e até mesmo frio, ela está lá!!
 
Lucélia Macedo em 21/01/2014 02:30:51
Parabéns a jornalista Paula pela excelente matéria destacando o exemplo de uma cidadã brasileira, anônima para muitos, como a Marisângela exemplo de dedicação, simpatia e persistência. Eu morei naquela região durante muitos anos e comprei jornal vendido por ela durante esse período.
 
Nelson Francisco Barbosa em 20/01/2014 21:51:14
Eu sou cliente dela, sempre compro o jornal... Muito educada.
 
Ricardo Santullo em 20/01/2014 18:58:43
Ela é uma simpatia, pena q o jornal seja o Correio do Estado, aí não dá!

 
elza maria villas boas em 20/01/2014 17:34:18
Passo por ela todos os dias, exemplo de dedicação, respeito e humildade.
 
joão gois em 20/01/2014 12:28:05
Fiz muito isso, quando o correio do estado funcionava na 14 de julho ao lado da livraria troy, hoje não existe mais, é também o jornal diário da serra hoje não existe mais, na época ganhei uma bicicleta do diário da serra por vendedor mais jornal da cidade. Parabéns a essa sra. isso é um exemplo de vida.
 
Felipe Salinas Ávalos em 20/01/2014 11:38:19
Taí o exempo de uma mulher de garra, de mãe e quem sabe avó. Saúde a voce dona Maria, que Deus te abençoe sempre. Boa matéria redator!!
 
Carlos Lamarca em 20/01/2014 10:38:07
Isso sim é um Exemplo de Vida, não precisa roubar, vender drogas nada... trabalha de verdade... os meninos do Skeite vai aprendendo com ela... pois do jeito que vcs estão indo não chega nessa idade.... Parabéns Marisângela que Deus continue te abençoando muito e te dando forças para levantar a cada dia.... fique na Paz do Senhor....
 
Daril Rodrigo em 20/01/2014 09:25:13
Parabéns dona: Marisângela Dias Lenos: por esse exemplo de vida!!
 
Maria de Fátima em 20/01/2014 08:17:09
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