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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

29/01/2014 09:25

Lavanderia fecha após 57 anos; história começou com 2 ferros de passar na mala

Paula Maciulevicius
A história da lavanderia merecia um capítulo no Lado B. No entanto, não se imaginou que contaríamos das portas se fechando. (Foto: Marcos Ermínio)A história da lavanderia merecia um capítulo no Lado B. No entanto, não se imaginou que contaríamos das portas se fechando. (Foto: Marcos Ermínio)

Foram 57 anos passando roupas ao som da polca paraguaia vinda do radinho acompanhado de um tereré gelado. Uma das mais antigas lavanderias da cidade hoje exibe a placa de ‘aluga-se’, cinco meses depois da morte da dona Chinita. As roupas ninguém mais recebe. Assim como entrega não se faz, o chiado do ferro da Tupi não se ouve mais.

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O nome da lavanderia brincava com a origem dos donos, ‘seo’ Antônio Benitez e dona Chinita, paraguaios, vindos do país vizinho apenas com o dinheiro de um mês de aluguel no bolso e dois ferros de passar na mala. Ela, a ‘menininha’ tinha de registro o nome de Justina.

A história da lavanderia merecia um capítulo no Lado B. No entanto, não se imaginou que contaríamos das portas se fechando. De personagens, restaram os filhos e as lembranças do barulho do maquinário da rua Paissandu.

O ano era 1956 e o endereço, o primeiro dos três, na rua 14 de Julho, aos fundos da sorveteria da Mió. O começo foi simples e incerto. Os relatos da família dão conta de que foi o egresso da Segunda Guerra e parente do casal, Américo Benitez quem ajudou na compra das primeiras bancas de passar. Em seguida, veio então o primo distante, Taquapi, que trabalhou até a lavanderia fechar.

Por ali ficaram 10 anos até se mudarem para a rua Maracaju, onde enfim, a lavanderia ganhou o nome “Lavanderia e Chapelaria Tupi”. Além de tintureiro, ‘seo’ Antônio também era chapeleiro. Depois de quase três décadas no mesmo ponto, os donos do imóvel venderam o prédio e eles tiveram de mudar para onde já tinham a casa, na rua Paissandu, no bairro Amambaí. Até 1996 as entregas eram feitas por ‘seo’ Antônio, em um Fusca azul.

Casal Chinita e Antônio saindo dos fundos de onde funcionou a primeira lavanderia Tupi. Casal Chinita e Antônio saindo dos fundos de onde funcionou a primeira lavanderia Tupi.

Quando chegava à casa, a roupa parecia um presente. Embrulhada num papel rosa, de fato o que ia para a lavanderia voltava como novo. O cheiro, o bem passado, vinha tudo impecável. Antônio morreu naquele ano, vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Em seu lugar, o filho Lourenço, ficou. Veio de Dourados para cuidar da lavanderia e da mãe. Dona Chinita, apesar do sangue forte, ficou fragilizada pela perda. Lourenço, que quando criança era o responsável pelas entregas, voltou ao ofício adulto.

“Ele passava e entregava, ela marcava as roupas e coordenava as entregas. Mamãe não gostava de lavar roupa de bater, ela gostava de roupa de festa, de vestido de casamento e sempre dizia nós somos profissionais”, recorda a filha Ivone Benitez Fernandes de La Reguera.

A clientela se formou com a influência dos japoneses e libaneses, alguns deles ficaram até o ferro cessar.

A verdade é há pelo menos quatro anos a lavanderia Tupi não se pagava mais. Segundo a filha Ivone, eles mantiveram as bancas abertas porque era o movimento de passar do ferro que mantinha Chinita viva, pelos clientes fieis de 30 anos e pelo irmão Lourenço, que apesar de ser engenheiro elétrico, tinha na lavanderia uma parte de sua vida.

“O médico disse que a lavanderia era o amor da vida dela, não podia tirar. Ela morreu em agosto, morreu sorrindo”.

Dos tempos de ouro, ‘seo’ Antônio teve até chácara e ganhou um bom dinheiro. Junto da esposa criou quatro filhos e ergueu uma casa e um salão comercial só da renda da lavanderia. “Um dia meu pai colocou um banco e ficou olhando para o Horto e disse eu vi essa cidade crescer, cheguei aqui com o dinheiro do aluguel, dois ferros de passar roupa, aluguei um salão do japonês. Dormia numa caixa de papelão, a mesa era uma caixa de maçã, mas em um mês eu consegui comprar meus móveis, porque encontrei gente maravilhosa em Campo Grande, eu nunca fiquei sem serviço nessa terra”, reproduz Ivone.

No dia 11 de janeiro, às 11h30, Taquapi terminou lentamente de passar a camisa do advogado José Canrobert. Foi a última encomenda. “Ele passou bem devagar e aí entregou pra ele. O Lourenço deu a banca e o ferro de presente para o Taquapi, para o tio levar de lembrança”, narra Ivone entre lágrimas. O primo distante foi funcionário, amigo e quem dividiu a vida com os Benitez.

