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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

26/08/2016 07:20

Libanês chegou sozinho, foi chamado de louco, mas não abriu mão do Monte Líbano

Thailla Torres
Marie e Abdallah estão juntos há 44 anos vivendo em Campo Grande desde a lua de mel. (Foto: Alcides Neto) Marie e Abdallah estão juntos há 44 anos vivendo em Campo Grande desde a lua de mel. (Foto: Alcides Neto)

A vontade de um menino com coração cheio de sonhos fez Abdallah Georges Sleiman partir do Líbano com destino ao Brasil aos 15 anos. Com a sede de trabalho correndo nas veias, ele colocou os pés em Campo Grande pela primeira vez em 1951. Encontrou uma geração de libaneses que já movimentava o comércio ainda em desenvolvimento. Anos mais tarde, criou o bairro Monte Líbano e entrou para a história da cidade. 

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Nos 117 anos de Campo Grande, as lembranças vêm dos avós que chegaram primeiro, no início do século passado. Sem muitos detalhes, na mente do neto ficou o exemplo de trabalho. "Meu avô veio com a família primeiro, junto com uns 50 ou 70 libaneses. Eram vizinhos e viviam como lavradores. Não sei ao certo porque vieram ou escolheram Campo Grande, mas chegaram para trabalhar", recorda o neto hoje, aos 80 anos. 

Quando Abdallah decidiu vir para o Brasil, não houve tempo de encontrar parte da família que já havia partido. Em Campo Grande, encontrou a segunda geração, de primos e primas, que já trabalhavam com o comércio na Rua 14 de de Julho. 

Me chamaram de turco louco, mas eu sabia que Campo Grande ia longe. (Foto: Alcides Neto)"Me chamaram de turco louco, mas eu sabia que Campo Grande ia longe". (Foto: Alcides Neto)

De navio, foram 38 dias de viagem até finalmente o garoto chegar ao Brasil. "Meu pais ficaram lá no Líbano, eu vim porque tinha uns primos aqui e por isso decidi. Quando cheguei, a cidade era pequena, tinha uns 35 mil habitantes. Os libaneses tinham loja de roupas feitas, remédios, brinquedos, coisas pessoais e materiais de construção. Tinha um pouco de tudo. Era o movimento da cidade e foi ali que eu comecei a trabalhar com eles", descreve.

Nos tempos de cidade pequena, era no Centro onde as pessoas se encontravam. "Era por ali que as pessoas caminhavam, curtiam e conversavam. Lembro dos cinemas, do relógio e tudo enquanto a gente trabalhava", conta.

Marie mantém a decoração e as músicas árabes, mas é a energia daqui que encanta a família. (Foto: Alcides Neto)Marie mantém a decoração e as músicas árabes, mas é a energia daqui que encanta a família. (Foto: Alcides Neto)

Entre os anos de 1960 a 1969, tudo mudou. Ele decidiu fundar o bairro Monte Líbano, em uma área distante do Centro, apesar de muita gente não acreditar. "Me chamaram de turco louco, dizendo que era longe da cidade, que ninguém seria doido de morar tão longe, porque naquele tempo a cidade praticamente acabava na Praça Ari Coelho", ri.

O lugar era um matagal, mas a força de vontade falava mais alto. "Fiz um loteamento muito bonito. Plantei árvores, fizemos meio fio e calçada. Tanto, que as pessoas iam lá e olhavam admiradas", diz o libanês.

Abdallah nunca mediu esforços para seguir adiante. Deu o pontapé na construção de casas e condomínios pela cidade. 

Na Rui Barbosa, os apartamentos antigos, de 4 andares, com a tinta desgastada pelo tempo, foram alguns dos primeiros apartamentos erguidos pela família Sleiman. "Construi 250 apartamentos e 150 casas. Foi importante, porque participei um pouco do crescimento dessa cidade, eu sabia que aqui era uma cidade promissora. Me chamaram de louco, mas eu acreditava em Campo Grande", cxplica. 

Depois disso, vieram outros condomínios conhecidos pela cidade, como o Residencial Oriente, na Avenida Fernando Correa da Costa, esquina com a Rui Barbosa e o Conjunto Residencial 13 de Maio, também no bairro Monte Líbano.

"Hoje eu sei que não morro por conta de trabalho. Quando cheguei aqui nunca tirei férias, nem sabia o que era sábado ou domingo de descanso. Trabalhava dia e noite, mas isso era motivação", reforça Abdallah. 

Residencial Rui Barbosa é prédio antigo idealizado pelo senhor Sleiman. (Foto: Fernando Antunes)Residencial Rui Barbosa é prédio antigo idealizado pelo senhor Sleiman. (Foto: Fernando Antunes)
Residencial Oriente na Fernando Correa com Rui Barbosa. (Foto: Fernando Antunes)Residencial Oriente na Fernando Correa com Rui Barbosa. (Foto: Fernando Antunes)

A fé que Abdallah sempre teve pela cidade rendeu dinheiro e, principalmente, uma família. Quando se apaixonou por Marie Rose Jabbour, durante uma visita ao Líbano em 1972, casou-se e não pensou duas vezes em trazer a esposa para Campo Grande. 

"A gente viveu mais aqui do que no Líbano. Nós tivemos muita sorte de ficar aqui. Cidade nova, de ruas bonitas e largas. Acho que somos até suspeitos para falar, já que vi crescer. Eu também acompanhei parte do desenvolvimento e a gente se sente em casa. É a nossa segunda pátria, porque o povo brasileiro é maravilhoso", comenta Marie. 

A família ainda mantém os costumes do Líbano, mas assume que o coração já pertence a Campo Grande. "O que a gente mantém aqui é a culinária e escutamos música árabe. Quando tem evento, trazemos artistas de fora para fazer festas, a decoração eu também gosto de manter com as coisas trazidas de lá. Procuramos manter os costumes dessa maneira", diz ela. 

E para fechar com todo carinho, o casal gravou vídeo para dar parabéns a Campo Grande em árabe, que em português significa "Em meu nome e de todos os libaneses, desejamos a todos de Campo Grande um feliz aniversário. E muitos anos de paz, sucesso e desenvolvimento. Parabéns de novo para o povo Campo Grandense".




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