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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

06/05/2015 06:12

História de loja na Rua 14 guarda do genocídio armênio a grande amor italiano

Paula Maciulevicius
Seu Arthur Altounian hoje tem 90 anos de idade,  ao lado da esposa. (Fotos: Rawany Brandão)Seu Arthur Altounian hoje tem 90 anos de idade, ao lado da esposa. (Fotos: Rawany Brandão)

Uma das lojas mais tradicionais do comércio da Rua 14 de Julho guarda na sua estrutura a história de um genocídio armênio e de um grande amor italiano. O ferro usado para erguer a Casa Glória, que depois de comprado acabou cedido também ao Colégio Dom Bosco, era fruto do gingado de um comerciante nato. Seu Arthur Altounian tem 91 anos de idade, completados ontem, 50 deles de lembranças da antiga loja e sua vida contada num livro.

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A obra "O Sapateiro Descalço", da jornalista Juliana Feliz, que será lançada no dia 16 de maio, reproduz a trajetória de um homem armênio, nascido na Grécia e que ganhou a vida fazendo sapatos, ao mesmo tempo em que conta um pouco do extinto comércio no Centro de Campo Grande.

Filho dos armênios Kersan e Melkin, Arthur já nasceu na Grécia, na fuga dos pais do genocídio que a população viveu a partir de 1915. Comandado pelos otomanos, a história descreve um verdadeiro massacre, com atrocidades até hoje não admitidas pelo governo turco, mas que sempre acompanharam a família Altounian.

Obra levou quase 2 anos para ficar pronta. (Foto: Arquivo Pessoal)Obra levou quase 2 anos para ficar pronta. (Foto: Arquivo Pessoal)
Ferro usado na construção de loja veio de São Paulo. (Foto: Arquivo Pessoal)Ferro usado na construção de loja veio de São Paulo. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Houve um êxodo, meu avô era um homem riquíssimo na Turquia. Papai era rico, mamãe também. Eles se casaram novos", conta Arthur. O pai, Kersan, manipulava medicamentos num hospital alemão e pode mandar a esposa para a Grécia. Logo, ele também deixou a região. Por ocupar de certo modo um posição financeira privilegiada, ele não bateu de frente com a crueldade, como tantos outros armênios.

Com 1 ano e três meses, Arthur chegou ao Brasil. A Grécia, era à época, encarada como um "trampolim" para cá. De início, eles trabalharam numa fazenda no interior de São Paulo, até chegarem à capital paulista.

"Minha mãe começou a costurar, era o início da 25 de Março, e meu pai abriu uma pequena fábrica de sapatos. Ele fazia e vendia por atacado", recorda Arthur. Passado alguns anos, seu Kersan adoeceu e junto veio a oportunidade de se mudarem para Campo Grande, onde um amigo, da Grécia, aqui já estava.

"Meu pai veio para Campo Grande, e eu, aos 13 anos, fiquei dirigindo a fabriquinha. Fechamos e viemos para cá com 200 pares de sapatos. Ficávamos na Dom Aquino , perto de uma vila de casas, mascateando", descreve.

Com o tempo, Arthur prossegue dizendo, um 'patrício', também armênio, lhes ofereceu uma portinha para um pequeno comércio na 14 de Julho. "Ele tinha uma barbearia e ali, na portinha, nós começamos a fazer a Casa Glória. Passamos para a loja quando eu completei 18 anos", pontua.

Casal: Elisa e Arthur, com filho. (Foto: Arquivo Pessoal)Casal: Elisa e Arthur, com filho. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na Capital, a família Altounian seguiu uma certa tradição entre os armênios, de vender sapatos. Mas incrementaram às vendas também gravatas, vestidos, enxovais, malas, armarinho e tudo mais que dona Melkin enxergava que teria saída.

"Mamãe costurava para as crianças, vendia para o pessoal que saía da Noroeste e quando juntamos um bom dinheiro, compramos o terreno em frente da loja", conta Arthur.

Muito ferro - A construção levou dois anos e foi marcada pela falta de ferro no Estado. Trazida de São Paulo, a mercadoria só podia ser comprada aos montes. O resultado foi que a sobra serviu para erguer o Colégio Dom Bosco, que também teve a obra interrompida pela mesma falta logo em seguida.

O nome "Casa Glória" foi dado por seu Kersan, em homenagem a um amigo que tinha um comércio de mesma denominação em Minas Gerais. "Ele tinha um amigo que tinha essa loja em Uberaba. Quando chegamos a um nome, como ele era bem sucedido, papai fez essa homenagem", explica.

O terreno da Casa Glória deu para construir duas lojas e depois apartamentos acima, onde por muitos anos a família morou.

Amante das Artes, seu Arthur conta que aprendeu a tocar instrumentos de ouvido. Fez o curso de contador e também de Direito. Este que o levou até o amor de sua vida, Elisa Bernardi, num encontro em Cuiabá.

Os dois chegaram à cidade juntos, na época, de trem. Ela, italiana, havia estudado Enfermagem na Inglaterra e se doado por 5 anos aos serviços de obstetrícia no hospital de Roraima, atendendo na mais precária situação. Ele, formado em Direito, precisava se naturalizar brasileiro para então atuar na profissão.

À Cuiabá, Elisa tinha vindo com a missão de ser enfermeira da Funai. A paixão pelos índios e pela dedicação ao próximo a fez com que ela prolongasse sua estadia no Brasil para a permanência. Na cidade vizinha, ela conheceu Arthur e três meses depois, teve a notícia de uma transferência para a delegacia de Campo Grande.

Em 1976, o casal disse "sim" um ao outro. Tiveram dois filhos, habitaram o apartamento acima da Casa Glória até que uma cirurgia de emergência fez com que Arthur tivesse de diminuir o ritmo. O que significou, fechar as portas da loja.

"Se eu senti muito em fechar? Olha, eu já tinha chego num ponto que eu me cansei de arrumar caixa de sapato, sabe?..." as palavras de Arthur são interrompidas pela esposa, Elisa: "a cirurgia o abalou muito, eu poderia ter continuado. Mas primeiro, eu não sou de comércio, sou de cuidar de pessoas... Eu teria até continuado, mas também não estava pronta a usar os meios atuais. Na época era tudo à vista ou cheque pré-datado, agora tem todo mecanismo de crediário. E de fato, todos fecharam: a Casa Mundial, Cruzeiro, a nossa..."

O livro, que conta toda história da família Altounian, será no sábado, 16 de maio, na Livraria Leparole, na Rua Euclides da Cunha, 1126, no Jardim dos Estados. 




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