Do homem chamado Taquapi e uma lavanderia chamada Tupi, um dos genros do casal, Jucinaldo Campos, escreve uma homenagem. “Mas viria o tempo em que teria de passar roupa só. E a última peça de roupa a passaria devagar, propositalmente devagar, para não calar o chiado do ferro... Se é que há algo contra o que não podemos nada fiar e que é um dos tristes constados desta vida, como um tereré com água que ninguém tomaria mais e ora se esquentava num costumeiro canto do balcão, é que as máquinas têm seu ciclo, as pessoas têm seu ciclo, as cidades têm seu ciclo; o mundo tem seu ciclo e a vida de uns não se repete em horas como a gente quer...”

O ferro e as máquinas de lavar findaram seu ciclo. A lavanderia Tupi está sendo reformada para ficar só um salão comercial.




Lembro com carinho e respeito. São para mim como avós. Lembro da lavanderia na Maracaju onde sempre era bem acolhido. Tinha um papagaio que gostava de brincar, apesar do medo de criança... Saudade dos meus avós! Apesar da distância sempre estarão em meu coração...
 
José Marcos da Silva Brito em 30/01/2014 23:05:54
Lavanderia Tupi... nossa que emoção, relembrei momentos de minha infância! Conhecia a família, era amiga da Ivone e vi aqui a mensagem de outra amiga, Denise. Excelente reportagem resgatando história de pessoas que ajudaram Campo Grande crescer.
 
Mônica Curado em 30/01/2014 01:11:41
Linda e merecida homenagem! A convivência dos mais de 30 anos me autoriza a reforçar tudo o que foi escrito e comentado a respeito do "seo" Antonio e dona Chinita!
Pelo ótimo trabalho e atendimento perfeito, pela boa vontade e dedicação, mas muito mais pela garra desse casal tão trabalhador quanto digno e que deixou aos filhos, todos formados, um exemplo de vida! Parabéns, Paulinha, por contar mais essa estória! Chorei, claro... Parabéns, Lado B, matérias assim são sempre bem recebidas e necessárias em nossos dias.
 
beth saltão em 30/01/2014 01:02:18
Grata pelo carinho de todos vcs leitores e amigos, ao Campo Grande News, a Paula Maciulevicius ao Marcos Ermínio, bem dizia o papai: - Nesta terra ninguém fica sem trabalho. E eu ouso a emendar e ninguém fica sem carilho e sem acolhida. Grata. Só uma ressalva = tiveram 4 filhos e com o trabalho formaram os quatro filhos.
 
Ivone Benitez Fernandez de la Reguera. em 29/01/2014 19:53:30
Que linda história, que lindo exemplo, é deste tipo de pessoas honestas que campo grande precisa, mas que infelizmente esta cada vez mais raro.
Hoje em dia o que mais se vê no neste ramo deserviços é uma concorrência desonesta, com absurdos típicos de empresários, se é que podem ser chamados assim, que não cumprem com suas obrigações.Sem contar com o lado desumano de empresas deste ramo que não pagam o acerto trabalhista à seus funcionários, pois conhecendo as leis brasileiras, preferem que os mesmos vão para justiça cobrar seus direitos, e, neste meio tempo, fecham suas empresas, abrem em outros lugares, com outros nomes, mas com os mesmos equipamentos penhorados pela justica do trabalho. Isso também me enche os olhos de lágrimas, saber que existe isso no mesmo país de uma Tupi.
 
maria roseane da silva em 29/01/2014 18:24:16
Que bela matéria para bens ao seu produtor por divulgar uma historia simples porem de muito de muito valor histórico demonstra a importância do trabalho de pessoas honestas , de precipícios ético e moral que dificilmente se encontra nos dias atuais é muito mais facil recorrer ao famigerado bolsa família mesmo que para isso tenham que votar nos políticos corruptos que os sustentam sem tralhar. Parabéns a esta família honrada.
 
antonio carlos em 29/01/2014 18:09:18
parabéns a reportagem, muito boa mesmo!
 
Gesner Willeman em 29/01/2014 18:07:20
bonita história de um casal paraguaio que deixou sua pátria e veio para o BRASIL TRABALHAR E CONVIVER DIGNAMENTE COM OS IRMÃOS BRASILEIROS.PARABENS POR NARRAREM UMA HISTÓRIA DE VIDA TÃO BONITA.BELO EXEMPLO..
 
francisco de sá em 29/01/2014 16:59:47
Conheci Dona Chinita, Seu Antonio e amiga de suas filha em tornei. Dona Chinita sempre séria mas focada no trabalho , Seu Antonio sempre com um sorriso no rosto. Lembro de diversas passagens da lavanderia, porque frequentava muito a casa, éramos vizinhas, Ivone e Eu éramos coladas, muito de nossos papos na adolescência foi na lavanderia nos sábados a tarde, 800 caracteres nem daria para começar...Além disso D. Chinita fazia sopa paraguaia e chipa como ninguém. Guardo com muito amor e carinho essas lembranças.
 
Denise Escudero em 29/01/2014 16:47:24
Linda reportagem, tive o prazer de conhecer essa família exemplar, Lourenço que Deus te permita viver por muitos anos, contando essa historia. abraços Clélia
 
clelia Cruz em 29/01/2014 16:37:26
Digna de referências elogiosas a reportagem, assim como, todos os personagens que compõem a família e a historia da dona Chinita e do "seo" Antônio, que eu os chamava afetivamente de DX e Conterrâneo, respectivamente. Tornei-me cliente da Lavanderia Tupi, quando funcionava na rua Maracaju e tive o privilégio de ficar não apenas cliente, mas amigo, e do que, muito me orgulho. Como não me referir ao 'seo' Taquapi! Lembro que, com DX, por vezes, eu chegava na lavanderia no sábado às 11:30 hs, quando já estava fechando, só para ouvi-la dizer: "pra hoje, não dá mais tempo de lavar." Saudades e emoções, marcas que ficarão para sempre. Abraços para todos os membros da família da Dona Chinita e seu Antonio, e para Hermelinda e Neusa, integrantes da inesquecível e saudosa Lavanderia Tupi.
 
José Canrobert Rocha de Araujo em 29/01/2014 16:31:25
Parabens á familia e ao repórter, no inicio dos anos 80, ia sempre na Tupi com meu finado pai Toninho Nahas, os elogios, sobre o modo como éramos recebidos e principalmente pelo trabalho executado, eram constantes, na época nem existia lavanderia direito, mas lá estava a Tupi, abria cedinho, e o serviço era garantido, tudo ficava nos trinques, bons tempos, excelentes pessoas...
 
MAXIMILIANO NAHAS em 29/01/2014 16:02:19
nossa meus olhos se encheram de emoção ao ter o prazer de ler ....
"“Mas viria o tempo em que teria de passar roupa só. E a última peça de roupa a passaria devagar, propositalmente devagar, para não calar o chiado do ferro... Se é que há algo contra o que não podemos nada fiar e que é um dos tristes constados desta vida, como um tereré com água que ninguém tomaria mais e ora se esquentava num costumeiro canto do balcão, é que as máquinas têm seu ciclo, as pessoas têm seu ciclo, as cidades têm seu ciclo; o mundo tem seu ciclo e a vida de uns não se repete em horas como a gente quer...”
parabéns pela reportagem !!!! emocionante!!!!
 
Fabricia Nunes em 29/01/2014 14:52:39
Parabenizo a autora do artigo, Sra.Paula Maciulevicius, pela sua sensiblidade em explorar o tema e pela qualidade do mesmo. Chamo a atenção para a luta, repleta de trabalho honesto e competente, empreendida principalmente pelos fundadores da Lavanderia Tupi. Dois ferros de passar, capital para um mês de aluguel e muita coragem, vontade de vencer e dedicação. Muito diferente dos dias atuais quando se procura justificar muitos crimes praticados através das desigualdades sociais. O trabalho e os bons princípios sempre fizeram a diferença. Parabéns.
 
Newton Ganne em 29/01/2014 14:14:55
Bela história. Os verdadeiros valores foram cultivados por esta família. Parabéns!!!
 
Ernandes Novaes em 29/01/2014 13:12:17
História de vida edificante e exemplar. O casal chega em Campo Grande, acreditando sempre no futuro, investe, trabalha e se dedicam anos em exercer uma certa atividade. Hoje, já estão fisicamente entre nós, mais... seus feitos perpetuarão!! Bela matéria, é isso que gosto ler, coisas boas. Parabéns a família e também ao profissional responsável pela matéria.
 
cleder flores de oliveira em 29/01/2014 10:50:42
Minha infância e parte da adolescência morei numa casa em frente a Lavanderia Tupi onde por vezes meus pais mandavam lavar roupas as quais retornavam sempre impecáveis. Nossas famílias se tornaram amigas, as lembranças são muitas e as melhores possíveis. SR. Antônio, Dona Chinita e Taquapi os verdadeiros responsáveis pelo sucesso da empresa e o legado deixado.
Marcia Reggiori Advogada em Campo Grande/MS.
 
Márcia Reggiori em 29/01/2014 10:49:01
Precisamos desse tipo de história, conhecer os valores de pessoas honestas como a desse casal exemplar. Parabéns a linda reportagem.
 
Fabricio Cervo em 29/01/2014 10:43:48
Que bela história, retrata com clareza a transição pela qual passa a nossa "Capital com jeito de interior", rumo ao futuro, sem se esquecer jamais do passado.
Parabéns pela matéria, e que possamos sempre guardar com carinho essas lembranças que fazem nossa História.
 
Sérgio Araújo em 29/01/2014 10:39:18
Bela história ! Excelente redação ! Parabéns...
 
Germano Souza em 29/01/2014 09:51:35
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